Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

Põe-te em movimento, anda! Abençoado seja todo aquele que caminha.

Image result for Viagens - Olga Tokarczuk

Sabendo que ia ter uns dias em que, por força maior, iria estar impedido de andar, passei pela FNAC (tenho muita saudade das velhas livrarias do Porto, mas os tempos são outros) e procurei um livro que, de outra forma, me transportasse para outros lugares. A escolha foi rápida: A imagem da capa, o título - sim, o título -, a autora, prémio nobel a literatura. 

Comecei  a ler e não é uma leitura fácil. Não são, propriamente contos e também não é um romance. É à medida que vamos lendo que nos deparamos com um puzlle e que nos compete a nós construí-lo. Para isso, temos de encontrar a cola que une as peças que encontramos no título original: BIEGUNI, que a tradutora em nota de rodapé explicita "Designa uma seita de antigos crentes ortododoxos que tratavam o movimento de maneira sagrada. Estar em constante movimento e atravessar fronteiras significava para eles não se apegar a nada e tentar fugir do mal que tenta privar-nos da liberdade". 

É também um retrato e uma crítica à nossa sociedade tão veloz e tão estática 

"Aquele que parar ficará petrificado; aquele que se detivera por um instante será alfinetado como o inseto, o seu coração será teres passado por uma agulha de madeira, as suas mãos e pés serão furados e pregados as ombreiras das portas.
Foi assim que morreu aquele que usou revoltar-se. Foi capturado e o seu corpo pregado na cruz, imobilizado como o de um inseto, para ser visto por olhos humanos e inumanos, mas principalmente por inumanos - os que mais se de leitam com estas cenas. Por isso, não é de estranhar que a reconstruam todos os anos e a celebrem, rezando a um corpo morto. E é também por isso que os tiranos de todas as espécies são servos infernais que transportam no sangue o ódio de morte aos povos nómadas. Daí as perseguições a judeus e ciganos. Daí que os homens livres sejam forçados a estabelecer-se e, depois marcados com uma morada que para nós é uma sentença. O que eles pretendem é estabelecer uma ordem sólida e tornar a passagem do tempo aparente, de modo a que os dias se tornem repetitivos e não se distingam uns dos outros. Querem construir uma grande máquina, na qual cada criatura terá de ocupar um determinado lugar executar movimentos, também eles aparentes - as instituições e os gabinetes, os carimbos e as circulares, a hierarquia e os cargos, as patentes, os requerimentos e os indiferimentos, os passaportes, os números, os cartões, resultados das eleições, as promoções e acumulação de pontos e a troca de umas coisas por outras.

Alfinetar o mundo com a ajuda de códigos de barras, colar um rótulo em todas as coisas para que se saiba que a mercadoria e é aquela e quanto custa. Que esta estranha língua seja incompreensível para as pessoas, que seja apenas lida por máquinas e autómatos e que estas façam recitais da sua poesia em códigos de barras, pela noites dentro, no interior das grandes lojas subterrâneas.

Põe-te em movimento, anda.! Abençoado seja todo aquele que caminha.

publicado por julmar às 18:11
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2 comentários:
De Fernando Costa a 17 de Novembro de 2019 às 09:54
Temos algumas coisas em comum: nascemos no mesmo ano (1951), eu em 14 de Fevereiro; damos alimento a alguns blogs (eu a 4, o Júlio Marques a 3; escrevemos sobre as nossas terras (o Júlio sobre Vilar Maior, eu sobre Trancoso); o gosto de andar a pé, embora um problema no joelho esquerdo não mo esteja a permitir.
De Vilar Maior publiquei uma lenda "O Alferes e a Virgem", a qual circula em verso de recuados tempos, num volume sobre as lendas do distrito da Guarda (curiosamente ou não, a C.M. do Sabugal não aderiu). Do Sabugal, para além da monografia do Dr. Joaquim Manuel Correia, possuo uma pequena monografia "Vilar Maior- história, monumentos e lendas", de Mário Simõers Dias, bem como "Marcos do Passado - Aldeia da Ponte - Terra do Riba Côa", de José Prata e "A Antiga Vila de Sortelha", de Vítor Neves.
Vim até aqui por sugestão do blog Sapo "Criatividade"; e tem leitor assegurado.


De Julio Marques a 18 de Novembro de 2019 às 17:31
Boa tarde, Fernando Costa
É sempre um prazer encontrar gente que comunga dos mesmos interesses. A lenda que refere também a publiquei na minha monografia sobre Vilar Maior da qual irei fazer uma nova edição no próximo ano.
Abraço


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