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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Plágios e copianços

julmar, 21.10.14

Consultado o dicionário Houhaiss da Língua Portuguesa sobre o significado de plágio: 1. acto ou efeito de plagiar; 2. JUR apresentação feita por alguém, como da sua própria autoria, de trabalho, obra intelectual, etc produzido por outrem. ETIM gr. plagios,a,on 'oblíquo, que não está em linha recta, que está de lado; transversal, inclinado, p,ext.que usa meios oblíquos; equívoco, velhaco. Todos os que passámos pelos bancos da escola temos experiências de aprendizagem e dos apertos em que se viram quando tivemos de prestar contas do que andámos a fazer, fosse em testes, em trabalhos ou em exames. Nos testes o recurso a cábulas e copianços exigia, por vezes,engenhos, artes e manhas deveras criativas. Lembro, no meu tempo de estudante do antigo 5º ano, no seminário, os testes de matemática. O Dr Brandão, cónego do cabide da Sé de Beja, e meu professor de Matemática, tido por nós como uma sumidade na matéria, tinha o seu próprio caderno de exercícios exclusivo a que chamávamos o 'Canhenho'. Ora, como há muitos anos dava aulas e os exercícios eram sempre os mesmos, ano após ano foram-se coligindo os ditos exercícios de modo que ao meu tempo já circulavam entre nós cópias dos referido 'Canhenho'. Habituámo- nos a confiar na perícia de algum de nós em encontrar, no dito 'canhenho' as resoluções dos exercícios durante o teste. O que primeiro o encontrasse copiáva-o para um papel e passava-o a um que por sua vez fabricava mais uma cópia que punha a circular; por vezes, o exercício era colocado nas costas da capa negra que o dr Brandão trazia e, qual placard ambulante, ao passear pelas filas, cada um ia copiando. Isso levou a uma coisa ruim que no exame, com vigilância apertada, não me tendo chegado as cópias necessárias tive uma nota que me obrigou a ir à oral onde, raramente alguém se safava. Quem chumbasse em Junho tinha que prestar provas em Outubro. Foi assim que descobri a matemática, sem professor, sem explicador, sem colegas,Só com o livro do Calado e o caderno de exercícios de Palma Fernandes (Perguntem aos alunos de matemática de hoje quem são os autores dos seus livros) treinei todos os dias porque nem me passava pela cabeça que eu pudesse chumbar. A minha avó ficava impressionada: Ai, filho que tu dás cabo da vista sempre a leres. A verdade é que fiz o exame com êxito, para grande espanto do Dr Brandão. Espantado fiquei eu comigo por ter descoberto que, afinal, a matemática erra uma coisa fixe, que eu gostava de praticar matemática. Hoje sei que só na matemática o espírito verdadeiramente se ilumina pela exacta compreensão do que intelige. É essa experiência que Descarte nos narra no Discurso do Método. Passei a minha vida dentro da escola como aluno e como professor e sempre de maneira crítica. Fui aprendendo o que era mais e menos importante até aprender que o verdadeiramente importante era mesmo aprender, o prazer de arender, ainda que trabalhoso. Copiar nos testes é sempre enganar alguém que merece ser enganado, seja o professor, seja o sistema. Por isso, os testes ou trabalhos que dava em Filosofia eram feitos de forma a que o engano não fosse possível. A brincar a sério, dizia aos meus alunos que podiam fazer copianços para os testes mas que só os deviam usar se estivessem bem feitos. Perguntavam-me como sabiam que estavam bem feitos e eu pedia-lhes que mos dessem para analisar. É que quem fizer um copianço bem feito, não vai precisar dele. Plagiar fica para a próxima.