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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Os meus amigos não morrem

Avatar do autor julmar, 19.01.26

Alberto Bastos – Apresentação do livro:

Volfrâmio: “Suor o deu, suor o levou” e "Cambra na Diáspora"

  1. Cumprimentos protocolares e saudações:

Presidente da Câmara e vereação, à Direção da Associação Cívica Alberto Bastos, na pessoa do seu presidente Adriano Castro, aos familiares do Alberto, aos cambrenses sócios da Associação e aos futuros sócios.

  1. Agradecimento pela honra de me ser dada a palavra para falar um pouco do Alberto e da sua obra

"Estou aqui hoje e podia contar-vos uma história … ou várias, se o tempo não fosse o bem mais escasso de que dispomos. É disso que a nossa vida é feita e cada um de vós pode contar a vossa respondendo a uma pergunta simples: - como conheceram o Alberto? A palavra milagre é pouco adequado na boca de um filósofo ou de um cientista, mas não o é, de todo, na boca de um poeta. E é um milagre que cada um de nós esteja aqui, que estejamos nós e não outros. Ao pensar no que aqui diria hoje fui levado para um passado que não julgava tão distante: em 1973, no princípio de outubro, início do ano letivo, andava um bacharel em Filosofia, aflito, à procura de emprego. Numa cabine telefónica, em Oliveira de Azeméis (a cabine ainda lá está e é hoje um posto de leitura) fez chamadas para várias escolas e, a última delas para a Escola Técnica de Vale de Cambra. À pergunta, se havia algum horário disponível, que sim que havia um horário, que sem falta fosse no dia seguinte. Tomou a camioneta do Caima, passou por Ossela, lembrou Ferreira de Castro e o livro “Os Emigrantes” que lera recentemente e pisou solo cambrense, pela primeira vez. Antes de descer da camioneta, perguntou ao motorista onde era a escola: É logo ali! À porta, estava um senhor, que era nem mais, nem menos o diretor, o dr Vide. Entraram no gabinete: - Aqui tem! E passou-lhe para a mão o horário: História: 12 horas diurnas, 6 turmas (3º, 4º,5º anos) e Português: 17 horas noturnas, várias turmas de vários cursos e anos. Total 29 horas! Disse-lhe: SR Dr., preferia ficar só com Português ou História, pois que ainda tinha o curso para acabar. Ele com uma palmadinha nas costas. Fica com o horário todo. Vai ver que vai ganhar um bom dinheirinho. Entre vários conselhos, pegou num stencyl e explicou como se escrevia nele. O importante era que os alunos tivessem notas. Por fim, entregou-lhe esta caderneta que agora vos mostro. O bacharel guardou-a. Durante a longa carreira de professor nunca guardou mais nenhuma.  Em outubro próximo, fará 50 anos.

Um ano depois da chegada do Bacharel a Vale de Cambra, chega, num dia das férias grandes, o Alberto com o Víctor Leite a Vilar Maior, a minha terra natal, vindos de uma viagem a Andorra, e por ali, ficaram uns dias o suficientes para nunca mais esquecerem a hospitalidade recebida. Com efeito, a Graça que por graça do João era o meu pai, sempre dava o melhor pelos meus amigos: Na mesa a toalha de linho imaculada, o pão sempre igual em cada dia, o vinho igual em cada ano, combinados com chouriço e presunto, guardados para tais ocasiões.

E dizia a Graça e insistia o João: coma um pouco de queijo, beba um pouco de leite, ande lá não faça cerimónia! Olhe que é tudo cá da casa!

Escrevi no meu Badameco, quando soube da tua morte. E contei uma história, de tantas outras, que ficam por dizer. Na compreensão que tinha de ti do modo como sentias, vivias e escrevias. Hoje quando te leio é como se estivesse a ver-te. Em palavras sobre a vida dos outros talhas o teu retrato num corpo que retrata a alma, esse teu do poema que escreveste - ‘Olhar – lume vivo, chama acesa’ Pg 9

Sim, o Alberto era um poema, estava imerso em poesia, tudo era poesia. Como adivinhaste que estaríamos aqui quando tiraste o teu retrato no Sousa do Codal?

Escrever era, para ti, o alívio do peso das ideias, do excesso de sentir, era uma urgência que se manifestava numa tensão do corpo e da alma, na crença do poder da palavra: “A haver mudança, seja sim, sem mais tardança.” Cumprias, talvez sem o saber, o ditame do padre António Vieira “O melhor retracto de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o pincel. A alma com a pena”.