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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

O elogio da merda

julmar, 20.12.19

«Merda: palavra-chave do inspector Otero, de significado amplo e muito pessoal. ‘Merda até ao traço do lábio’: locução que utiliza frequentemente para designar um sentimento ou uma situação de impotência absoluta»

In, Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires, Colecção Mil Folhas, pgs 32/33

Também se pode ter uma conversa de merda de uma forma elevada, tudo depende do tipo de parlatório: tribuna, púlpito ou do alto da burra, mas sempre de um local elevado.

Tudo é merda, ou porque daí veio ou porque para lá caminha. E a humanidade, em geral, e cada um de nós em particular, deve-lhe mais do que está disposto a conceder. Se os primeiros filósofos andaram em busca da arquê enquanto princípio de que todas as coisas são feitas para explicação do mundo material (o fogo, a terra, o ar, a água em separado ou todos no seu conjunto), se tivéssemos de procurar o princípio da humanidade bem poderíamos dizer que esse princípio é a merda. Biblicamente poderíamos substituir a volatilidade do pó pela maior consistência da merda: «Memine, homine, quia pulvis es et in pulvis reverteris». Igualmente, quando no Evangelho se diz «Pelos frutos os conhecereis» se poderia substituir frutos por merda, porque ela é um sinal da doença e da saúde, ela traça a identidade de cada um - não há duas merdas iguais.

Num materialismo grosseiro, apesar do qual, ou através do qual se tornou famoso, Proudon afirmava que o homem é aquilo que come. Num materialismo igualmente grosseiro mas mais mal cheiroso poderíamos afirmar que o homem é aquilo que caga. Um homem é medroso no caso de se cagar de medo; é um valentão se mete um cagaço a alguém. Como se vê pelo cagar se mede a personalidade de cada qual. Se se diz de alguém que é um cagão, está tudo dito. Cagões é o mais que por aí abunda e Portugal é cada vez mais um país de cagões.

Também há quem não dê peido que bem cheire. Há pessoas tão forretas, tão avaras que nem peidos dão e que de tanto se encolherem trocam sonantes peidos com que gostosamente se aliviariam por bufos malcheirosos que torna suspeitos todos os circunstantes. Era assim que um professor meu de sociologia nos explicava a razão de serem necessários 3 indivíduos para constituir um grupo: Ao contrário de dois, se forem três indivíduos e um deles se bufar, torna-se impossível saber quem foi. E sem suspeição não há grupo, concluía ele.

Está por estudar, creio eu, e porque há gente para tudo e até para estudar a merda, o seu contributo na disseminação das espécies botânicas.

 Há um ror de gente desejoso que o próximo faça merda, sobretudo entre companheiros de profissão.

Dizia uma quadra do tempo da merda da Ditadura:

Se o isqueiro paga imposto

E o fósforo imposto paga

Daqui a pouco paga imposto

A merda que a gente caga

Nunca na merda da ditadura se pagou tanto imposto como na merda da democracia,  aliada da civilização, que em vez de merda lhe chama “detritos sólidos”dos quais envia ao prezado leitor deste texto de merda uma fatura mensal. Porque mudaram as moscas mas a merda é a mesma, prova-se que tudo o que é essencial é universal. E quando ainda não havia facebook, a veia poética dos cagões, deixa gravado a navalha, nas portas das retretes, nessa privacidade universal, a inspiração expirada:

Neste local solitário

Onde a vaidade se apaga

Todo o fraco faz força

Todo o valente se caga

Merda é das palavras mais generalistas e tal como a palavra coisa dá para suprir toda a deficiência designativa das realidades, razão porque há tanta gente com elas na ponta da língua.

Apesar dos inúmeros sinónimos (excrementos, fezes, dejectos, porcaria, caca…) nenhum deles a traduz de forma perfeita.

E se o leitor já está farto destas merdices, vou contar-lhe uma história de merda.

Num daqueles anoiteceres frios de primaveras tardias, um passarinho meio implume que mal ensaiava o voo e se extraviara da mãe e dos irmãos sentiu-se enregelado. Quis o destino que uma vaca lhe colocasse uma farta bosta em cima o que lhe proporcionou uma noite aconchegada. Quis o destino que um gato madrugador, à procura do pequeno-almoço, firmado nas patas, surpreendido, tenha visto uma cabecita a espreitar daquela bola a fumegar e Zás! Uma sacudidela e era uma vez um passarinho.

Então, toma atenção porque:

 Nem todo o que te mete na merda te quer mal

Nem todo o que te tira da merda te quer bem

 Quando te meteres na merda, enterra-te bem nela

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