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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Notas, notáveis e anotações

Avatar do autor julmar, 10.09.21

Desde a primeira vez que ouvi falar de Sócrates, de que me não lembro por não ter anotado, não me poupei a esforços para ir entendendendo, aos poucos, o alcance das suas palavras mais em forma de interrogação do que de afirmação. A sua importância na cultura ocidental é decisiva: sem ele, não haveria Platão, nem Aristóteles e também eu não estaria aqui, sentado ao computador, 2400 anos depois, a testemunhar a minha gratidão e admiração. Apraz-me recordá-lo a cirandar pela ágora metendo conversa com este e com aquele, a desassossegar políticos e sofistas, a querer compreender a azáfama dos homens na satisfação de necessidades e interesses, perguntando tudo a todos na procura de si mesmo. O seu amigo Querofonte, impressionado com a figura de Sócrates, dirigiu-se ao santuário de Delfos, onde entre várias mensagens inscritas se podia ler: Conhece-te a ti mesmo. Querofonte perguntou ao oráculo de Delfos: "Quem é o homem mais sábio de Atenas?" Sócrates é o homem mais sábio de Atenas, foi a resposta. Ora, Sócrates, ciente da sua ignorância, razão por que fazia tantas perguntas, riu-se. Porém, refletiu e pensou: De facto, as pessoas com quem falo, todas têm respostas diferentes, ou não, para as perguntas que faço e estão absolutamente certas. Mas também é verdade que eu sei que aquelas respostas absolutamente certas não são sustentáveis quando as analisamos racionalmente. Por isso, eu tenho uma vantagem sobre elas porque não estou enganado, mas estou certo quando digo: Só sei que nada sei

Sócrates com esta afirmação de douta ignorância tinha andado metade do caminho. Com a ironia, esse exercício de simulação pelo qual aceitando as respostas do interlocutor as sujeitava a um exame que as revelava como inaceitáveis racionalmente levando o interlocutor à aceitação do seu não saber.

Agora, era possível iniciar a outra metade do caminho, a maieutica, um trabalho que Sócrates achava ser semelhante ao trabalho do seu pai - escultor - e ao trabalho de sua mãe - parteira. Como eles queria trazer à luz uma realidade escondida.

Toda a filosofia começa com a destruição do saber comum, com o saber estabelecido, por isso, é tão incómoda.