Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Leituras - Quando um burro fala ...

Avatar do autor julmar, 23.01.15

 

Os portugueses ouvem mal, ouvem-se mal, soam mal. Falam muito, falam depressa, falam uns por cima dos outros, falam para não deixar ouvir os outros, falam de tudo, falam sobre tudo. Falam para atacar, falam para defender. Raramente falam para mostrar, raramente falam para perguntar, para se perguntar. A televisão é o seu lugar preferido e por ali se vê o retrato do país. 

Há áreas importantes para a qualidade de vida e da educação das pessoas a que - quase- se não presta atenção. 

Quase poderíamos dizer:« Diz-me qual é a paisagem sonora do teu país, dir-te-ei como é».

«Ouvir o outro não se faz sem silêncio e reflexão. Em Portugal, as vozes soam sempre demasiado alto e de forma confusa, lançam-se muitos foguetes, bate-se com muita violência nos bombos, ovaciona-se frequentemente, de forma muitas vezes despropositadam, mas a estes actos não corresponde, o mais des vezes, uma escuta cuidada e atenta. Talvez esteja aqui a explicação para a expressão popular "quando um burro fala o outro baixa as orelhas». A palavra «diálgo», em Portugal, parece enquadrar-se neste jogo de baixar as orelhas uns aos outros. Mas a epressão contém uma contradição que talvez justifique e dê especificidade ao problema português: não se pode querer falar e convidar, ao memso tempo, o ouvinte a encolher as orelhas. Sabendo que não irão ter ouvidos para ouvir, os oradores cuidam pouco daquil que dizem e os ovintes limitam-se simplesmente a abanar acabeça. Na verdade, parece-me que, tenham ou não algo para dizer, é indiferente aos oradores se vão ou não ser ouvidos.» pg 17

In, Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa, Carls Alberto Augusto, Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Lisboa, 2014