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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Leitura de Fevereiro - Mudar o Mundo

julmar, 20.02.14

 

Era ainda estudante quando conheci N. Chomsky, na altura em que, à margem do curso de Filosofia, me interessava pela Linguística. Gostei especialmente, neste livro, do único capítulo dedicado à Línguística(Cp. Aprender a Descobrir), pela questão linguística mas, concomitantemente pela crítica ao senso comum, ao modo como se faz ciência e ao modo como se educa.

Interessante a crítica feita às políticas neoliberais e, portanto e sobretudo aos Estados Unidos. Mas o título é, de fato, ambicioso, "Mudar o Mundo" para chegar à conclusão tácita de que o mundo não se muda de fora. Mudam-se apenas as formas de dominação mas lá por baixo fica tudo na mesma.

Por isso, prefiro seguir o conselho de R. Descartes de antes preferir mudar-se a si do que mudar a ordem do mundo:

"Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo; e, em geral, a de habituar-me a acreditar que nada existe que esteja completamente em nosso poder, salvo os nossos pensamentos, de maneira que, após termos feito o melhor possível no que se refere às coisas que nos são exteriores, tudo em que deixamos de nos sair bem é, em relação a nós, absolutamente impossível. E somente isso me parecia suficiente para impossibilitar-me, no futuro, de desejar algo que eu não pudesse obter, e, assim, para me tornar contente. Pois, a nossa vontade, tendendo naturalmente para desejar apenas aquelas coisas que nosso entendimento lhe representa de alguma forma como possíveis, é certo que, se considerarmos igualmente afastados de nosso poder todos os bens que se encontram fora de nós, não deploraremos mais a falta daqueles que parecem dever-se ao nosso nascimento, quando deles formos privados sem termos culpa, do que deploramos não possuir os remos da China ou do México; e que fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos mais estar sãos, estando doentes, ou estar livres, estando presos, do que desejamos ter agora corpos de uma matéria tão pouco corruptível quanto os diamantes, ou asas para voar como as aves. Mas confesso que é preciso um longo adestramento e uma meditação freqüentemente repetida para nos habituarmos a olhar todas as coisas por este ângulo; e acredito que é prin- cipalmente nisso que consistia o segredo desses filósofos, que puderam em outros tempos esquivar-se do império do destino e, apesar das dores e da pobreza, pleitear felicidade aos seus deuses. Pois, ocupando-se continuamente em considerar os limites que lhes eram impostos pela natureza, convenceram-se tão perfeitamente de que nada estava em seu poder além dos seus pensamentos, que só isso bastava para impossibilitá-los de sentir qualquer afeição por outras coisas; e os utilizavam tão absolutamente que tinham neste caso especial certa razão de se julgar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que quaisquer outros homens, os quais, não tendo esta filosofia, por mais favorecidos que sejam pela natureza e pelo destino, nunca são senhores de tudo o que desejam." In, Discurso do Método - Terceira parte.

Diremos que isto é muito conservador. Sem dúvida. Mas também Chomsky se declara um conservador, um conservador com valores. E é aí que vai bater a última questão que lhe é colocada:

- E que conselho daria aos jovens?

- (...) De modo algum se pode responder por outra pessoa a perguntas como: "A que devo dedicar a minha vida? Como devo viver?" Trata-se de coisas que temos de descobrir por nós mesmos.

É exatamente assim: A ausência de domínio e a afirmação da liberdade só pode acontecer nascida de dentro de cada um. Daí a importância da educação, da educação alicerçada no "Conhece-te a ti mesmo" socrático. Esse é o caminho. Sem atalhos.