Guerra na sombra
julmar, 17.06.21

Algumas das conversas com os meus filhos são sobre livros e leituras. Coisas que vêm do tempo em que nem ler sabiam. Era o tempo em que não tínhamos receio de deixar os filhos irem a pé para a escola ou que, nas compras nos recém chegados hipermercados, ficavam sentados no chão na seccção dos livros enquanto os pais fazíamos as compras. Sabiam que se pedissem livros eu nunca dizia não. Continuamos a comprar livros, a falar sobre livros. Também esta leitura resultou de uma dessas conversas sobre a minha aldeia e sobre a exploração e contrabando de volfrâmio.
- Então tens que ler este livro!
E li. Salazar, habilmente, vendia o minério, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, aos Aliados e aos Alemães, procurando manter a neutralidade ao mesmo tempo que enchia os cofres de ouro. O autor descreve-nos pormenorizadamente este difícil exercício da política de Salazar, da cidade de Lisboa tornado um centro de diplomacia, de espionagem, de refúgio dos perseguidos pelo nazismo e também dum país rural e pobre. O extrato seguinte lembra-me as histórias ouvidas sobre o inebriamento da gente da aldeia que ganho com suor, nunca vira tanto dinheiro. Sem o saberem eram eles que garimpando de dia e contrabandeando à noite alimentavam a guerra.
Como resultado, houve uma grave perturbação da economia local em algumas partes de Portugal. Pois, como testemunharam as aldeias com minas de volfrâmio, era como se seus habitantes tivessem coletivamente ganhado a loteria. Como muitos ganhadores da loteria, eles não sabiam realmente como gastar ou investir seus ganhos inesperados. Havia histórias de aldeões em áreas de minas de volfrâmio acendendo seus cigarros com notas de escudo. Agentes de ambos os lados da guerra que tentavam comprar volfrâmio nas aldeias se depararam com fraude e engano, e o termo “wolframista” - que significa aproveitador de guerra - entrou no dicionário português. pg113