Domínio - Como o Cristianismo transformou o pensamento ocidental
julmar, 11.06.25

Na cultura tudo se liga. O passado longínquo que não vivemos reencontramo-lo em manifestações várias. Foi assim, que ao chegar á página 288, me reencontro com a heresia dos albigenses (séc. XII) e me veio à memória a música que trauteei na adolescência, passada na clausura do seminário diocesano de Beja, em 1966:
Dominique, nique, nique
S'en allait tout simplement
Routier, pauvre et chantant
En tous chemins, en tous lieux
Il ne parle que du Bon Dieu
Ler este livro é embarcar num navio conduzido por um timoneiro experiente. Tom Holland guia-nos com firmeza por uma viagem fascinante ao coração da história do Cristianismo.
Partimos de uma paisagem caótica — uma floresta densa de religiões, seitas, cultos e filosofias da Antiguidade — e, ao longo dos séculos, visitamos cidades marcantes, atravessamos batalhas, concílios, perseguições, tratados, e cruzamo-nos com figuras inesquecíveis: Jesus, apóstolos, mártires, santos, hereges, imperadores e reis.
É um percurso que mostra como o Cristianismo, contra todas as probabilidades, deixou de ser apenas mais uma voz num mundo saturado de divindades e tornou-se a força dominante que moldou o pensamento, a moral e a cultura do Ocidente.
Um livro que não se limita a narrar factos — conduz-nos por eles, com ritmo, profundidade e reflexão.
Dos imensos quadros que o autor nos oferece ao longo de 600 páginas, muitos de autênticos terrores, refiro aquele que, após cerca de oitocentos anos é relembrado pela canção acima mencionada.
Trata-se da chacina em Béziers contra os albigenses (ou cátaros) que ocorreu em 22 de julho de 1209.
Esse massacre marcou o início da Cruzada Albigense, lançada pelo Papa Inocêncio III para erradicar a heresia cátara no sul da França. Durante o ataque, tropas cruzadas cercaram a cidade de Béziers, que abrigava tanto cátaros quanto católicos. Quando a cidade foi tomada, estima-se que todos os habitantes — entre 10.000 e 20.000 pessoas — foram mortos, sem distinção entre hereges e fiéis católicos.
É nesse contexto que se atribui ao legado do legado papal, Arnaud Amalric, a frase:
"Matem todos, Deus reconhecerá os seus."
(“Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius.”)
Uma nota particular, sobre como cada um tece a sua cultura.
O que me chamou em primeiro lugar a atenção para este livro foi a capa. Via a minha mãe, que por alguns tempos viveu em minha casa, a olhar para esta pintura que tenho na sala onde tomávamos as refeições sem se atrever a falar, até ao dia que disse: - Eu não te queria dizer, Júlio, mas aquela pintura não é normal, há ali qualquer coisa que não está certo.
A minha mãe, não sabia quem é Salvador Dali, nem entendia nada de surrealismo. Católica, apostólica romana, sabendo que eu não era lá muito católico, ficava incomodada por eu não ter um Cristo crucificado como deve ser, com cravos, com coroa de espinho e com sangue. A pintura é de 1951, o mesmo ano em que a minha mãe me deu à luz.