urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco BADAMECO Caderno de apontamentos onde se vão anotando coisas inúteis LiveJournal / SAPO Blogs julmar 2019-12-22T12:55:10Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:263413 2019-12-22T12:18:00 Leituras de 2019 2019-12-22T12:55:10Z 2019-12-22T12:55:10Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="livros.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B41179022/21646772_P5DEl.jpeg" alt="livros.jpg" width="960" height="720" /></p> <p>E, prestes a chegar ao fim do ano,  é tempo de balanço , esse exercício contabilístico que nos prende à realidade  dos factos, essa obrigação de a cada ano que passa dar conta do tempo que gastámos nisto e naquilo, sendo que isto e aquilo é, para mim, o ler, o escrever e o andar. E é assinalável que dos 16 livros lidos, metade tenha sido em língua inglesa, muito acima das minhas espetativas, o que contriubuiu para o apuramento do meu inglês. Esforço a continuar em 2020.</p> <p>Outra nota, consiste no fato de a primeira e a última leitura consistirem <em>numa arte de. </em>Nada que tivesse planeado mas que fazem todo o sentido. </p> <p>Por último, apete-ce-me dizer, deixemo-nos de tretas, vamos aos factos. A minha leitura do ano é Fact Fullness de Hans Rosling</p> <p>Obrigado a todos os autores, meus mestres, que me abriram novos horizontes, com quem foi um prazer viajar.</p> <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 12pt;">1- A Arte de Caminhar, um passo de cada vez - Kagge, Erling</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">2- Homo Creator - Wilson, Edward O.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">3- Science And Islam - Masood Ehsan</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">4- Hard Times - Dickens, Charles</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">5- O Homem Mais Rico Do Mundo - Conlin, Jonathan</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">6- The Invention of Solitude - Auster, Paul</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">7- The Humans - Haig, Matt</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">8- Fact Fulness - Rosling, Hans</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">9- How democracy Die - Levitsky, Steven e Ziblatt, Daniel</span><br /><span style="font-size: 12pt;">10- A Mais Breve História da Alemanha - Hawks, James</span><br /><span style="font-size: 12pt;">11- Tríptico da Salvação - Cláudio, Mário</span><br /><span style="font-size: 12pt;">12- 12 Rules for Life, an Antidote to Chaos - Peterson, Jordan B.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">13- Camilo Broca - Cláudio, Mário</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">14 - Viagens - Tokarkzuc, Olga</span><br /><span style="font-size: 12pt;">15- 1908-1910 “Frades Jesuítas “ Correm Portugal pela muita tinta dos Jornais</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">16-- A arte de não acreditar em nada. Livro dos três impostores. Organização e prefácio de Raoul Vaneigem</span><br /><br /></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:263714 2019-12-20T20:19:00 O elogio da merda 2019-12-20T20:30:49Z 2019-12-20T20:30:49Z <p><span style="font-size: 12pt;"><em>«Merda: palavra-chave do inspector Otero, de significado amplo e muito pessoal. ‘Merda até ao traço do lábio’: locução que utiliza frequentemente para designar um sentimento ou uma situação de impotência absoluta»</em></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"><em>In, Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires, Colecção Mil Folhas, pgs 32/33</em></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Também se pode ter uma conversa de merda de uma forma elevada, tudo depende do tipo de parlatório: tribuna, púlpito ou do alto da burra, mas sempre de um local elevado.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Tudo é merda, ou porque daí veio ou porque para lá caminha. E a humanidade, em geral, e cada um de nós em particular, deve-lhe mais do que está disposto a conceder. Se os primeiros filósofos andaram em busca da arquê enquanto princípio de que todas as coisas são feitas para explicação do mundo material (o fogo, a terra, o ar, a água em separado ou todos no seu conjunto), se tivéssemos de procurar o princípio da humanidade bem poderíamos dizer que esse princípio é a merda. Biblicamente poderíamos substituir a volatilidade do pó pela maior consistência da merda: «Memine, homine, quia pulvis es et in pulvis reverteris». Igualmente, quando no Evangelho se diz «Pelos frutos os conhecereis» se poderia substituir frutos por merda, porque ela é um sinal da doença e da saúde, ela traça a identidade de cada um - não há duas merdas iguais.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Num materialismo grosseiro, apesar do qual, ou através do qual se tornou famoso, Proudon afirmava que o homem é aquilo que come. Num materialismo igualmente grosseiro mas mais mal cheiroso poderíamos afirmar que o homem é aquilo que caga. Um homem é medroso no caso de se cagar de medo; é um valentão se mete um cagaço a alguém. Como se vê pelo cagar se mede a personalidade de cada qual. Se se diz de alguém que é um cagão, está tudo dito. Cagões é o mais que por aí abunda e Portugal é cada vez mais um país de cagões.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Também há quem não dê peido que bem cheire. Há pessoas tão forretas, tão avaras que nem peidos dão e que de tanto se encolherem trocam sonantes peidos com que gostosamente se aliviariam por bufos malcheirosos que torna suspeitos todos os circunstantes. Era assim que um professor meu de sociologia nos explicava a razão de serem necessários 3 indivíduos para constituir um grupo: Ao contrário de dois, se forem três indivíduos e um deles se bufar, torna-se impossível saber quem foi. E sem suspeição não há grupo, concluía ele.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Está por estudar, creio eu, e porque há gente para tudo e até para estudar a merda, o seu contributo na disseminação das espécies botânicas.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> Há um ror de gente desejoso que o próximo faça merda, sobretudo entre companheiros de profissão.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Dizia uma quadra do tempo da merda da Ditadura:</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Se o isqueiro paga imposto</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">E o fósforo imposto paga</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Daqui a pouco paga imposto</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">A merda que a gente paga</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Nunca na merda da ditadura se pagou tanto imposto como na merda da democracia,  aliada da civilização, que em vez de merda lhe chama “detritos sólidos”dos quais envia ao prezado leitor deste texto de merda uma fatura mensal. Porque mudaram as moscas mas a merda é a mesma, prova-se que tudo o que é essencial é universal. E quando ainda não havia facebook, a veia poética dos cagões, deixa gravado a navalha, nas portas das retretes, nessa privacidade universal, a inspiração expirada:</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Neste local solitário</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Onde a vaidade se apaga</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Todo o fraco faz força</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Todo o valente se caga</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Merda é das palavras mais generalistas e tal como a palavra coisa dá para suprir toda a deficiência designativa das realidades, razão porque há tanta gente com elas na ponta da língua.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Apesar dos inúmeros sinónimos (excrementos, fezes, dejectos, porcaria, caca…) nenhum deles a traduz de forma perfeita.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">E se o leitor já está farto destas merdices, vou contar-lhe uma história de merda.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Num daqueles anoiteceres frios de primaveras tardias, um passarinho meio implume que mal ensaiava o voo e se extraviara da mãe e dos irmãos sentiu-se enregelado. Quis o destino que uma vaca lhe colocasse uma farta bosta em cima o que lhe proporcionou uma noite aconchegada. Quis o destino que um gato madrugador, à procura do pequeno-almoço, firmado nas patas, surpreendido, tenha visto uma cabecita a espreitar daquela bola a fumegar e Zás! Uma sacudidela e era uma vez um passarinho.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Então, toma atenção porque:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> Nem todo o que te mete na merda te quer mal</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Nem todo o que te tira da merda te quer bem</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> Quando te meteres na merda, enterra-te bem nela</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:263593 2019-12-19T11:51:00 Se marcha el Maestro. Adios Patxio 2019-12-19T12:02:05Z 2019-12-19T12:02:05Z <p style="text-align: left;">Tenho a ventura de viver um tempo de gente fantástica - Filósofos, cientistas, artistas - e de poder fruir das suas criações.</p> <p style="text-align: center;"><img src="https://thumbs.web.sapo.io/?W=800&amp;H=0&amp;delay_optim=1&amp;epic=ZTY2VXWpci4lYqmi2XvHvBOkQJy8LgQNE9v35Eh48G6DXCPcaXXglvvf8cOtmQqSpErMAknac51qsGBE2Rn0PNJmdgjFXLSZprPf5fvBag1PmEQ=" alt="Image result for patxi andion" /></p> <p><a href="https://music.youtube.com/watch?v=_6CZwlbmMIY&amp;list=RDAMVM_6CZwlbmMIY" rel="noopener">https://music.youtube.com/watch?v=_6CZwlbmMIY&list=RDAMVM_6CZwlbmMIY</a></p> <h3 style="text-align: center;">El Maestro </h3> <p style="text-align: center;">Con el alma en una nube<br />y el cuepo como un lamento<br />viene el problema del pueblo<br />viene el maestro<br />el cura cree que es ateo<br />y el alcalde comunista<br />y el cabo jefe de puesto<br />piensa que es un anarquista<br />le deben 36 meses<br />del cacareado (mento)<br />y el piensa que no es tan malo<br />enseñar (toreando )un sueldo<br />en el casino del pueblo<br />nunca le dieron asiento<br />por no andar politiqueando<br />ni ser portavoz del cuento<br />las buenas gente del pueblo<br />han escrito al menisterio<br />y dicen que no esta claro<br />como piensa este maestro<br />dicen que lee con los niños<br />lo que escribio un tal Machado<br />que anduvo por estos vagos<br />antes de ser exilado<br />les habla de lo inombrable<br />y de otras cosa peores<br />les lee libros de versos<br />y no les pone orejones<br />al explicar cualquier guerra<br />siempre se muestra remiso<br />por explicar claramente<br />quien vencio y fue vencido<br />nunca fue amigo de fiestas<br />ni asiste a las reuniones<br />de las damas postulantes esposas de los patrones<br />por estas y otras razones<br />al fin triunfo el buen criterio<br />y al terminar el invierno<br />le relevaron del puesto<br />y ahora las buenas gentes<br />tienen tranquilo el sueño<br />porque han librado a sus hijos<br />del peligro de un maestro<br />con el alma en una nube<br />y el cuerpo como un lamento<br />se marcha,se marcha el padre del pueblo<br />se marcha el maestro.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:262868 2019-12-09T18:30:00 Livros proibidos 2019-12-09T18:56:49Z 2019-12-09T19:01:59Z <p style="text-align: center;"><img src="https://cdn.shopify.com/s/files/1/1828/7185/products/A_Arte_de_Nao_Acreditar_em_Nada_1024x1024.png?v=1569323888" alt="A Arte de Não Acreditar em Nada e Livro dos Três Impostores | Antígona" /></p> <p style="text-align: left;"><span style="font-size: 12pt;">Os livros sempre constituíram um perigo e, por isso, eram de acesso reservado. A forma mais eficaz de o conseguir era impedir as pessoas de aprender a ler. Ou, então, escrevê-los numa língua não popular. Com Lutero, o aparecimento do protestantismo (que preonizava a leitura dos livros sagrados na língua materna) e com a descoberta da imprensa, a Igreja Católica estabeleceu , através do Index, o que não se podia ler. Quanto aos livros sagrados - a Bíblia - continuariam em latim até ao Concílio Vaticano II. E recordo o embaraço do velho pároco Inácio Faria que a primeira vez em que celebrava a missa segundo os normativos do referido concílio, calhou de ser uma leitura de S. Paulo aos Gálatas, 4:22 - 31 : </span></p> <p style="text-align: left;"><span id="pt-OL-28733" class="text Gal-4-22" style="font-size: 12pt;"><sup class="versenum"> "</sup><em>Diz lá que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro de sua mulher que era livre</em>."</span></p> <p style="text-align: left;"><span style="font-size: 12pt;"><span id="pt-OL-28733" class="text Gal-4-22"> O padre, apanhado de surpresa</span><span id="pt-OL-28733" class="text Gal-4-22">: - Porra, porra, meu povo! Vamos lá regressar ao antigo. Voltou as costas ao povo e leu em latim.</span></span></p> <p style="text-align: left;"><span style="font-size: 12pt;">"Embora interesse a todos os homens conhecer a verdade, são muito poucos os que gozam desse privilégio. Uns são incapazes de a procurar por si próprios, outros não querem fazer esse esforço. Não devemos por isso espantar-nos com o facto de o mundo estar cheio de opiniões vãs é ridículas; nada as faz correr melhor do que a ignorância, aí reside a única fonte de falsas ideias que temos da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os Outros temas que constituem a religião. O uso prevaleceu, contentamo-nos com os preconceitos que vêm desde o nosso nascimento e entregamos as coisas mais essenciais a pessoas interesseiras que têm como lei sustentar teimosamente as opiniões recebidas e não ousam destruí-las com medo de se destruírem a si próprias"</span></p> <p style="text-align: center;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:262646 2019-12-05T11:10:00 Vale dos Reis, Luxor 2019-12-05T11:40:17Z 2019-12-05T11:40:17Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="egipto 074.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B111738b4/21636908_ZTYkE.jpeg" alt="egipto 074.jpg" width="960" height="720" /></p> <p>Afinal é mesmo possível encontrarmo-nos connosco passados dez anos. Estava sentado e sentado ficou como se tudo fosse normal. Que tinha vindo ao Egito, que estava ali em Luxor embasbacado com a grandeza de tal civilização e, que Nilo abaixo ia até à sua foz. E eu lhe disse que, em  sentido contrário, ia Nilo acima até onde fosse a sua nascente. E como vais? Vou a pé, passo a passo. És maluco? Tanto comos reis que estão sepultados neste vale, o Vale dos Reis. Quando nos encontraremos? Talvez daqui a dez anos na casa da Vila. </p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:262314 2019-12-02T18:22:00 A ribeira de ontem e a ribeira de hoje 2019-12-02T18:34:24Z 2019-12-02T18:34:24Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="ribeira.png" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B97172798/21634604_iWiD6.png" alt="ribeira.png" width="960" height="652" /></p> <p class="sapomedia images">Há 30/40 anos era assim</p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 10px 10px;" title="A ribeira de hoe2.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb1184ec6/21634605_Abggd.jpeg" alt="A ribeira de hoe2.jpg" width="540" height="720" /></p> <p>Este ano é assim, e a mim incomoda-me que assim seja.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:261965 2019-11-30T19:04:00 Andar passo a passo, com paragem obrigatória 2019-11-30T19:06:19Z 2019-11-30T19:06:19Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 10px 10px;" title="IMG_5608-cópia.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0b171bd3/21632708_vvhJ3.jpeg" alt="IMG_5608-cópia.jpg" width="540" height="720" /></p> <p style="text-align: center;">Não há ventos que não pretem<br />Nem marés que não convenham<br />Nem forças que me molestem <br />Poderes que me detenham<br />Há muitos anos, tomei de empréstimo de António Gedeão, meu querido mestre, para meu lema de vida, esta estrofe do seu poema, "Fala do homem nascido". E dou-lhe cumprimento cada dia. Dia 11, como se vê no gráfico, não aconteceu. Afinal, os buracos existem, o não ser espreita-nos permanentemente.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:260780 2019-11-19T18:21:00 Na margem do Nilo 2019-11-19T18:46:20Z 2019-11-19T18:48:02Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="egipto 172.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B20173a71/21604419_L6jEd.jpeg" alt="egipto 172.jpg" width="960" height="720" /></p> <p>Será possível encontrarmo-nos connosco? Pois é. Passados 10 anos, venho encontrar-me na margem do Nilo com este turista de t-shirt azul, óculos de sol e máquina fotográfica a tiracolo que ficou surpreso por me encontrar, atirou-me que estava mais velho. Perguntou-me para onde ia e eu que ia ao encontro da nascente do Nilo e ele que ia até à foz do Nilo. Em sentido oposto, ele turista de cruzeiro, eu pedantibus.</p> <p>Pergunta-me quando  voltaremos a encontrar-nos. Talvez daqui a 10 anos na nossa casa da vila, respondi-lhe. </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:261410 2019-11-18T17:40:00 A reta é a mais curta distância para a morte 2019-11-18T19:01:30Z 2019-11-18T19:01:30Z <p style="text-align: center;"><img src="https://i.pinimg.com/originals/50/74/5d/50745d688110f7c3a76202e4e0cc3faa.jpg" alt="Image result for a reta" /></p> <p>Nos bancos da escola aprendi que a linha reta é um conjunto infinito de pontos e que um segmento de reta é a mais curta distância entre dois pontos. Aprendi mais tarde que este era um dos postulados da Geometria de Euclides (viveu cerca de 300 anos a. C., em Alexandria), considerado o pai da Geometria que tal como a  Física de Aristóteles, é tão bela, tão falsa e tão útil no nosso quotidiano. Haveriam de surgir outras geometrias, no século XIX, - entre elas a geometia hiperbólica (Lobachevsky) e a geometria elíptica (Riemann) - de mais difícil entendimento por se encontrarem ausentes do mundo como naturalmente o vemos.</p> <p>Ainda que o quisesse, nas minhas caminhadas não poderia caminhar em reta. Quando caminho da cidade do Cairo à cidade de Luxor, o meu calculador de distâncias dá-me sempre dois valores: Distância 504,29 km; Rota - 642,62km. Em rigor, se quisesse caminhar em linha reta de uma cidade à outra, teria de entrar pela terra dentro como uma toupeira, dado que, como hoje sabemos a terra é esférica - que os terraplanistas, cujo número dizem  estar a crescer consideravelmente, me perdoem. </p> <p>Quem na vida anda sempre na mesma direção, deverá aprender menos, viver menos do que aquele que não dá carreira direita, que se engana, que vai por aqui e por ali, que vai para a frente e volta para trás, que se perde. Talvez que a linha que une o nascimento à morte não sela uma reta mas um emaranhado de linhas curvas. Desde a infância em que rodava o arco  que prefiro as curvas.<img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://lh4.googleusercontent.com/-6-6WQaY8buc/TWrtaarAlfI/AAAAAAAABFs/MxZjj3mY18s/w1200-h630-p-k-no-nu/Arco+e+gancheta.jpg" alt="Image result for brinquedos antigos o arco" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:261347 2019-11-18T08:18:00 Ora, descubra lá a(s) diferença(s) 2019-11-18T08:18:45Z 2019-11-18T08:18:45Z <p style="text-align: center;"><img src="http://fotos.sapo.pt/Iv0OoYFnblY1ujpv4QEO/x435" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">Fotografia de 2009</span></p> <p><img src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc2185791/21600484_f0h5U.jpeg" alt="Placas.jpg" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">Fotografia de 2019</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:260965 2019-11-15T18:11:00 Põe-te em movimento, anda! Abençoado seja todo aquele que caminha. 2019-11-15T19:28:12Z 2019-11-15T19:29:37Z <p><span style="font-size: 12pt;"><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://leitor.jornaleconomico.pt/assets/uploads/artigos/Imagem_PV_3.jpg" alt="Image result for Viagens - Olga Tokarczuk" /></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Sabendo que ia ter uns dias em que, por força maior, iria estar impedido de andar, passei pela FNAC (tenho muita saudade das velhas livrarias do Porto, mas os tempos são outros) e procurei um livro que, de outra forma, me transportasse para outros lugares. A escolha foi rápida: A imagem da capa, o título - sim, o título -, a autora, prémio nobel a literatura. </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Comecei  a ler e não é uma leitura fácil. Não são, propriamente contos e também não é um romance. É à medida que vamos lendo que nos deparamos com um puzlle e que nos compete a nós construí-lo. Para isso, temos de encontrar a cola que une as peças que encontramos no título original: BIEGUNI, que a tradutora em nota de rodapé explicita</span> "<span style="font-size: 10pt;">Designa uma seita de antigos crentes ortododoxos que tratavam o movimento de maneira sagrada. Estar em constante movimento e atravessar fronteiras significava para eles não se apegar a nada e tentar fugir do mal que tenta privar-nos da liberdade". </span></p> <p><span style="font-size: 14pt;">É também um retrato e uma crítica à nossa sociedade tão veloz e tão estática </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"><em>"Aquele que parar ficará petrificado; aquele que se detivera por um instante será alfinetado como o inseto, o seu coração será teres passado por uma agulha de madeira, as suas mãos e pés serão furados e pregados as ombreiras das portas.<br />Foi assim que morreu aquele que usou revoltar-se. Foi capturado e o seu corpo pregado na cruz, imobilizado como o de um inseto, para ser visto por olhos humanos e inumanos, mas principalmente por inumanos - os que mais se de leitam com estas cenas. Por isso, não é de estranhar que a reconstruam todos os anos e a celebrem, rezando a um corpo morto. E é também por isso que os tiranos de todas as espécies são servos infernais que transportam no sangue o ódio de morte aos povos nómadas. Daí as perseguições a judeus e ciganos. Daí que os homens livres sejam forçados a estabelecer-se e, depois marcados com uma morada que para nós é uma sentença. O que eles pretendem é estabelecer uma ordem sólida e tornar a passagem do tempo aparente, de modo a que os dias se tornem repetitivos e não se distingam uns dos outros. Querem construir uma grande máquina, na qual cada criatura terá de ocupar um determinado lugar executar movimentos, também eles aparentes - as instituições e os gabinetes, os carimbos e as circulares, a hierarquia e os cargos, as patentes, os requerimentos e os indiferimentos, os passaportes, os números, os cartões, resultados das eleições, as promoções e acumulação de pontos e a troca de umas coisas por outras. </em></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"><em>Alfinetar o mundo com a ajuda de códigos de barras, colar um rótulo em todas as coisas para que se saiba que a mercadoria e é aquela e quanto custa. Que esta estranha língua seja incompreensível para as pessoas, que seja apenas lida por máquinas e autómatos e que estas façam recitais da sua poesia em códigos de barras, pela noites dentro, no interior das grandes lojas subterrâneas.</em></span></p> <p><span style="font-size: 14pt;"> Põe-te em movimento, anda.! Abençoado seja todo aquele que caminha.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:260135 2019-10-27T17:33:00 Por Terras de Penafiel - Escritaria 2019-10-27T17:39:10Z 2019-10-27T19:06:02Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="m alegre.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7d17e347/21594084_Ga7Yz.jpeg" alt="m alegre.jpg" width="960" height="720" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">A poesia também muda o mundo e <strong>O Canto e as Armas, </strong>também me mudou a mim. O meu tributo ao poeta e ao homem.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">AS MÃOS</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Com mãos se faz a paz se faz a guerra.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Com mãos tudo se faz e se desfaz.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Com mãos se faz o poema – e são de terra.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Com mãos se faz a guerra – e são a paz.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Com mãos se rasga o mar.Com mãos se lavra.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Não são de pedras estas casas mas</span><br /><span style="font-size: 12pt;">de mãos. E estão no fruto e na palavra</span><br /><span style="font-size: 12pt;">as mãos que são o canto e são as armas.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">E cravam-se no Tempo como farpas</span><br /><span style="font-size: 12pt;">as mãos que vês nas coisastransformadas.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Folhas que vão no vento: verdes harpas.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">De mãos é cada flor cada cidade.</span><br /><span style="font-size: 12pt;">Ninguém pode vencer estas espadas:</span><br /><span style="font-size: 12pt;">nas tuas mãos começa a liberdade.</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Manuel Alegre, O Canto e as Armas,1967</span></p> <p style="text-align: center;"> </p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:260013 2019-10-27T10:17:00 Até ao Cairo, passo a passo 2019-10-27T10:19:22Z 2019-10-27T10:19:22Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="egipto 294.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bec18482f/21593591_w3LWq.jpeg" alt="egipto 294.jpg" width="960" height="640" /></p> <p>É preciso chegar à África, chegar ao Egito, chegar ao Cairo para saber da grandeza das coisas Co mo foi possível ao homem construir estas pirâmides? Como todas as coisas grandes: pedra a pedra com um rio de suor da multidão imensa de escravos. Aqui pequeno, apenas eu ao constatar assombrado as pirâmides que, criança,via nos livros de História. E até o imenso deserto é feito areia a areia.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:259705 2019-10-22T20:50:00 Andar, passo a passo:Partida de Alexandria 2019-10-22T19:54:36Z 2019-10-22T20:35:41Z <p style="text-align: center;"><img src="https://artigosecronicas.com.br/wp-content/uploads/2019/07/cropped-nova-biblioteca-de-alexandria.jpg" alt="Image result for biblioteca de alexandria" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 8pt;">Biblioteca de Alexandria</span></p> <p style="text-align: left;"><span style="font-size: 12pt;">Dia 28 de setembro de 2019, 6 horas. Partida de Alexandria, essa antiquíssima cidade, a cujo porto afluíam negociantes, filósofos, artistas, sacerdotes, matemáticos, conquistadores como se o seu farol - uma das sete maravilhas do mundo -  fosse o poderoso íman que a todos atraía. Era, à época, a maior cidade, o maior porto e com a maior biblioteca. Foi esta enorme cidade, fundada pelo maior conquistador da História, Alexandre o Grande que eu na minha pequenez, adorador do deus das pequenas coisas, tomei como ponto de partida para, passo a passo, calcorrear o imenso continente africano. Primeira etapa: Alexandria - Cairo</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:259377 2019-10-21T10:20:00 A memória de um poeta do Sabugal 2019-10-21T09:27:41Z 2019-10-21T11:27:17Z <p><img src="https://ogimg.infoglobo.com.br/in/23239872-ffc-60b/FT1086A/652/O-poeta-portugues-Manuel-Antonio-Pina.jpg" alt="Image result for manuel antonio pina" /></p> <p>Junto à água<br /><br />Os homens temem as longas viagens,<br />os ladrões da estrada, as hospedarias,<br />e temem morrer em frios leitos<br />e ter sepultura em terra estranha.<br />Por isso os seus passos os levam<br />de regresso a casa, às veredas da infância,<br />ao velho portão em ruínas, à poeira<br />das primeiras, das únicas lágrimas.<br /><br />Quantas vezes em<br />desolados quartos de hotel<br />esperei em vão que me batesses à porta,<br />voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!<br /><br />E perdi-vos para sempre entre prédios altos,<br />sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,<br />e no meio das multidões dos aeroportos.<br />Agora só quero dormir um sono sem olhos<br /><br />e sem escuridão, sob um telhado por fim.<br />À minha volta estilhaça-se<br />o meu rosto em infinitos espelhos<br />e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.<br /><br />Só quero um sítio onde pousar a cabeça.<br />Anoitece em todas as cidades do mundo,<br />acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos<br />onde o meu coração, falando, vagueia.</p> <p><a href="https://pensador.uol.com.br/autor/manuel_antonio_pina/" rel="noopener">Manuel António Pina</a>, In Um sítio para pousar a cabeça</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:258426 2019-10-20T08:55:00 Andar passo a passo - Entrevista 2019-10-20T07:56:28Z 2019-10-20T07:56:28Z <p style="text-align: center;"><strong><img src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd8027f06/20571836_iRMDF.jpeg" alt="a sombra.jpg" /></strong></p> <p><strong>P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?</strong></p> <p>R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: <em>ganharás o pão com o suor do teu rosto</em>. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.</p> <p>E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,</p> <p><em>Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,</em></p> <p>para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: <em>Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.</em></p> <p>Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses <u><a href="https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/" rel="noopener">https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/</a></u></p> <p><strong>P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?</strong></p> <p><strong> R. </strong>As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - <em>O (En) canto da Filosofia</em>, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - <em>O Pitagórico</em> - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o <em>Badameco</em> <u><a href="https://badameco.blogs.sapo.pt/" rel="noopener">https://badameco.blogs.sapo.pt/</a></u> (nome um pouco depreciativo), inspirado nos <em>Ensaios</em> de M. Montaigne que utilizava um <em>vade mecum</em> (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.</p> <p>Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.</p> <p><strong>P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?</strong></p> <p>A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.</p> <p>Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.</p> <p>Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.</p> <p><strong>P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?</strong></p> <p>Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro <em>A Mais Alta Solidão</em>, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge <em>Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo</em>, de Haruki Murakami</p> <p><strong>P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.</strong></p> <p>R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:259229 2019-10-16T18:20:00 A CRUZ MUTILADA . Alexandre Herculano 2019-10-16T17:36:10Z 2019-10-16T17:36:10Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 683px; padding: 10px 10px;" title="cruz1.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7017f54b/21584641_fBGT9.jpeg" alt="cruz1.jpg" width="683" height="720" /></p> <p style="text-align: left;"><span style="font-size: 10pt;">Há textos, poemas do meu tempo de estudante que não mais esqueci. Basta-me olhar uma cruz, de preferência em espaço aberto, para que ele me ocorra à memória</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada</span><br /><span style="font-size: 10pt;">De esplêndidas igrejas;</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Amo-te quando à noite, sobre a campa,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Junto ao cipreste alvejas;</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">As preces te rodeiam;</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Amo-te quando em préstito festivo</span><br /><span style="font-size: 10pt;">As multidões te hasteiam;</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Amo-te erguida no cruzeiro antigo,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">No adro do presbitério,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Ou quando o morto, impressa no ataúde,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Guias ao cemitério;</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Amo-te, ó cruz, até, quando no vale</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Negrejas triste e só,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Núncia do crime, a que deveu a terra</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Do assassinado o pó:</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">Porém quando mais te amo,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Ó cruz do meu Senhor,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">É, se te encontro à tarde,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Antes de o Sol se pôr,</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">Na clareira da serra,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Que o arvoredo assombra,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Quando à luz que fenece</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Se estira a tua sombra,</span></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 10pt;">E o dia últimos raios</span><br /><span style="font-size: 10pt;">Com o luar mistura,</span><br /><span style="font-size: 10pt;">E o seu hino da tarde</span><br /><span style="font-size: 10pt;">O pinheiral murmura</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:258920 2019-10-16T11:51:00 Mário Cláudio 2019-10-16T11:10:45Z 2019-10-16T11:10:45Z <p> </p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 327px; padding: 10px 10px;" title="camilo broca.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb717d36f/21584296_Sn6R8.jpeg" alt="camilo broca.jpg" width="327" height="500" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Já havia lido alguns livros de Mário Cláudio, mas nenhum me soube como este.Há seis ou sete anos foi o autor que me aconselhou a sua leitura, num curso seu sobre Escrita Criativa. Agora entendo porquê.  Um grande escritor!</p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;"><em>«Meu mano não se continha e lançava nisto, 'Não há história que eu saiba que não vá desaguar nessa história, e desta rede é que se tece o génio de quem escreve, tentarei narrar amores e mortes sem medida, convocar a este Mundo um milhão de personagens, ensaiar frases, inventar palavras, e coar outras da nascente onde repousam há milénios, e a história que hei-de escrever será sempre a dos grandes Brocas» </em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:258665 2019-10-14T12:20:00 Cruz do Arreçaio 2019-10-14T11:37:32Z 2019-10-14T11:37:32Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 10px 10px;" title="Cruz do arreçaio.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba717b768/21582320_Fg5ej.jpeg" alt="Cruz do arreçaio.jpg" width="540" height="720" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">A natureza segue o seu curso natural, indiferente às necessidades, desejos, paixões ou opiniões do homem. As árvores não pedem licença para nascer aqui ou ali, em espaço público ou privado, em espaço sagrado ou profano. Nem se incomodam de tirar a vista, ao castelo, à Igreja ou à cruz. No seu crescer lento e contínuo os olhos das gentes vão-se habituando a que assim seja. Mas que a paisagem está diferente, está.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:258174 2019-10-10T10:52:00 O colégio de Aldeia da Ponte 2019-10-10T11:11:24Z 2019-10-10T11:11:24Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 430px; padding: 10px 10px;" title="colégio.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba718e3d9/21579130_oGOJE.jpeg" alt="colégio.jpg" width="430" height="720" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Curioso da história local, consegui descobrir este livro, recentemente editado, no Intermarché do Sabugal. No Sabugal não há um sítio onde se vendam livros.</p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Quanto ao volumoso livro de 604 páginas, centra-se nos frades de Aldeia da Ponte( num contexto do fim da monarquia, da proclamação das ideias liberais e da instauração da República) que dão um contributo extraordinário para apropaganda anticlerical na imprensa regional e nacional.   </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:257893 2019-10-08T12:03:00 Ler Camilo Broca 2019-10-08T11:07:42Z 2019-10-08T11:07:42Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 327px; padding: 10px 10px;" title="camilo broca.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1417ace9/21577278_ZfTNP.jpeg" alt="camilo broca.jpg" width="327" height="500" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Leitura aconselhada há seis anos, chegou a altura de começar.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:257620 2019-09-30T19:11:00 Ler página a página: 12 rules for the life 2019-09-30T18:57:01Z 2019-09-30T18:57:01Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 468px; padding: 10px 10px;" title="12 regras para.png" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B76183011/21569966_V2moW.png" alt="12 regras para.png" width="468" height="720" /></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Uma leitura morosa e difícil. Morosa porque o meu inglês ainda troeça em muitos termos que me obrigam a recorrer ao 'Tradutor'; difícil porque ao contrário do que o título possa sugerir não se trata de um receituário em que o autor nos dê uma cartilha de como fazer para ter uma vida feliz. Tratando-se de um psicanalista vai convocar os seus três grandes fundadores, Freud, Jung e Adler para a anális das situações problemáticas com que o homem se confronta. Convoca alguns filósofos, sobressaindo F. Nietszche; e também os marxistas e neomarxistas de quem discorda radicalmente, aliás, como do descontrucionista Derrida. À literatura vai buscar, sobretudo dois nomes: Dostoyevski ( Os Irmãos Karamazov) e Alexandre Solzhenitsyn (O Arquipélago do Gulag). Na religião convoca 'O Genesis' com a expulsão do paraíso, o asssinio de Abel às mãos de seu irmão Caim e várias passagens do evangelho de S. Mateus. Todos estes recursos para a construção de uma fenomenologia da condição humana sentida, sofrida na pele das pessoas de corpo e alma que passam pela sua vida, profissional e não só. Mesmo da experiência dolorosa da sua filha. Daí resulta um ponto, algo comum na vida daqueles que à procura da verdade, do sentido da vida, atrvés do exercício da razão que nos ilumina, esbarra na sua própria limitação. Foi assim, com Sócrates, com Pascal, com Kant ... e com o autor como afirma na págia 347:</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">"Thought, after all, is the highest of human achievement, is it not?</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Perhaps not.</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Something supersedes thinking, despite is truly awesome power. When existence reveals itself as existentially intolerable, thinking colapses in on itself. In such situations - in the depths - <em>it's noticing</em>, not thinking, that does the trick. Perhaps you might start by noting this: when you love someone, <em>it´s not despite their limitations. It's because of their limitations.</em></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;"> </span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Outline of the book:<sup id="cite_ref-Lott18_4-5" class="reference"></sup></span></p> <ol> <li><span style="font-size: 12pt;">Stand up straight with your shoulders back</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Treat yourself like someone you are responsible for helping</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Make friends with people who want the best for you</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Compare yourself to who you were yesterday, not to who someone else is today</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Do not let your children do anything that makes you dislike them</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Set your house in perfect order before you criticize the world</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Pursue what is meaningful (not what is expedient)</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Tell the truth – or, at least, don't lie</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Assume that the person you are listening to might know something you don't</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Be precise in your speech</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Do not bother children when they are skateboarding</span></li> <li><span style="font-size: 12pt;">Pet a cat when you encounter one on the street</span></li> </ol> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:257303 2019-09-27T15:59:00 Andar, passo a passo: Viagem além da Índia 2019-09-27T15:27:54Z 2019-09-27T15:27:54Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 602px; padding: 10px 10px;" title="Kathmandu1.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bcf187da9/21568052_i3Syr.jpeg" alt="Kathmandu1.jpg" width="602" height="334" /></p> <p style="text-align: center;"><span style="font-size: 24pt;"><strong>Chegada a Katmandu</strong></span></p> <p><strong>As contas que servem de base aos conto</strong>s</p> <p><span style="font-size: 12pt;">A viagem começou em 16 de Janeiro  de 2016 e terminou hoje dia 27 de setembro de 2019, perfazendo um total de 1349 dias. Foram percorridos 13621 Km, o equivalente 18813419 passos  (dezoito milhões, oitocentos e treze mil, quatrocentos e dezanove) , num valor aproximado de 2724 horas (aceitando uma velocidade de 5km por hora) a partir de Vila Nova de Gaia. Passei por 16 países: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Polónia, Bielorrúsia, Rússia, Ucrânia, Roménia, Bulgária, Turquia, Arménia, Irão, Paquistão, Índia e Nepal. Foram utilizados seis pares de sapatilhas (o último ainda está para andar e durar). As rotas foram calculadas a partir do site: <a href="https://pt.distance.to/" rel="noopener">https://pt.distance.to/.</a></span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Os registos foram efetuados no iphone, na aplicação 'Saúde',</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">A média de Kms por dia foi: 2016 - 9km; 2017 - 10,1; 2018 - 10km; 2019 - 11,4 (até hoje)</span></p> <p><span style="font-size: 12pt;">Número de dias em que não saí para andar: 6, assim distribuídos: 2016 - 2; 2017 - 2; 2018 - 0; 2019 - 2</span></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:255963 2019-08-01T12:31:00 Andar passo a passo, pela Índia fora 2019-08-01T11:47:48Z 2019-08-01T11:47:48Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 464px; padding: 10px 10px;" title="andar julho.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B34187881/21523407_UouHF.jpeg" alt="andar julho.jpg" width="464" height="720" /></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Coragem, persistência, humildade e uma crença firme no deus das pequenas coisas é o caminho que nos conduz onde quisermos. Este é o ensinamento principal do "Andar passo a passo". Saber para onde se vai. Dar o primeiro passo e depois um passo de cada vez, milhares, milhões de vezes. </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:badameco:254353 2019-07-29T15:37:00 Camões em Vilar Maior 2019-07-29T14:46:33Z 2019-07-29T14:57:34Z <p>Consta do rol das coisas improváveis que terá sido em Vilar Maior que Camões se terá inspirado para escrever, talvez o mais belo, seguramente o mais longo dos seus poemas, <em>Sôbolos Rios</em></p> <p>(...) Canta o caminhante ledo<br />No caminho trabalhoso<br />Por entre o espêsso arvoredo;<br />E de noite o temeroso<br />Cantando refreia o medo.<br />Canta o preso docemente,<br />Os duros grilhões tocando;<br />Canta o segador contente;<br />E o trabalhador, cantando,<br />O trabalho menos sente.</p> <p>(...)</p>