Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Bem mandados, malcriados e criados apenas

A língua é o retrato do povo, e, se quiserem, do indivíduo também. Falar, saber falar, falar bem, falar caro traduz o génio do indivíduo acrescentado pela educação. Mas lá está. Educação era uma palavra que na vila não se usava, era assim uma espécie de palavra chique. O que havia era criação daí resultando indivíduos bem-criados, sendo que estes eram designados como bem mandados, isto é, que obedeciam. Daí que cheguei no âmbito das minhas reflexões teológico-cristãs à conclusão de que apenas existe um único pecado: a desobediência. É daí que surge Lúcifer e depois (se nestas alturas há antes e depois!) toda a saga da queda e regresso ao paraíso. A transgressão é sempre um atentado ao poder. Por isso, os malcriados são aqueles que, em primeiro lugar, não obedecem aos pais. 

Ser mal-criado é, em primeiro lugar, não fazer o que lhe é dado ou o que lhe mandam. Em segundo lugar, é a forma como exprime os seus sentimentos e se comunica com o uso de palavras obscenas, as carvalhadas. Ora a boa educação passava muito pelo uso que se fazia das mesmas. Esperava-se que mulheres e crianças delas não fizessem uso. Quanto aos homens o uso dependia das circunstâncias - do lugar, do tempo, dos circunstantes, dos motivos. Para alguns, a carvalhada era uma espécie de bordão, em que não abriam a boca que não saísse asneira, como uma spécie de jaculatória profana; outros usavam-na apenas em situações de extrema irritação ou indignação; outros encontravam derivados ou substitutos da carvalhada na sua pura crueza, como: catancho,catano, carais, caramba, carago(espanhol), catrino. Para além dos que praguejavam contra acontecimentos, coisas, animais e indivíduos, havia os que praguejavam contra Deus, contra a Virgem e contra os Santos, o que era frequente fazerem nuestros hermanos. Também eu conheci um blasfemador, guardador de cabras nas penedias da Fraga, lançadas com uma indignação tão feroz que até os barrocos se encolhiam e mudavam de cor.

E, finalmente, havia os criados e as criadas que o destino quisera que a bem ou a mal se sujeitassem ao mando dos que podiam e que de nome tinham ser criado do dono.

publicado por julmar às 11:20
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