Domingo, 20 de Outubro de 2019

Andar passo a passo - Entrevista

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P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?

R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.

E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,

para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.

Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/

P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?

 R. As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco https://badameco.blogs.sapo.pt/ (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.

Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.

P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?

A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.

Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.

Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.

P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?

Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami

P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.

R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

publicado por julmar às 08:55
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