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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Andar, ler e escrever

julmar, 06.01.20

Dizia Thoreau que é necessário que passemos tanto tempo a andar como a ler ou escrever. Eu terei que passar a dizer-me: é mecessário que passe tanto tempo a ler e a escrever como a andar. Sobretudo escrever.

Cada manhã era um aliciante convite para tornar a vida igualmente simples e, digo até, inocente como a própria Natureza. Tenho sido, como osgregos, sincero adorador da Aurora. Levantava-me cedinho e tomavabanho no lago; uma espécie de exercício religioso e uma das melhorescoisas que já fiz. Contam que na banheira do rei Tching-thang haviamensagens gravadas com esse objetivo:
renova-te completamente acada dia; renova-te outra vez, e outra vez, e sempre outra vez.
Entendoa mensagem. A manhã me traz de volta os tempos heroicos. Tocava-metanto o zumbido tonto de um mosquito em passeio invisível e inima-ginável através de meu aposento ao amanhecer, quando me sentavade porta e janelas abertas, quanto me tocaria qualquer trombeta cele-brando a fama. Era o réquiem de Homero, em si mesmo uma Ilíada eOdisseia em pleno ar, cantando as próprias iras e viagens. Havia algode cósmico nisso tudo; um anúncio constante, até que o proíbam, dovigor e fecundidade perenes do mundo. Pouco se pode esperar do dia,se a isto se pode chamar de dia, para o qual não fomos acordados pornosso espírito, e sim pelas cutucadas mecânicas de um criado, para oqual não fomos acordados por nossas próprias forças recém-adquiridase aspirações íntimas, acompanhadas de ondulações de música celestialem vez de sirenes de fábricas.