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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

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A Torre de Babel e o altar inominado

Avatar do autor julmar, 26.01.23


Torre de Babel - Brughel 

“Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus! Dessa forma, nosso nome será honrado por todos e jamais seremos dispersos pela face da terra!” (Gênesis 11:4).


Na humanidade a mania das grandezas vem, por fonte escrita, desde os tempos bíblicos e em Portugal, talvez devido à sua pequenez, é agravada usando qualquer pretexto para bater records da maior feijoada ou da mais alta árvore de natal. Deus, que pelos vistos, não gostava muitos de concentrações populacionais, confundiu-lhes as líguas para que se espalhassem pela terra, destruindo-lhes a torre para qual não haviam solicitado licença.

Passando ao Novo Testamento, com a vinda de Cristo à Terra, o filho de Deus torna-se o mais simples e humilde dos homens capaz de se enfurecer com os vendilhões do templo, derrubando-lhes as bancas do negócio.  

E, para quem viu o primeiro dia em que a notícia do inonimado altar, a única coisa que se ouviu, desde os políticos ao  comentador-mor e aos comentadores efetivos e avençados , foi acerca do negócio. Sendo Francisco ele próprio, simples e humilde, como o seu senhor que na terra representa, não me admiraria, não fosse a sua debilitação física, que repetisse o gesto do seu senhor. Esta gente empreendedora do negócio não tem, tal como os vendilhões qualquer cultura que vá além dos cifrões. Talvez lhes fizesse bem algumas leituras (por exemplo, O Sagrado e o Profano, a essência das religiões,  Mircea Eliade), porque é duma celebração religiosa que se trata. 

Fazem disto uma comédia triste a gozar com quem tem fé. Porque os outros que nunca a tiveram se acham mais ajuizados e os que a perderam se acham justificados.

Que tem aquele espaço, escolhido para o inonimado altar,  que o possa tornar, de um momento para o outro, num lugar de epifania do sagrado? Então, faltam santuários em Portugal? Então, não têm Fátima? Não têm o Sameiro? Então, para se reunirem ‘no amor de Cristo ‘ têm de construir uma mesa especial? 

O rebanho é grande? Que vão para a praia da Figueira da Foz, ou para um montado no Alentejo que o sagrado se revela mais na natura de sobreiros ( ou talvez da azinheira) que na urbe, num altar rochoso de granito que num traste de betão. 

Nem me passa pela cabeça ir lá, nem espreitarei pela televisão que durante esse tempo (antes, durante e depois) estará fechada. Não gosto da multidão, a turba onde o indivíduo se dilui, onde a razão se turva, onde a comoção cresce até às lágrimas ou, consoante, o amor ou o ódio chegam aos extremos. Para saber como é, não precisam de ler William Reich - Psicologa de Massas do Fascismo, nem ler sobre rituais festivos dos povos ditos primitivos ( tão próximos e distantes deles!), nem saber das orgias dionisíacas porque Hitler, Estaline e Mao estão ali, atrás de nós, e Trump e Bolsonaro ao nosso lado; à frente, não sabemos quem estará mas os sinais são preocupantes. E quem como eu nã gosta de multidões não esta livre de por elas ser arrastado.

Não há multidões boas ou más: há indivíduos transformados em massa com as propriedades que a tornam assim: massa. E, além dos conceitos científicos de massa, há os práticos: uns que a sabem fazer crescer, outros que a sabem desviar, outros que a sabem arrecadar e outros gastar. Alguns também sabem que a fé pode ser o fermento. Outros, ainda, sabem que o rebanho se enfurece primeiro, se acalma depois e a seguir, embasbacado, bate palmas.