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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

A terra do Calhas

julmar, 09.05.16

Entre as palavras que definem a lusa gente, temos o verbo calhar. Às vezes vem mesmo a calhar por que se ajusta ao que era esperado, porque convém assim, porque encaixa como uma luva, porque chegou no momento próprio. Trata-se do Calhas em maré de sorte. Porque, por natureza, o Calhas umas vezes calha bem, outras vezes calha mal. Quando calha bem, diz-se ‘veio mesmo a calhar’; quando calha mal, é a vida. Mas o Calhas não tem origem, nem história, nem causa. Simplesmente acontece. Ele é um princípio básico do (des) conhecimento. É mesmo o contrário do princípio explicativo da realidade, isto é, do princípio de razão suficiente segundo o qual tudo o que acontece tem uma causa. Por isso, é um bom aliado do espírito preguiçoso que ‘deixa o marfim correr’, parente do ‘fia-te na virgem’. Mas, apara além de ser um princípio de conhecimento e aprendizagem ele é também um princípio de ação segundo o qual não é necessária preparação ou plano para atingir um objetivo, basta fazer ao calhas. Se calhar corre mal e ainda bem que não se investiu muito, senão o prejuízo seria maior. E até calha que às vezes o Calhas tem razão, porque até um relógio parado está certo duas vezes ao dia. E porque o calhas às vezes dá certo, depressa nos dão como incentivo empreendedor o conselho de ‘atirar o barro à parede’   Portugal é a terra do Calhas. Ele está entre nós, ele está dentro de nós. Bem que cada português podia acrescentar Calhas ao seu nome. Do Calhas é que depende tudo: do juiz que nos calha, do examinador que nos calha, do professor que nos calha, do médico que nos calha, do polícia que nos calha, da mulher/homem que nos calha. Até há quem defenda que o achamento do Brasil foi obra do Calhas e que a história de Portugal é quase no seu todo obra dele. A ser assim, deveríamos encontrar forma de o materializar e fazer um monumento em sua honra.