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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

O Escritor de Epitáfios

Avatar do autor julmar, 16.09.25

O Escritor de Epitáfios

Desta vez fui bem enganado. Eu que tenho um blog que alguém, com alguma razão, apelidou de obituário, encomendei o presente livro por pensar que o autor trataria, a sério ou a brincar, da perpetuação do legado dos defuntos. Porque na minha aldeia todas as pessoas são importantes e todas têm uma história que mereceria ser contada, sempre que os sinos tocam a sinal para anunciar (onde o som dos sinos chega) a morte de um conterrâneo, eu no blog faço chegar a notícia até aos confins da terra. Primeiro, era o sacristão (o ti Junça, o Daniel, o Alexandre e, por fim, o Chico), agora, que não há sacristão, é um mecanismo elétrico que coloca os sinos  a badalar ou mais exatamente a martelar. Não é a mesma coisa. Também eu um dia morrerei e ninguém mais saberá quem morreu, nem escreverá as breves linhas deo epitáfio do 'requiescat in pace'. Até já me passou pela cabeça escrever o epitáfio de todos os velhos da aldeia, incluindo o meu, e deixar encarregado alguém que na hora carregasse no botão: publicar. Dizem os entendidos que uma das primeiras manisfestações ou expressões de humanidade tem a ver com o culto dos mortos provado ao longo da história, desde monumentos gigantescos como as Pirâmides dos egípcios, à diversidade de artísticos túmulos e  panteões, aos túmulos  escavados nas rochas ou ás campas rasas do cemitério da minha aldeia. Pois, o meu blog é, assim, uma espécie de necrópole onde poderão ver a fotografia do ente querido e umas breves palavras que espelham o melhor da sua viagem terrena. Talvez, com o passar dos anos seja quanto fica, não lavrado em pedra mas numa matéria imaterial, perdoe-se o paradoxo. Concluindo, acho, pois, que é um trabalho valioso. Preservar a memória dos mortos. Com a vantagem de que nenhum deles reclamará.

Mas, afinal, por que fui bem enganado?

Porque, esperava uma coisa e saiu-me outra que está completamente dentro dos meus interesses: Andar. E li com gosto a descrição da viagem que o personagem principal faz : O Caminho de Santiago que sempre quis fazer, não fiz e agora não sei se ainda me atrevo. 

Como ensinamento devemos saber que no caminho de Santiago ou no caminho da vida todos transportamos uma mochila. Devemos saber o que transportar nela e o peso que carregamos. Saber o que é necessário, deitar a tralha fora.

Quando fizeres o Caminho nada lhe peças, mas aceita tudo o que ele tiver para te dar”
 

SPQR - "Comam, bebam, sejam felizes, pois amanhã morrerão"

Avatar do autor julmar, 30.08.25

Livro SPQR MARY BEARD

Mesmo aqueles que nunca estudaram a cultura clássica, mesmo aqueles que nunca aprenderam a ler e a escrever, como muitos da minha aldeia, estavam impregnados nas suas vidas de muitos elementos da cultura romana, nomeadamente da língua, que lhes vinham, sobretudo, por via dos rituais religiosos e do respetivo calendário. A missa e outras celebrações eram feitas em latim. E, se é verdadeiro o provérbio, quem não sabe latim, fica assim, o certo é que recitavam em latim desde curtas jaculatórias, como Ora pro nobis, o Pater noster, o Gloria até ao extenso Credo. Ainda, há poucos anos, me associei no canto do sacratíssimo Tantum ergo Sacramentum estropiado na letra mas entoado em conformidade. Hoje achamos estranho como é possível que as pessoas rezassem sem entender o que diziam,  porém, isso só reforçava os mistérios em que assentava a fé. O cristianismo teve como  berço a cultura romana e aí cresceu, a partir de uma pequena seita de judeus, aprendeu a língua e se espalhou por mar e por terra pelas vias e pontes que os legionários e escravos romanos construiram. Com o chapéu protetor do Imperador Constantino, passará de perseguida a perseguidora e, na agonia do império, tornar-se-á o sua herdeira não apenas da lígua, mas da arquitetura, dos ofícios e vestes imperiais, da administração e das hierarquias. Sem império romano com vocação universal, não teria havido cristianismo com igual vocação. Onde chegou o Império chegou o Cristianismo. Aquele morreu, este continuou e chegou aos sítios mais pequenos e mais remotos. 

A minha aldeia é um desses lugares remotos e eu no século XXI fui trazido para a leitura deste livro pelo título do livro SPQR, pela recordação de infância do Guião, um enorme estandarte, com aquelas letras doiradas sobre um fundo roxo que seguia à frente da procissão de Quinta Feira Santa pelas ruas da aldeia no que se designava "Andar as Igrejas". Dizia-me, não lembro quem, que as letras queriam dizer "Salvai o Povo Que é Romano". Mais tarde aprendi latim, estudei cultura clássica e soube, então,  que havia no significado adaptado uma intenção salvívica. A traducão de "Senatus PopulusQue Romanus" é "O Senado e o Povo Romano" que é disso que o livro trata. Um excelente livro que mal aborda a problemática do cristianismo. Roma era um povo politeísta, onde se prestava culto a múltiplos deuses não só romanos não havendo qualquer ideia de impôr deuses ou da afirmação de que existe um único deus. A corte romana não era celestial e os romanos estavam muito ocupados com o prerente.Um conselho escrito numa casa de banho pública dizia

"Comam, bebam, sejam felizes, pois amanhã morrerão"

 

Ai Portugal Portugal de que é que estás à espera

Avatar do autor julmar, 16.08.25

Saí de Portugal no princípio de agosto e regressei a meio do mês. Um tempo sem notícias do meu país e do resto do mundo, também. Chegado ao aeroporto, de viagem para casa, começei ouvir as notícias sobre incêndios e verbalizei para os meus acompanhantes, ‘acho que o melhor é regressarmos ao aeroporto e embarcar de novo”, sem propósito de o fazer. Depois de almoço e descanso breves, rumei pela A25 até à aldeia que, ande por andar, sempre lá hei-de voltar. Muito fumo pelo caminho e cheiro a queimado. Estamos fartos, arquifartos de ouvir comentadores e políticos, ao longo dos anos, sobre o que pode e deve ser feito. Mas nada muda.
Então, que poderemos fazer, nós cidadãos, para além de mostrarmos a nossa indignação? Toda esta morte, no sentido literal, da vida da natureza e de vidas humanas, a destruição de recursos irreparáveis, não será o reflexo de uma indiferença instalada perante o horror que nos entra casa dentro pela televisão, constante e repetido até parecer normal? Não é isto a ‘ banalidade do mal’? Não é esta banalidade que a atitude do Governo e do Primeiro Ministro passam aos cidadãos?
Que país é este que, ano após ano, repete os mesmos erros, até se instalar a ideia de que isto é uma fatalidade com que temos de viver? Onde está o país de marinheiros que dobrou o Cabo das Tormentas? Onde está o país que instaurou a República? Onde está o país que fez o 25 de Abril? Nem de propósito, enquanto seguia olhando a paisagem ardida, na rádio soava a música "Portugal, Portual" de Jorge Palma

Ao entardecer

Avatar do autor julmar, 18.07.25

entardecer.jpg

O amigo Hortênsio, poeta sem palavras, pré-histórico por desconhecer a escrita, pede-me que lhe leia Cesário e Pessoa na versão Alberto Caeiro com quem partilha o deslumbramento do mundo rural.

Ao entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente.

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

Uma insólita leitura

Avatar do autor julmar, 28.06.25

Morramos ao Menos no Porto

Não costumo desistir de um livro, embora tenha sentido algumas vezes essa tentação. Com este livro, lidas duas ou três páginas, disse, para mim, fico por aqui. Não, vou ler um pouco mais e fui até ao fim. Começei a sentir o fluir das palavras, um certo sabor a Saramago, por um lado, a Lobo Antunes, por outro. Lembro-me de não gostar do ritmo jazz e como se me tornou melodioso; frases longas entrecortadas por pausas inesperadas, variações de tom e repetições como “refrões”, criando um fluxo dinâmico e quase musical. Cada capítulo é uma extensíssima frase. 
Como pano de fundo, a filosofia estóica que o título do livro ostenta com uma carga trágica, irónica e poética, a sugerir que, mesmo que tudo esteja perdido, talvez reste ainda o consolo de morrer num lugar que reconhecemos — o Porto, a casa, o corpo, a memória. 
Uma narrativa que se desenvolve em dois planos:
  • A narrativa de António – viúvo de Silvina, cuja morte permanece presente como um corpo defunto que ele cuida. Ele habita um prédio decadente, onde surgem ecos de um passado violento, personagens periféricas (parteira, sargento, passador, etc.) e murmúrios dos mortos debaixo do chão franciscomotasaraiva.com+4quetzaleditores.pt+4quetzaleditores.pt+4.

  • A dimensão espectral de Silvina – Silvina, outrora viva, aparece como presença morta (sentada numa cadeira de baloiço), cujos odores ainda permeiam o ambiente e interagem com o entorno urbano (sumidouros, cheiros, cães) almedina.net+4quetzaleditores.pt+4rtp.pt+4

Para saborear um pouco:

- Vai, lá rapaz

e se eu mandasse, mandava que passassem com este badanal que não aguento, e náuseas e vómitos que me dão também para um pote de cerâmica, porra para a janela empenada que não fecha e o barulho das mães a chorarem, da namorada aflita, até dois pais enervados, onde é que já se viu um homem a chorar, tudo vem pela fresta da janela que não fecha, porra para esta casa e porra para esta janela, para uma chávena que não encontro, eu que tenho de começar a ginástica da minha mulher e é melhor agora que há menos botas no passadiço e há menos berraria, e a catrineta cheia, e a catarineta afundada, mais uma que se encheu e se afundou, parece uma repetição absoluta e exímia de Deus a jogar aos dados e a ganhar sempre, aposta mais uma que ganha outra vez. pg 100

Domínio - Como o Cristianismo transformou o pensamento ocidental

Avatar do autor julmar, 11.06.25

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Na cultura tudo se liga. O passado longínquo que não vivemos reencontramo-lo em manifestações várias. Foi assim, que ao chegar á página 288, me reencontro com a heresia dos albigenses (séc. XII) e me veio à memória a música que trauteei na adolescência, passada na clausura do seminário diocesano de Beja, em 1966:

Dominique, nique, nique
S'en allait tout simplement
Routier, pauvre et chantant
En tous chemins, en tous lieux
Il ne parle que du Bon Dieu

Ler este livro é embarcar num navio conduzido por um timoneiro experiente. Tom Holland guia-nos com firmeza por uma viagem fascinante ao coração da história do Cristianismo.

Partimos de uma paisagem caótica — uma floresta densa de religiões, seitas, cultos e filosofias da Antiguidade — e, ao longo dos séculos, visitamos cidades marcantes, atravessamos batalhas, concílios, perseguições, tratados, e cruzamo-nos com figuras inesquecíveis: Jesus, apóstolos, mártires, santos, hereges, imperadores e reis.

É um percurso que mostra como o Cristianismo, contra todas as probabilidades, deixou de ser apenas mais uma voz num mundo saturado de divindades e tornou-se a força dominante que moldou o pensamento, a moral e a cultura do Ocidente.

Um livro que não se limita a narrar factos — conduz-nos por eles, com ritmo, profundidade e reflexão.

Dos imensos quadros que o autor nos oferece ao longo de 600 páginas, muitos de autênticos terrores, refiro aquele que, após cerca de oitocentos anos é relembrado pela canção acima mencionada. 

Trata-se da chacina em Béziers contra os albigenses (ou cátaros) que ocorreu em 22 de julho de 1209.

Esse massacre marcou o início da Cruzada Albigense, lançada pelo Papa Inocêncio III para erradicar a heresia cátara no sul da França. Durante o ataque, tropas cruzadas cercaram a cidade de Béziers, que abrigava tanto cátaros quanto católicos. Quando a cidade foi tomada, estima-se que todos os habitantes — entre 10.000 e 20.000 pessoas — foram mortos, sem distinção entre hereges e fiéis católicos.

É nesse contexto que se atribui ao legado do legado papal, Arnaud Amalric, a frase:
"Matem todos, Deus reconhecerá os seus."
(“Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius.”)

Uma nota particular, sobre como cada um tece a sua cultura.

O que me chamou em primeiro lugar a atenção para este livro foi a capa. Via a minha mãe, que por alguns tempos viveu em minha casa, a olhar para esta pintura que tenho na sala onde tomávamos as refeições sem se atrever a falar, até ao dia que disse: - Eu não te queria dizer, Júlio, mas aquela pintura não é normal, há ali qualquer coisa que não está certo. 

A minha mãe, não sabia quem é Salvador Dali, nem entendia nada de surrealismo. Católica, apostólica romana, sabendo que eu não era lá muito católico, ficava incomodada por eu não ter um Cristo crucificado como deve ser, com cravos, com coroa de espinho e com sangue.  A pintura é de 1951, o mesmo ano em que a minha mãe me deu à luz. 

Uma leitura transformadora

Avatar do autor julmar, 21.05.25

Herança

Há tanto para dizer sobre esta leitura que, de momento, para quem queira entender como chegámos aqui, deixo um resumo feito pelo autor nos últimos parágrafos:

"Este livro centra-se em três dimensões da natureza humana vistas a partir de três perspectivas distintas: a evolução biológica da das da nossa psicologia ao longo de milhões de anos, a evolução cultural dos nossos sistemas políticos e económicos ao longo de milhares de anos e os problemas que hoje enfrentamos em consequência disso. O meu argumento principal tem sido o de que, embora a nossa capacidade de aproveitar e gerir os três vieses nos tenha permitido aumentar a cooperação no passado, os nossos métodos de cooperação herdados estão agora a conduzir por um caminho de destruição. Todavia, ao compreendermos melhor como a evolução cultural nos permitiu ultrapassar as limitações da natureza humana no passado, conseguiremos utilizar esse conhecimento na tomada de decisões determinantes para o nosso futuro coletivo. Apenas alguns dos velhos métodos continuam a ser viáveis. Outros não, e é fundamental distingui-los. Precisamos de dar uma série de passos que nos motivem a mudar o mundo em que vivemos e a planear o seu futuro do modo ponderado e consensual, em vez de aleatório e desagregador. Acima de tudo, é crucial que todas as comunidades da Terra estejam preparadas para aprender umas com as outras. Para além de aproveitarmos os valiosos recursos da investigação académica podemos aprender com os conhecimentos dos grupos e de indígenas sobre os males do capitalismo global e como resolver. A ideia de que as teorias do desenvolvimento devem invariavelmente fluir do ocidente próspero para os pobres e incultos não só é arrogante e condescendente como também nos prejudica a todos. E os meus mentores do Kivung eram fascinados por questões sobre as origens humanas. Como a maioria das pessoas da minha aldeia carecia de competência de literacia ideia acesso a livros, desenvolveu as suas próprias teorias experimentais. No entanto, estas eram sempre apresentadas com uma curiosidade gentil, em vez de uma insistência dogmática numa única interpretação. É Exatamente neste espírito que a operação poderá ser ampliada. A Terra tem 4 milhões e meio de anos e - salvo catástrofes provocadas pela humanidade- poderá ser potencialmente habitável durante mais uns mil milhões de anos. Com esta ampla profundidade temporal em mente, o crescimento da nossa espécie não passa de um piscar de olhos. Ainda assim, como os nossos avanços tecnológicos ultrapassam os nossos instintos sociais, o futuro do nosso planeta está agora em jogo. Conseguirão as nossas aptidões de coesão e cooperação em grande escala alcançar os nossos impulsos de destruição? Poderá psicologia dos nossos antepassados recolectores ser adaptado ao mundo em rápida mudança, no qual o conformismo, religiosidade e o tribalismo funciona a nosso favor e não contra nós? Se aproveitarmos a sabedoria do passado e a ciência de presente - os frutos da nossa história não natural - poderemos salvaguardar o futuro da humanidade e de um mundo que depende agora, como nunca antes, da sabedoria com que realizamos a nossa herança coletiva”. Página 378

Mentalidade Nazi

Avatar do autor julmar, 02.05.25

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Ler um livro é como fazer uma viagem, de preferência a pé. Uma e outra assentam em motivações e  guardam expetativas; requerem escolhas, itinerário, calçado e roupa adequados,  talvez uma bússola. Como uma viagem, pode ser longa ou curta de caminho fácil, sempre a andar ou lenta e a necessitar de pausas. Por vezes, para-se no cimo de uma montanha, olha-se para trás  para  o caminho percorrido, olha-se o horizonte em frente  indagando como será o seguinte. Palavra a palavra, passo a passo.

Desta vez, trata-se de uma viagem muito especial, muito muito longa, uma viagem que começa na savana quando tínhamos um cérebro primitivo e estávamos rodeado de ameaças por todo lado onde o importante era distinguir rapidamente quem  eram os nossos inimigos. Foram necessáriosos muitos anos, muitas dezenas de milhares anos para que o nosso cérebro crescesse e nele se desenvolvesse uma outra parte a que chamamos razão para nos eclarecer e controlar as nossa emoções que continuam a fazer parte de nós - o páleocérebro.  O neocérebro é muito jovem na nossa história evolutiva como espécie. De todo o modo é inconcebível (e uma chatice) uma vida sem emoções, que é o que acontece com a minha amiga Júli@  - não se aborrece, não se exalta, nem ama nem odeia, não se angustia nem se entusiasma e não se afeiçoa. A verdade é que este cérebro novo nos veio trazer uma dimensão humana que nos diferencia  dos outros seres. Porém em cada um de nós carrega todo esse passado. Tal como existe esse património como espécie o mesmo acontece com o indivíduo e sempre achei interessante estes dois planos: o filogenético e o ontogenético que E. Haeckel  resumiu brilhantemente na frase "A ontogenia é uma recapitulaçã abreviada da filogenia".

Ora, e o autor do livro chama-nos várias vezes para isto, os jovens, incluindo os soldados, não têm plenamente dormado o 'novo cérebro' e por isso, são mais impulsivos e mais ´'doutrináveis' sendoesse o terreno, por excelência, para Hitler semear a sua doutrina.  Como diz Rees : “se vamos juntar-nos a uma ideologia do ódio, esse é o momento”

Tudo isto para compreender a  questão central desta leitura: como foi possível os nazis cometerem crimes tão hediondos? 

O autor coloca exatamente este fundo da psicologia evolutiva para nos ajudar a entender como foi possível o homem construir o holocausto. É assim uma viagem que começa lá muito longe e vem até os nossos dias e nos ajuda a estarmos de alerta quanto ao futuro.

A minha amiga Júli@ fez a seguinte sinopse:

Em A Mentalidade Nazi, o historiador britânico Laurence Rees explora como o regime de Hitler conseguiu mobilizar uma nação inteira para apoiar — ativa ou passivamente — uma das ideologias mais destrutivas da história moderna. O livro, baseado em anos de pesquisa e entrevistas com sobreviventes e antigos membros do regime, analisa como e por que tantas pessoas participaram, direta ou indiretamente, nos crimes nazistas.

O aspecto mais marcante da obra é a forma como Rees revela a psicologia do autoritarismo e da obediência, mostrando que os nazistas não eram "monstros" excepcionais, mas muitas vezes indivíduos comuns, que aderiram ao regime por medo, conveniência, ambição, ou crença sincera. Através de depoimentos e documentos, o autor expõe mecanismos psicológicos como:

  • Conformismo social: o desejo de se alinhar ao grupo, mesmo quando isso significava apoiar atrocidades.

  • Obediência à autoridade: muitos justificavam seus atos dizendo que apenas “cumpriam ordens”.

  • Desumanização do inimigo: a propaganda sistemática moldou a percepção dos judeus, ciganos e outros como "sub-humanos", facilitando a violência.

  • Justificações morais distorcidas: a ideologia nazista fornecia uma estrutura moral alternativa, onde matar era visto como uma "missão patriótica".

Rees alerta que a verdadeira lição do nazismo não é sobre a maldade de alguns indivíduos, mas sobre o potencial de qualquer sociedade — em certas condições — para mergulhar na barbárie, se os mecanismos de empatia, razão crítica e justiça forem desativados.

Respigos
 
“ Os estudos psicológicos têm demonstrado que a nossa necessidade de pertença é profunda. Somos animais sociais e ausência de ligações está relacionada com uma série de efeitos perniciosos na saúde, na adaptação e no bem estar. Esta necessidade pode ser preenchida com a participação em grupos sociais independentes do estado, mas isto tornou-se cada vez mais difícil na Alemanha nazi, pois o regime procurada forçar a entrada da sua influência em todas as organizações. Esta invasão do espaço pessoal do indivíduo era um dos muitos lado sinistros do sonho utópico da Volksgemeinschaft” 193
 
Pg 206
 
“ Era uma demonstração espantosa …
 
‘Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar“ escreveu Professor Leo Festinger, realizou estudos pioneiros neste campo. “Diga-lhe que discorda dele, e ele volta-lhe costas. Mostre-lhe fatos e números, e ele põe em causa as suas fontes. Apele à lógica, e ele não consegue perceber do que está a falar” página 380
 
Diz o Amora : “ o que não tem remédio, remediado está “ 414
 
Lawrence Rees deixa-nos, no final do livro, como uma recapitulação,  12 avisos importantes: espalhar teorias da conspiração, usar nós e eles, liderar como um herói, corromper a juventude, conspirar com a elite, atacar os direitos humanos, Explorar a fé, valorizar os inimigos, fazer escalar o racismo, matar a distância, semear o medo.
 
 
 

Retratos da nossa (in)cultura 1, por Luís Leonardo

Avatar do autor julmar, 02.05.25

novembro 08, 2004


Muita gente, de manhã, perdido que foi o ritual da missa dominical, foi-o substituindo por outros: ir até junto da praia para andar, marchar, correr, ou, menos preocupado com os quilos que se carregam, sentar-se numa esplanada para tomar café, para conversar ou ler o jornal. Foi assim que me dei a olhar um sexagenário – observou-me uma amiga que as pessoas depois do 60 anos perdem a identidade – num esforço gigantesco a descodificar os títulos das notícias: óculos graduados a escassos centímetros do jornal, construindo cada palavra sílaba a sílaba numa silenciosa articulação labial lenta e numa movimentação direccional da cabeça esquerda/direita por cada linha que lia. Também mudar de página não era fácil: passando o indicador pela língua tentava folhear ao mesmo tempo que soprava para separar as páginas.

NB - Há 20 anos ainda se liam jornais nos cafés.

In, Pitagórico

 

Socialismo burguês

Avatar do autor julmar, 29.04.25

A Seixas.JPG

"Somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros"
Orson Welles
O meu sogro morreu uma semana antes do Dr Mário Soares. Ambos morreram pouco tempo depois de completarem 92 anos de idade. Todos os portugueses sabem quem é Mário Soares mas muito poucos sabem quem é António Seixas. Por isso, Mário Soares esteve no hospital da Cruz Vermelha com uma equipa médica a tempo inteiro, nas melhores instalações e com todos os mais sofisticados meios, cuidando da saúde e bem estar. António Seixas estava num lar e a cada agravamento do estado de saúde era chamada a ambulância dos bombeiros que, obrigatoriamente, fazia escala no Centro de Saúde do Sabugal para, em seguida, ser transportado ao hospital da Guarda onde aguardava, por tempo indeterminado, deitado na maca, por atendimento. No hospital não havia lugar para internamento, por isso, is e voltava a vir repetidamente, até morrer. De uma das vezes, tremia tanto que a médica se apressou a diagnosticar-lhe Parkinson. Mas não, era apenas frio. Muito frio.
Muito se escreveu e muito se escreverá sobre Mário Soares, socialista, republicano e laico. Sobre António Seixas, sem etiquetas políticas ou religiosas, não se escreverá mais do que estas palavras que poucos lerão. Foram iguais no que a natureza se encarrega - no nascimento e na morte e os dois viveram uma longa vida - 92 anos. Um e outro cidadãos portugueses; um e outro obrigados a deixar o país: um para fugir à fome, outro para fugir à prisão. Os dois estiveram, na mesma época, em Paris. Um na Paris das elites, dos museus, dos jardins, das grandes avenidas ensinando na universidade, reunindo e conspirando; o outro no bidonville de Champigny, de ruas lamacentas e barracas feitas no descanso dos domingos, companheiro de um exército operário, construindo o conforto e o luxo dos outros.
Que tem a Paris de Mário Soares a ver com a Champigny de António Seixas? Que tem a ver um com o outro?
Um tem um sonho para todos os homens e para o seu país: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O outro tem um sonho de felicidade para si e para os seus que nunca os homens 'iluminados' enlamearam os sapatos nas ruelas de Champigny para lhes anunciar e explicar a tríade da Revolução Francesa que, além da liberdade e fraternidade, prometia a igualdade entre os homens.
E, claro, os homens doutos, iluminados têm uma interpretação tão complexa desse conceito que os homens do bidonville não teriam inteligência e formação suficiente para a entenderem.