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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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Limpar o olhar -Há escolas sentadas à "sombra da bananeira", in Educare

Avatar do autor julmar, 17.02.11

Ora, aqui está um estudo que vale a pena. Vale a pena porque ajuda  a desembaraçarmo-nos de ideias feitas.

Estudo do ISEG faz a divisão: escolas de elite, escolas fatalistas, escolas surpreendentes e escolas à sombra da bananeira. Investigação conclui que falta uma cultura de gestão de desempenho e de auto-avaliação e que o contexto socio-económico dos alunos explica 30% dos resultados nos exames.

 

"Perspectivas Diferentes Sobre o Desempenho das Escolas Secundárias Portuguesas" é um estudo do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa que percorreu, ao longo de um ano, 303 escolas públicas onde foram realizados mais de 50 exames de Português e de Matemática. Os pratos da balança não ficam equilibrados. As habilitações dos pais e a idade dos alunos explicam 30% dos resultados dos exames. Os restantes 70% estão nas mãos das escolas, ou melhor, no trabalho que promovem. A investigação, financiada pelo Ministério da Educação e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, foi apresentada no seminário "Economia e econometria da educação", promovido pelo ISEG.

Os alunos terminam, regra geral, o Ensino Secundário com 17 anos e quanto mais velhos chegam ao Secundário piores são os seus resultados. Perto de 40% dos pais têm pelo menos o nível Secundário, cada professor tem 14,6 alunos em média por turma, um quinto dos alunos beneficiam de apoio social escolar e a taxa de absentismo da classe docente é de seis dias por ano. O estudo revela ainda que os alunos estão mal preparados quando transitam para o ensino superior. Conclusão retirada das notas dos exames nacionais. Pelo menos 37% dos estudantes do 12.º ano não se puderam candidatar ao ensino superior. O estudo conclui que a "baixa qualidade dos resultados da aprendizagem no Ensino Secundário compromete o sucesso no Ensino Superior".

Os autores da investigação tiveram em atenção diversas variáveis: resultados dos exames nacionais do Secundário de Português e Matemática, taxa de conclusão no 12.º ano dos cursos científico-humanísticos no ano 2009/2010, características das escolas, idade dos alunos, habilitações académicas e profissão dos pais, número de alunos com apoio social, taxas de progressão e de conclusão do Ensino Secundário e taxa de absentismo dos docentes.

Com as várias características de alunos e professores em cima da mesa, calculou-se o desempenho médio esperado para cada escola, que resultados poderiam ser obtidos nos exames e na conclusão do Secundário. A partir daí, foi construída uma lista com quatro categorias. Escolas de elite com boas médias e que apresentam resultados e desempenhos acima do esperado. Escolas fatalistas com resultados e desempenhos abaixo do expectável. Escolas surpreendentes que têm resultados académicos abaixo da média nacional, mas que têm resultados acima do esperado. E ainda as escolas à sombra da bananeira, que têm resultados acima da média nacional, mas o desempenho é inferior ao que seria esperado, tendo em conta as características da escola. A lista das escolas não pode ser divulgada por imposição do Ministério da Educação.

Cláudia Sarrico, investigadora do ISEG e uma das autoras do estudo, defende que as escolas à sombra da bananeira deviam puxar mais pelos alunos. "Há escolas que estão a tirar o máximo partido dos alunos e outras não", refere ao EDUCARE.PT. Cláudia Sarrico, do ISEG, Margarida Fonseca Cardoso, da Universidade do Porto, Maria João Rosa, da Universidade de Aveiro, e Fátima Pinto, da EB2,3 de Canedo, são as autoras do estudo que, além de uma análise quantitativa, investiu numa abordagem qualitativa em 12 escolas do país - avaliadas externamente pela Inspecção-Geral de Educação em 2007 -, três de cada uma das quatro categorias criadas. "Estudámos as práticas de avaliação das escolas e de auto-avaliação e conclui-se que não há uma prática consolidada e uma cultura de avaliação", adianta Cláudia Sarrico. Os resultados deverão ser publicados em português num livro e a investigadora sustenta que, regra geral, as escolas querem mais informações. Ou seja, querem perceber como é feita a comparação com outras escolas, como podem pedir apoio no processo de avaliação, como os dados são tratados, espremidos até às conclusões.

A investigação qualitativa contou com 43 entrevistas semi estruturadas a quatro actores: o director da escola, o presidente do conselho geral, o responsável pela auto-avaliação e o chefe dos serviços administrativos. Uma das constatações é que as acções de melhoria nas escolas raramente são avaliadas. "Quase nunca se refere que há algum tipo de avaliação, o que significa que as escolas podem desenvolver acções de melhoria mas não as avaliam no sentido de ver se elas estão a resultar ou não", lê-se no estudo.

A dimensão do desempenho mais avaliada é o ensino e os resultados escolares são os indicadores de desempenho mais utilizados. Verifica-se ainda que os professores são os mais cépticos e críticos em relação ao sistema de avaliação. Outro dado é que os rankings são desvalorizados pelas escolas nos discursos oficiais, mas esses valores acabam por ser analisados internamente, nomeadamente a discrepância que possa existir entre as notas internas e as dos exames. Os rankings são, apesar de tudo, valorizados pelos pais dos alunos que dão importância a esse posicionamento dos estabelecimentos de ensino.

As escolas têm autonomia para escolher o modelo de auto-avaliação, mas algumas ainda não se sentem preparadas para a exercer. "As pressões internas ficam-se sobretudo pelo corpo docente. Ainda há pouca participação dos outros membros da comunidade educativa. As pressões externas focam-se sobretudo na avaliação externa da Inspecção-Geral e dos rankings publicados pela comunicação social".

O estudo do ISEG chega à conclusão que há algumas práticas de gestão de desempenho nas escolas, mas que não estão enquadradas num processo sistémico e estruturado. "A dificuldade não parece estar tanto em medir o desempenho ou em definir acções de melhoria (fundamentalmente quando os impulsionadores destas acções são agentes externos - IGE), mas em fazer do processo de gestão de desempenho uma prioridade e um processo interiorizado e enraizado nas práticas das escolas."

Sara R. Oliveira

 

 

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