Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

A República em Vilar Maior

 Parte II

 

Segunda Investida

            Os Kagados esperaram três anos uma ocasião para deitarem a cabeça de fora. A ocasião surgiu, assim relatada:

            Havia perto da Egreja parochial uma casa chamada a casa da fabrica que nos fins d’agosto de 1911 foi devorada por um incendio. Resolveram reconstrui-la para casa das sessões da commissão parochial e lá a teem hoje - meza redonda, meia duzia de cadeiras, etc. Uma imitação dos doze de Inglaterra. Um mez e tal antes de começarem os trabalhos da reconstrucção, mandam buscar dois carros de telha, e tendo imensos palheiros onde a arrecadarem, collocam-na no templo. E eis delineado o trama: - o templo é nosso, visto estar descrito no arrolamento das alfaias eclesiásticas que está em nosso poder. Vamos collocar nelle a telha com o que muito se arreliará o padre, visto ela destinar-se a um fim puramente profano. Se elle, como é provável, de lá a mandar retirar, processamo-lo por mandar retirar uma coisa nossa d’um logar onde só nós mandamos.

            Mas fizeram mais. Abrem de par em par as portas e introduzem os carros no templo.

            Eram cinco horas da tarde quando me abeirei da Egreja onde deparei com este indecoroso espectaculo que no género disparate atinge o récord.

            Adverti-os do abuso, convidei-os a emendá-lo, sendo-me respondido entre varias e torpes blasfêmias que ali só elles mandavam.

            Afastei-me um pouco para ver se conseguia acalmar o meu espírito. E como a fita das blasfemias continuasse a desenrolar-se, intimei-os a calarem-se, não em atenção a mim mas ao logar onde se encontravam e a emendar o abuso, sob pena de ...             Procurou o regedor e não o encontrou. Entardecia. Mandou tocar os sinos e mudar o Santíssimo para a Igreja da Misericórdia onde exerceu o culto  até que as mulheres num trabalho hercúleo, retiraram a telha da Egreja. Eram cinco horas e meia da tarde  do dia 11 de setembro de 1912. Umas nuvens cinzentas paiarando no occidente nos vedavam o pôr do sol. Não foi preciso mais para que na parte se frisasse que a procissão do Santíssimo tinha sido feita a elevadas horas da noute...

            Dada a impossibilidade de reconciliação fazem-se as respectivas participações ao Administrador. Os Kagados vão ao Sabugal e pressionam o Administrador ameaçando com a sua demissão caso o pároco não fosse expulso da freguesia. Ouvido pelo Secretário em representação do Administrador, disse-lhe que tivesse paciência à semelhança de Jesus Cristo e que nada receasse. No entanto, os ferrabrazes conseguem arregimentar um bando de testemunhas, umas por ameaça, outras com a promessa de encher a barriga de postas de bacalhau amassadas em vinho

            O Adminstrador intima-o a comparecer perante o Governador Civil no dia 11 de novembro de 1912. O governador disse-lhe considerá-lo o maior reaccionário do concelho do Sabugal. Mas expostos os factos ao Governador fica este convencido da inocência do pároco.

            Volvidos quatro meses é nomeado administrador do Sabugal o padre David.  

            No dia 4 de março de 1913 publicava-se um decreto no “Diário do Governo” pelo qual o padre Júlio Matias era expulso do distrito da Guarda pelo tempo de um ano.

Reclamação

            Em carta dirigida ao Presidente da República, reclama, baseado na legislação do Estado e em casos julgados por motivos idênticos e absolvidos, a sua inocência.

De que era acusado?

Reconhece divergências com três elementos da comissão paroquial; Faz o historial dos factos para negar a veracidade ou para à luz das leis da República mostrar não haver infracção:

De ter mudado o local de culto para a Misericórdia devido aos incidentes acima relatados e que assim pretendiam interditá-lo do exercício do culto para o que apresenta como testemunhas Maria Caramella, casada e Isabel Hespanhola, solteira.

Fantasiaram vários e falsos casos factos:

Acompanhamento ao cemitério e fazer-lhe a devida encomendação a horas proibidas por lei, isto é ainda antes do nascer do sol.

Recusa de acompanhar o cadáver de uma filha do presidente da comissão paroquial.

Exercício do culto fora dos lugares a isso destinados.

Andar de hábitos talares.

... o Decreto da minha expulsão pode considerar-se uma verdadeira monstruosidade jurídica (...) Tudo isto prova que o meu castigo é injusto indo até certo ponto d’encontro á missaõ que o regime Republicano tem a cumprir, de tratar todos os cidadãos portuguezes com egualdade, fraternidade e justiça.

Resposta de S. Exª o Senhor Presidente da Republica

Palacio de Belem, 25 de março de 1913

            Ao Rev. Snr Júlio Mathias, dig.º

            Reitor de Villar Maior

                                   Belmonte:

            Encarrega-me Sª Exª o Senhor Presidente da República de dizer a V. S.ª que leu com toda a attenção a reclamação que lhe enviou. Não lhe permittindo os poderes que a Constituição lhe confere prover de remedio à queixa apresentada por V. S.ª, lembra a conveniência de, pelos meios legaes, V. S.ª ao dirigir a S. Exª o ministro da justiça, para obter a justiça a que se julga com direito. Saude e fraternidade.

            O Secretário Geral da Presidência da Republica,

                        Manuel Forbes de Bessa.

           

            Enviei uma copia d’esta reclamação ao Senhor Ministro da Justiça, cuja resposta ainda hoje aguardo.

            Quando Júlio Matias se encontrava no exílio, tentando esquecer os tristes acontecimentos, sai um artigo, assignado pelos três acusadores, no jornal o “Combate”, 12 de Abril de 1913, nº 397 onde ele era acusado.

publicado por julmar às 21:11
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