Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Amálgama

In Público 19 de Janeiro

«Amálgama. É essa a primeira imagem. Amálgama. A cidade está esfarelada e decomposta. Dissolvida. Os elementos arrancados dos seus compostos e depois misturados. Sapatos com pedaços de ferro. Carros espalmados em paredes de casas. Ecrãs de televisão com comida podre. Amálgama, traduzida na língua dos pesadelos.

Um cadáver no passeio, coberto de moscas. Montanhas de lixo. Cheiro a carne podre misturado com carne queimada. Misturado com cheiro de lixo e pó. Mistura de pó e fedor a cadáver. Fumo, gases de borracha a arder. Mistura de cheiros quentes, orgânicos e cheiros gelados. Mistura de coisas humanas e coisas artificiais, metálicas, tóxicas.

Amálgama horrível de cheiros e sons: os helicópteros a sobrevoar as ruas, gritos, vozes secas, ásperas, e mulheres a cantar, em rituais desesperados, pelos escombros. Mas sobretudo silêncios. Pessoas caladas, vagueando pelas ruas, apressadas, como se soubessem para onde iam. Como se a sua casa ainda existisse, o seu trabalho, os seus amigos. A cidade está atarefada, como se ainda existisse. As pessoas caminham como se fossem para o emprego, ou para a escola, mas vão procurar os seus mortos. Correm como se fossem ao mercado, mas vão em busca de coisas para roubar. Uns, comida e água para sobreviver. Outros querem mais. Uns procuram o que perderam. Outros o que nunca tiveram.

O rapaz guarda a catana no interior do casaco e corre com um riso triunfante, aos tropeções entre os pedaços de betão e barras de aço torcido espalhados na rua, com um pacote de biscoitos na mão. O assalto é organizado de forma rápida e eficaz: alguns membros do gang bloqueiam aquele pedaço de rua, aos gritos, exibindo catanas, facas, tesouras e todo o tipo de objecto contundente e aguçado que conseguiram arranjar, enquanto outros, em fila, trepam pelos escombros do supermercado destruído, esgueiram-se por uma fenda sinistra e saem por outra com o que apanharam. Neste caso, a loja chama-se "Authentic". "Articles diverses", diz numa placa que sobreviveu, rasgada a meio como uma folha de papel.

É uma rua comercial. Havia lojas de um lado e de outro, um grande mercado, vários edifícios altos, de betão, que albergavam empresas. Tudo desfeito como farinha. Um grande armazém é agora uma massa de destroços com um buraco por onde se pode penetrar: vários homens descarregam ordeiramente caixotes para um camião, no meio da balbúrdia geral. Dois buldozers desmontam aos poucos o puzzle do que foi um edifício de escritórios. Os pedregulhos e massas e betão movem-se e cedem com a acção das grandes pás das máquinas, mas isso não afasta de cima dos escombros o enxame de saquadores.»

publicado por julmar às 18:07
link do post | favorito
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



.pesquisar

 

.Novembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Passo a passo - Objetos ...

. Outubro, passo a passo= a...

. Preparar o centenário de ...

. Sobre corrupção

. Lendo Pico de la Mirandol...

. La Bohéme

. Passo a passo pelo Afegan...

. O valor da desobediência

. Chegada a Teerão, passo a...

. Gelado de filosofia

.arquivos

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds