Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Leituras - A formação dos professores

 

Já em 1972, o Relatório da Comissão de Estudo sobre a função do professor no ensino médio pode falar da "crise da relação pedagógica": "do modo como ela vinha se fazendo há apenas 15 anos, a profissão se tomou impraticável".9 A situação não é, aliás, específica à França: Peter Woods, na Grã-Bretanhi fala de um "problema de sobrevivência". 10

         As pressões sobre as capacidades de adaptação dos professores aumentaram, estão aumentando e continuarão provavelmente a aumentar (...). Os professores não podem mudar nem de profissão, nem a ordem social, eles devem, então, adaptar.

Eles devem acomodar-se à situação. Lá, onde os problemas são numerosos e intensos, a adaptação prevalecerá sobre o ensino (...). Os professores adaptam desenvolvendo e utilizando estratégias de sobrevivência".

Primeiro sobreviver, depois ensinar: esta é, daí em diante, a ordem de

prioridades para os  professores. Sua famosa "resistência à mudança" é, talvez antes de tudo, a expressão do sentimento de precariedade, e mesmo de ameaça, que eles experimentam: quando se vive equilibrando-se sobre um abismo, toda mudança é, antes de tudo, desestabilização, desorganização de estratégias de sobrevivência elaboradas a duras penas.

A dificuldade de ensinar é um efeito da evolução geral das sociedades industriais modernas, não podendo, então, ser reduzida à desvinculação entre a relação dos jovens e dos professores com o saber. Mas essa desvinculação que traduz ela própria um distanciamento crescente entre as duas lógicas evocamos ao longo deste texto, exprime, no campo do saber, isto é, lá onde a escola encontra, a princípio, sua razão de ser, a mutação da escola moderna

Ela torna hoje particularmente difícil o exercício do "métier" do professor. O professor devia outrora dominar as práticas profissionais que lhe permitiriam transmitir saber aos jovens; mas os jovens não questionavam o valor particular desse saber em si mesmo. Hoje o professor deve dominar as práticas profissionais que lhe permitem transmitir, em sua coerência específica, saberes a jovens que só conferem alguma legitimidade ao saber se ele é "útil". A tensão entre a lógica das práticas e a do saber constituído em discurso afecta não somente os professores como também os alunos. A partir daí, ela se toma muito mais difícil de gerir, e as práticas profissionais para as quais o professor deve formar-se ficam muito mais complexas... e muito mais precárias.                                                                                   

Formar professores é dotá-los de competências que lhes permitirão gerir essa tensão, construir as mediações entre práticas e saberes através da prática dos saberes e do saber das práticas. Para formar educadores, é preciso ser igualmente capaz, como formador de educadores, de gerir a mesma tensão.

In, Bernard Charlot – Relação com o saber, Formação dos Professores e Globalização

 

publicado por julmar às 16:39
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