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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Devia morrer-se de outra maneira- José Gomes Ferreira

julmar, 27.03.08

A visita ao cemitério da minha aldeia, sempre que lá vou, é inevitável. De resto á medida que o tempo passa é lá que encontramos os nossos - e os que lá estão são todos nossos; e porque em nenhum outro sítio nos encontramos tanto. Não são os mortos como mortos mas a vida que ali se sente. aqui eu sinto-me transfigurado:é o castelo, é a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, as árvores de entrada do cemitério, são as nuvens .. são muito mais do que são.

 Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio."
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…depois os cabelos…) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve…tão subtil…tão pólen…como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…»

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