Sábado, 11 de Novembro de 2006

Quem se importa com os professores?

A pedido do amigo Ruas aqui se publica o srtigo com o título em epígrafe. ________________________________
 
 O que impressiona nas intervenções mediáticas dos responsáveis do Ministério da Educação (ME), é a ausência total de uma pa­lavra de apreço e incentivo para com os professo­res. Quando ela vem, parece forçada, demasiado geral, demonstrando uma incompreensão pro­funda pelas condições do exercício da profissão. Os últimos rumores (verdadeiros) sobre as eventuais oito horas lectivas obrigatórias, mais o corte das «pausas» do Natal, Carnaval e Páscoa, provam que as autoridades encarregadas de con­ceberem a política educativa do nosso país não sabem - ou não querem saber - o que implica ser professor.
Fica-se com a sensação de que o ME tem do professor a ideia de alguém que goza de privilégios imerecidos, que sobe «à balda» na carreira, que falta às aulas quanto pode, que se está nas tintas para o aluno, que se esquiva o mais possí­vel ao trabalho e ao esforço. O cúmulo deste intolerável estado de coisas é que usufruiria - como se faz crer aos por­tugueses - dos melhores salários em comparação com os equivalentes euro­peus. O imperativo da política educa­tiva formular-se-ia, pois, assim: «Vamos pôr tudo isto na ordem.» Vamos varrer o despesismo, a «balda», o desperdício, o oportunismo, o laxismo, a facilidade, a incompetência - todos esses vícios da maioria dos docentes que teriam trans­formado a escola num lugar para se vi­ver de boas rendas, trabalhando pouco, mal, e gozando de inomináveis rega-lias e do maior tempo de ócio. Imagem tão pregnante que as excepções - «aquele professor que nos marcou para toda a vida...», frase estafada que, pelo menos, diz a parte mínima que compõe a minoria - seriam incapa­zes de a combaterem e de a apagarem.
Eis o que explicaria os excessos discursivos (e não só) dos responsáveis do ME. Tem-se a nítida impressão de que não gostam dos professores - por mais que queiram dis­tingui-los dos sindicatos. Ora, o que está em jogo no actual debate sobre a educação, é a transformação de uma situação há muito desastrosa, criando condições para um ensino de qualidade, à altura das ambições da «modernização» global do País, proclamadas pelo Governo. Nesse quadro, a Edu­cação constitui um pilar essencial do projecto governativo do primeiro-ministro: se ele falha, falhará todo o projecto. Neste momento constata-se que o clima das escolas (professores cansados, abatidos, deprimidos - dos que pertencem às «excepções») não contribui para a boa aplicação dos no­vos estatutos que aí vêm.

Quem se importa com os professores? Questão que po­deria deslizar, perigosamente, para esta outra: quem se im­porta com o ensino? Quem, nesta reforma, pensa no tipo de trabalho, material e imaterial, que o professor fornece, para que a relação mestre aluno produza os efeitos esperados? Relação extremamente delicada, que não se reduz à trans­missão de conhecimentos, mas que exige do professor um investimento múltiplo, emocional e intelectual,
que provoca um desgaste psíquico e existencial extremo. Que se me permita citar umas linhas que escrevi noutro local: «O investimento na docência convoca forças de toda a ordem, os dons, a capacidade de controlar e de se auto controlar, a plasticidade para se
adaptar a e lidar com cada aluno em particular, o equilíbrio inces-
sante entre o papel de docente e o de educador, o constante brio que se exige
de si (o terrível superego do professor que o força a ter a melhor imagem de si para estar em paz consigo mesmo), a responsabilidade que assume pelo aproveitamento dos alunos, etc. Ele não investe uma ou duas «competências», investe na aula a sua existência inteira”.
Mas não são só o espírito e os métodos pedagógicos que devem ser considerados dentro de um contexto mais alargado.
É a própria noção de «racionalização» do ensino que tem de ser repensada. A ac­tual política educativa parece padecer de toda uma série de disfunções e desfasamentos: muda-se o estatuto da carreira docente, com novas tarefas, mais trabalho, mantendo-se inal­terados os conteúdos e negligenciando a formação necessária dos maus professores; instauram-se regras de avaliação, mas não se eliminam os compadrios e as conivências; exigem-se boas vontades para certas tarefas, e quebram-se as vontades não oferecendo contrapartidas; voltam-se os pais contra os professores, estes contra a instância que os tutela, o pessoal administrativo contra os professores, e já mesmo se formam alianças alunos - pais contra o Ministério. . .
Tudo isto é mau para o ensino e para a educação. Como se a «racionalização» do ensino básico e secundário, ao preocupar-se apenas com alguns dos seus aspectos, e sem visão global, induzisse necessariamente outras formas de irracio­nalidade e anarquia.»

José Gil - Visão, 9 de Novembro de 2006.
publicado por julmar às 19:52
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