![Bertrand.pt - O Cérebro Ideológico]()
Haverá muitos critérios para considerar a leitura de um livro importante. No meu caso, tal é mensurável pela influência que exerce em mim, na forma como me ajuda a clarificar ideias, no modo como me ajuda a entender-me a mim e aos outros. Digo no modo como poderia dizer no método. O método, ou caminho, que o autor segue para descobrir, mostrar ou demonstrar as teses que defende. Isso exige esforço, trabalho, espírito científico que se traduz na apresentação do livro, verificável, pela quantidade de notas e pela bibliografia exposta na parte final. Não basta afirmar, é preciso provar e confirmar. Isso é ciência. O nosso cérebro, preguiçoso como é, adora certezas, gosta de vadiar por caminhos fáceis e já trilhados e prefere companheiros pacíficos e obededientes. Acima de tudo, encanta-se com histórias e se, desde cedo, encontrar uma repetida por muitos poderá viver nela o tempo todo. O cérebro não cuida do que é verdadeiro mas do que é cómodo e conforme. Daí que lhe sejam simpáticas,
"as ideologia regressivas que olham para trás nostalgicamente-procurando preservar ou restabelecer antigas hierarquias de poder, enraizadas em características de gênero, geografia, raça, classe ou casta - exercem controle sobre os seus seguidores com ameaça de violência ou de privação material ( que é outro tipo de violência.
E, porque o cérebro é preguiçoso,
encontrará maneiras de dividir as pessoas em binaridades de bem e de mal, sem nada entre elas ou além delas." pg91
O cérebro é faminto dessa droga mágica que dá pelo nome de dopamina o que ajuda a compreender muito do nosso comportamento que tende a perseverar nas histórias que na infância nos foram inculcadas. C. Darwin é um bom exemplo dessa luta entre o cientista que descobre um novo significado para a vida na terra e o crente que descobre o sem sentido da Bíblia e que a frase que a esposa de C. Darwin pediu para que não constasse na sua autobiografia, ilustra:
“ Não devemos ignorar a probabilidade de a constante inculcação de uma crença em Deus nas mentes das crianças produzir um efeito tão forte e porventura herdado nos seus cérebros ainda não completamente desenvolvidos, que lhes seria tão difícil abandonar a sua crença em Deus, quanto para um macaco livrar-se do seu medo e ódio instintivos por uma cobra “ página 183
Diz-nos o autor que
“Num estudo com mais de 700 págs, descobri que a flexibilidade cognitiva estava ligada à descrença religiosa “ (...) e
“Para mim, são essas as pessoas mais interessantes: as que desafiaram as expectativas dos seus pais e conduziram a suas vidas numa direção diferente. Nos dados, descobri que aqueles que abandonaram a ideologia religiosa conseguiram as pontuações mais elevadas em flexibilidade. Em alguns testes de flexibilidade, os indivíduos que se havia tornado seculares até tinha uma vantagem sobre as pessoas que sempre haviam sido seculares. E as pessoas que se converteram a uma ideologia religiosa conseguiram em média as mais baixas pontuações de flexibilidade, sendo por vezes mais rígidas do que as pessoas que mantiveram uma ligação religiosa durante toda a vida.“ Página 190
E, no caminho socrático do "Conhece-te a ti mesmo", achei o livro fantástico pela oportunidade de avaliar a minha história de vida com uma luz diferente.