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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Era uma vez a democracia na América. Por que reler Tocqueville agora

Avatar do autor julmar, 30.11.25

Da Democracia da América - 1

"Aquilo que, emtodos os tempos, ancorou a liberdade no coração de alguns homens foi o seu encanto próprio, independentemente dos seus benefícios: foi o prazer de poder falar, agir e respirar, sem constrangimentos, sob o único governo de Deus e das leis" A. Tocqueville

Num tempo em que a democracia enfrenta ameaças sérias — polarização extrema, erosão das instituições, desinformação e crescente desconfiança entre cidadãos — Da Democracia na América revela-se surpreendentemente atual.

Tocqueville alertou para riscos que hoje ganham nova força: a tirania da maioria, a apatia cívica, a tentação de um Estado que controla em nome da proteção, e o perigo de sacrificarmos liberdades em troca de segurança ou conforto.

Revisitar este clássico é uma forma de recuperar lucidez num momento de incerteza. Tocqueville ajuda-nos a reconhecer os sinais de alerta e a recordar que a democracia só sobrevive quando os cidadãos a defendem ativamente

Uma Aldeia no Terceiro Reich

Avatar do autor julmar, 15.11.25

Uma Aldeia no Terceiro Reich

Alguns  dos livros lidos nos últimos anos abordam a problemática do nazismo e do estalinismo as duas enormes hecatombes do século XX e que continuam a assombrar o presente. Este livro faz-nos um retrato de um ponto de vista diferente a partir de uma aldeia (que se foi tornando uma pequena cidade), a aldeia de Oberstdorf, nos Alpes Bávaros, onde durante séculos os moradores levaram vidas simples e afastadas dos grandes acontecimentos da história — até que o regime nazista invadiu também esse refúgio remoto. 

Através de arquivos pessoais, cartas, entrevistas e memórias, os autores revelam como a ascensão do fascismo transformou profundamente a comunidade local: o fanatismo, a lealdade, os conflitos, o medo e a compaixão passam a coexistir entre camponeses, religiosos, políticos, refugiados, crianças e oficiais nazis. 

A cada passo se mostra a natureza humana como algo profundamente ambíguo: capaz de bondade, coragem e solidariedade, mas também de passividade, autoengano e crueldade quando pressionada por medo, propaganda ou desejo de pertença.

Julia Boyd dá vida concreta às ideias de Hannah Arendt, mostrando como o mal pode crescer silenciosamente através de pequenas concessões, falta de reflexão e desejo de pertencer — não apenas através de fanáticos, mas sobretudo através de pessoas comuns.

É esta gente comum que passoa a passo cumprindo ordens constrói a banalidade do mal onde a ausência de conciência crítica é terra fértil para o conformismo e a responsabilidade pessoal se dilui nos hinos, nas marchas e nas bandeiras desfraldadas.

O Cérebro ideológico

Avatar do autor julmar, 10.11.25

Bertrand.pt - O Cérebro Ideológico

Haverá muitos critérios para considerar a leitura de um livro importante.  No meu caso, tal é mensurável pela influência que exerce em mim, na forma como me ajuda a clarificar  ideias, no modo como me ajuda a entender-me a mim e aos outros. Digo no modo como poderia dizer no método. O método, ou caminho, que o autor segue para descobrir, mostrar ou demonstrar as teses que defende. Isso exige esforço, trabalho, espírito científico que se traduz na apresentação do livro, verificável, pela quantidade de notas e pela bibliografia exposta na parte final. Não basta afirmar, é preciso provar e confirmar. Isso é ciência. O nosso cérebro, preguiçoso como é, adora certezas, gosta de vadiar por caminhos fáceis e já trilhados e prefere companheiros pacíficos e obededientes. Acima de tudo, encanta-se com histórias e se, desde cedo, encontrar uma repetida por muitos poderá viver nela o tempo todo. O cérebro não cuida do que é verdadeiro mas do que é cómodo e conforme. Daí que lhe sejam simpáticas,
"as ideologia regressivas que olham para trás nostalgicamente-procurando preservar ou restabelecer antigas hierarquias de poder, enraizadas em características de gênero, geografia, raça, classe ou casta - exercem controle sobre os seus seguidores com ameaça de violência ou de privação material ( que é outro tipo de violência.
E, porque o cérebro é preguiçoso,
 encontrará maneiras de dividir as pessoas em binaridades de bem e de mal, sem nada entre elas ou além delas." pg91
O cérebro é faminto dessa droga mágica que dá pelo nome de dopamina o que ajuda a compreender muito do nosso comportamento que tende  a perseverar nas histórias que na infância nos foram inculcadas. C. Darwin é um bom exemplo dessa luta entre o cientista que descobre um novo significado para a vida na terra e o crente que descobre o sem sentido da Bíblia e que a frase que a esposa de C. Darwin pediu para que não constasse na sua autobiografia, ilustra:
 Não devemos ignorar a probabilidade de a constante inculcação de uma crença em Deus nas mentes das crianças produzir um efeito tão forte e porventura herdado nos seus cérebros ainda não completamente desenvolvidos, que lhes seria tão difícil abandonar a sua crença em Deus, quanto para um macaco livrar-se do seu medo e ódio instintivos por uma cobra “ página 183
Diz-nos o autor que 
“Num estudo com mais de 700 págs, descobri que a flexibilidade cognitiva estava ligada à descrença religiosa “  (...)  e
“Para mim, são essas as pessoas mais interessantes: as que desafiaram as expectativas dos seus pais e conduziram a suas vidas numa direção diferente. Nos dados, descobri que aqueles que abandonaram a ideologia religiosa conseguiram as pontuações mais elevadas em flexibilidade. Em alguns testes de flexibilidade, os indivíduos que se havia tornado seculares até tinha uma vantagem sobre as pessoas que sempre haviam sido seculares. E as pessoas que se converteram a uma ideologia religiosa conseguiram em média as mais baixas pontuações de flexibilidade, sendo por vezes mais rígidas do que as pessoas que mantiveram uma ligação religiosa durante toda a vida.“ Página 190
E, no caminho socrático do "Conhece-te a ti mesmo", achei o livro fantástico pela oportunidade de avaliar a minha história de vida com uma luz diferente.
 
 
 

Montaigne é o meu padrinho, diz o Badameco

Avatar do autor julmar, 04.11.25

Ensaios - Antologia - 1
Michel Montaigne (1533-1592)

Se eu fosse sociólogo gastaria algum do meu tempo na observação de lugares recentes onde as gentes confluem por necessidade, por ócio, por prazer. De entre esses lugares, escolheria as “Fnac’s.  Agrada-me sobremaneira ver tanta gente interessada em livros. Da última vez, porque se comemorava o Dia Mundial do Livro, num gesto simpático, um funcionário entregava um opúsculo de Montaigne: Dos livros. Pequeno que é, li-o no mesmo dia. Tive a felicidade de nele encontrar uma citação que tinha anotada mas de que ignorava o autor: “A opinião que formulo serve igualmente para pôr em evidência os limites do meu discernimento e não os limites das coisas”, fórmula que antecipa em séculos o perspectivismo proposto por Nietzsche na construção do conhecimento e na procura da verdade. 
Igualmente, fiquei contente por encontrar em Montaigne uma metodologia que há muito sigo: “A minha memória é tão fraca que já me aconteceu mais que uma vez pegar de novo, como se fossem recentes e desconhecidos para mim, em livros que lera cuidadosamente uns anos antes e que rabiscara com as minhas notas. Para acudir a estas falhas, ganhei o hábito, desde algum tempo, de acrescentar no fim de cada livro a opinião que dele fiz em geral”, a data em que terminei a minha leitura e a opinião que dele fiz em geral para poder recuperar ao menos a maneira e a ideia geral que concebi do autor durante a minha leitura”.
Como se pode ler por muitas razões, Montaigne dá-nos as suas:
“Nos livros procuro apenas obter prazer num divertimento honesto; ou, se estudo, procuro apenas a ciência que trata do conhecimento de mim próprio e que me instrua no bem morrer e bem viver”.

Nota: Este post foi publicado no meu extinto blog Pitagórico que antecedeu o Badameco. Foi este hábito de tomar notas de acontecimentos, ideias e leituras,  partilhado com o filósofo M. Montaigne que inspirou o nome do blog Badameco (Vade mecum), uma espécie de agenda.

No gesto da procura

Avatar do autor julmar, 01.11.25

Zé Manel.JPG

Caro Zé Manel, costumo dizer que os meus amigos não morrem. Conhecemo-nos  há 50 anos quando tu davas aulas de Português na Escola Preparatória D. Afonso Anes de Cambra e eu dava aulas de História na Secção Liceal de Vale de Cambra e aulas de Português da Escola Técnica, no ano da Revolução do 25 de Abril. Era nesse ano, professor da tua irmã, a Maria José que viria a falecer, anos mais tarde, num acidente de viação quando, como professora se delocava para a escola. Desde esses anos  de Abril de  cravos e de sonhos, que não mais nos encontrámos. Foi com surpresa que soube da tua morte. 

Ias gostar de saber que te estou a escrever para te dizer que hoje ao desfazer-me de papéis antigos encontrei este opúsculo artesanal de poemas - de papel desmaiado e agrafos enferrujados  - sobre o amor, a flor e a liberdade -  dos teus alunos a quem inspiravas.  Li e gostei. 

Um dia encontrei uma velhinha. Pediu-me uma esmola e eu dei-lha. Ela agradeceu. Agarrei numa viola e comecei a tocar para ela. As andorinhas à nossa volta  faziam roda e também começaram a cantar porque sabiam o que era o amor.

Aluno - Luís Jorge Santos Pinho

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