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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

O retrato de Dorian Gray

Avatar do autor julmar, 24.09.25

O Retrato de Dorian Gray

(Post resgatado ao Pitagórico, publicado em fevereiro de 2004)

Este é um romance que me encheu a alma. A história gira à volta do personagem principal que á o nome à obra – Dorian Gray – um jovem de excepcional beleza que vive obcecado pela ideia de poder envelhecer. Por um fenómeno inexplicável o envelhecimento é transferido para um seu retrato pintado por um seu amigo Basil Hallward a quem acabaria por assassinar, quando este depois de lhe ter contado as coisas horríveis que acerca dele corriam, quis ver o retrato que Dorian escondera numa divisão onde só ele tinha acesso. Se Dorian é o personagem em que assenta toda a acção, todas as despesas da teoria, da dissertação sobre os mais diversos assuntos correm a cargo de Lord Henry. Penso que é nele que Óscar Wilde se autobiógrafa: a assumpção da estética como actividade suprema do homem, na sua concordância com a posição de Dostoevsky de que arte salvará o mundo. Se Wilde acreditasse que o mundo tem salvação. Lord Henry disserta acerca de tudo revelando um conhecimento extraordinário do comportamento dos homens (e das mulheres), de ciência, pintura, música, filosofia. Acima de tudo á apreciável a sua fina e permanente ironia que pressupõe sempre a consideração da vida como um jogo. E talvez não seja verdade que quem ganha no jogo perde no amor. A vida não está preocupada com esses equilíbrios. De resto o provérbio só pode ter sido inventado por um ressaibiado.

«O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que consegue traduzir de outro modo ou em novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, como a mais medíocre, forma de crítica é uma expressão autobiográfica.
Os que encontram significados disformes em coisas belas são os cultos. Para esses há esperança.
São os eleitos para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. É tudo.
A antipatia do século XIX pelo romantismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem é assunto para o artista, mas a moralidade da arte consiste na perfeita utilização de um meio imperfeito. Um artista não quer provar coisa alguma. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.
Um artista não tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Para o artista, o pensamento e a linguagem são instrumentos de uma arte.
Para o artista o vício e a virtude são matéria de uma arte.
Do ponto de vista formal, o modelo de todas as arte é a arte do músico. Do ponto de vista sentimental, o trabalho do actor é o modelo.
Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo.
Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas.
O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.
A diversidade de opinião sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo próprio.
Podemos perdoar um homem que faça uma coisa inútil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração.
Toda a arte é perfeitamente inútil»

Romance lido em Janeiro de 2004

O leão sem Zebra

Avatar do autor julmar, 21.09.25

Bertrand.pt - O Vício dos Livros II

Os textos de que mais gosto são aqueles que eu gostaria de ter escrito, aqueles em que me faltaram as palavras certas para expressar uma ideia, um conhecimento ou uma emoção que estava em mim. O texto “O leão sem zebra”, é um desses textos. Não lhe posso tirar ou acrescentar uma palavra que seja. Assim vo-lo sirvo, sem tirar nem pôr: 

“A descrição do mundo não se faz, evidentemente sem a presença do observador; no entanto, qualquer objeto de atenção também não pode ser descrito de forma autónoma. O seu contexto é indispensável, tal como o mundo interior daquele que observa constitui parte integrante do próprio ato descritivo. Antoine de Saint-Exupéry escreveu, em Lettres de jeunesse à l’amie inventée: ‘Dez testemunhas têm dez versões diferentes da mesma cena’ A percepção é sempre situada, marcada por uma multiplicidade de perspectivas, e a pretensa neutralidade da descrição é, na verdade, uma construção ilusória.

Neste sentido, o conhecimento não é apenas uma operação lógica de decomposição e análise dos elementos visíveis, mas um processo que envolve a sensibilidade, a memória e o olhar singular de quem observa. A tentativa de descrever um fenómeno sem considerar o contexto em que ele está inscrito - bem como a relação entre esse fenómeno e o sujeito que descreve - conduza uma forma empobrecida de representação.

Aimé Cesaire, num texto ‘Poésie et connaissance’, apresentado em 1941 no Congresso de filosofia de Port-au-Prince, propõe um modelo alternativo de conhecimento: aquele que se funda na visão poética. Este tipo de saber procura responder precisamente às omissões de abordagem científica, as zonas de sombra que ela não contempla nem interroga – ‘o conhecimento poético nasce do grande silêncio do conhecimento científico’. A descrição física do espaço, por mais rigorosa que seja, permanece, nas palavras de Cesaire, famélica, ou seja, privado de densidade efetiva, histórica e simbólica que torna um espaço habitável e significante.

Quando descrevo a minha casa de forma concisa, objetiva e despersonalizada, deixo inevitavelmente de parte algumas das suas dimensões mais essenciais. Estou a descrever uma casa, mas não estou a descrever um lar. As emoções que o lar convoca escapam a uma descrição factual. No entanto, é isso que constitui um lar: não só o espaço, mas a experiência que nele é vivida. Um lar não se reduz a espaço e tempo (como conceitos físicos), é lugar e história. A casa, enquanto entidade física, é perfeitamente apreensível. Arquitetura descreve-lhe a forma e a disposição; a engenharia, os materiais e as estruturas; a física, as forças que a sustentam, as temperaturas que nela se fazem sentir, a acústica dos seus corredores. A casa pode ser medida, esquadrinhada, modelada em software, reduzida a dados e projeções. O lar esquiva-se a essas descrições.

Ao despersonalizar a casa, estou a desabitá-la simbolicamente, a desumanizá-la. Torno-a um lugar genérico, qualquer casa. Mas o lar é sempre singular. É feito daquilo que não se vê: os hábitos, os afetos, o silêncio e os ruídos íntimos que eles repetem. Só as artes são capazes de descrever o lar, porque essa descrição é uma lacuna noutras áreas. A casa importa, mas é o lar que tem significado. No âmbito da literatura, a linguagem poética, a metáfora, as imagens tornam-se instrumentos de um conhecimento que não se limita a informar, mas que procura compreender - no sentido etimológico do termo: compreender, abarcar em conjunto o fenómeno e a sua ressonância interior.

Cesaire recorre, no texto mencionado, a uma passagem de Aldous Huxley, na qual se descreve um leão através dos seus atributos físicos – a juba, as garras, entre outros - para ilustrar o carácter incompleto dessa abordagem. O leão, adverte, só existe verdadeiramente se existem zebras e antílopes. Sem esse entorno ecológico, a união definha e desaparece. É de peluche. A frase de Cesaire é lapidar: ‘O conhecimento científico é um leão sem antílopes e sem zebras’. A imagem revela com precisão a insuficiência de um olhar que isola aquilo que só existe relação, e que reduzir o ser à sua dimensão funcional ou morfológica, ignorando o sistema de interdependências que o constitui. O que falta a qualquer descrição completa do mundo é poesia e, de modo genérico, a arte. “ Pg 76

 

O Escritor de Epitáfios

Avatar do autor julmar, 16.09.25

O Escritor de Epitáfios

Desta vez fui bem enganado. Eu que tenho um blog que alguém, com alguma razão, apelidou de obituário, encomendei o presente livro por pensar que o autor trataria, a sério ou a brincar, da perpetuação do legado dos defuntos. Porque na minha aldeia todas as pessoas são importantes e todas têm uma história que mereceria ser contada, sempre que os sinos tocam a sinal para anunciar (onde o som dos sinos chega) a morte de um conterrâneo, eu no blog faço chegar a notícia até aos confins da terra. Primeiro, era o sacristão (o ti Junça, o Daniel, o Alexandre e, por fim, o Chico), agora, que não há sacristão, é um mecanismo elétrico que coloca os sinos  a badalar ou mais exatamente a martelar. Não é a mesma coisa. Também eu um dia morrerei e ninguém mais saberá quem morreu, nem escreverá as breves linhas deo epitáfio do 'requiescat in pace'. Até já me passou pela cabeça escrever o epitáfio de todos os velhos da aldeia, incluindo o meu, e deixar encarregado alguém que na hora carregasse no botão: publicar. Dizem os entendidos que uma das primeiras manisfestações ou expressões de humanidade tem a ver com o culto dos mortos provado ao longo da história, desde monumentos gigantescos como as Pirâmides dos egípcios, à diversidade de artísticos túmulos e  panteões, aos túmulos  escavados nas rochas ou ás campas rasas do cemitério da minha aldeia. Pois, o meu blog é, assim, uma espécie de necrópole onde poderão ver a fotografia do ente querido e umas breves palavras que espelham o melhor da sua viagem terrena. Talvez, com o passar dos anos seja quanto fica, não lavrado em pedra mas numa matéria imaterial, perdoe-se o paradoxo. Concluindo, acho, pois, que é um trabalho valioso. Preservar a memória dos mortos. Com a vantagem de que nenhum deles reclamará.

Mas, afinal, por que fui bem enganado?

Porque, esperava uma coisa e saiu-me outra que está completamente dentro dos meus interesses: Andar. E li com gosto a descrição da viagem que o personagem principal faz : O Caminho de Santiago que sempre quis fazer, não fiz e agora não sei se ainda me atrevo. 

Como ensinamento devemos saber que no caminho de Santiago ou no caminho da vida todos transportamos uma mochila. Devemos saber o que transportar nela e o peso que carregamos. Saber o que é necessário, deitar a tralha fora.

Quando fizeres o Caminho nada lhe peças, mas aceita tudo o que ele tiver para te dar”