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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

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Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

SPQR - "Comam, bebam, sejam felizes, pois amanhã morrerão"

Avatar do autor julmar, 30.08.25

Livro SPQR MARY BEARD

Mesmo aqueles que nunca estudaram a cultura clássica, mesmo aqueles que nunca aprenderam a ler e a escrever, como muitos da minha aldeia, estavam impregnados nas suas vidas de muitos elementos da cultura romana, nomeadamente da língua, que lhes vinham, sobretudo, por via dos rituais religiosos e do respetivo calendário. A missa e outras celebrações eram feitas em latim. E, se é verdadeiro o provérbio, quem não sabe latim, fica assim, o certo é que recitavam em latim desde curtas jaculatórias, como Ora pro nobis, o Pater noster, o Gloria até ao extenso Credo. Ainda, há poucos anos, me associei no canto do sacratíssimo Tantum ergo Sacramentum estropiado na letra mas entoado em conformidade. Hoje achamos estranho como é possível que as pessoas rezassem sem entender o que diziam,  porém, isso só reforçava os mistérios em que assentava a fé. O cristianismo teve como  berço a cultura romana e aí cresceu, a partir de uma pequena seita de judeus, aprendeu a língua e se espalhou por mar e por terra pelas vias e pontes que os legionários e escravos romanos construiram. Com o chapéu protetor do Imperador Constantino, passará de perseguida a perseguidora e, na agonia do império, tornar-se-á o sua herdeira não apenas da lígua, mas da arquitetura, dos ofícios e vestes imperiais, da administração e das hierarquias. Sem império romano com vocação universal, não teria havido cristianismo com igual vocação. Onde chegou o Império chegou o Cristianismo. Aquele morreu, este continuou e chegou aos sítios mais pequenos e mais remotos. 

A minha aldeia é um desses lugares remotos e eu no século XXI fui trazido para a leitura deste livro pelo título do livro SPQR, pela recordação de infância do Guião, um enorme estandarte, com aquelas letras doiradas sobre um fundo roxo que seguia à frente da procissão de Quinta Feira Santa pelas ruas da aldeia no que se designava "Andar as Igrejas". Dizia-me, não lembro quem, que as letras queriam dizer "Salvai o Povo Que é Romano". Mais tarde aprendi latim, estudei cultura clássica e soube, então,  que havia no significado adaptado uma intenção salvívica. A traducão de "Senatus PopulusQue Romanus" é "O Senado e o Povo Romano" que é disso que o livro trata. Um excelente livro que mal aborda a problemática do cristianismo. Roma era um povo politeísta, onde se prestava culto a múltiplos deuses não só romanos não havendo qualquer ideia de impôr deuses ou da afirmação de que existe um único deus. A corte romana não era celestial e os romanos estavam muito ocupados com o prerente.Um conselho escrito numa casa de banho pública dizia

"Comam, bebam, sejam felizes, pois amanhã morrerão"

 

Ai Portugal Portugal de que é que estás à espera

Avatar do autor julmar, 16.08.25

Saí de Portugal no princípio de agosto e regressei a meio do mês. Um tempo sem notícias do meu país e do resto do mundo, também. Chegado ao aeroporto, de viagem para casa, começei ouvir as notícias sobre incêndios e verbalizei para os meus acompanhantes, ‘acho que o melhor é regressarmos ao aeroporto e embarcar de novo”, sem propósito de o fazer. Depois de almoço e descanso breves, rumei pela A25 até à aldeia que, ande por andar, sempre lá hei-de voltar. Muito fumo pelo caminho e cheiro a queimado. Estamos fartos, arquifartos de ouvir comentadores e políticos, ao longo dos anos, sobre o que pode e deve ser feito. Mas nada muda.
Então, que poderemos fazer, nós cidadãos, para além de mostrarmos a nossa indignação? Toda esta morte, no sentido literal, da vida da natureza e de vidas humanas, a destruição de recursos irreparáveis, não será o reflexo de uma indiferença instalada perante o horror que nos entra casa dentro pela televisão, constante e repetido até parecer normal? Não é isto a ‘ banalidade do mal’? Não é esta banalidade que a atitude do Governo e do Primeiro Ministro passam aos cidadãos?
Que país é este que, ano após ano, repete os mesmos erros, até se instalar a ideia de que isto é uma fatalidade com que temos de viver? Onde está o país de marinheiros que dobrou o Cabo das Tormentas? Onde está o país que instaurou a República? Onde está o país que fez o 25 de Abril? Nem de propósito, enquanto seguia olhando a paisagem ardida, na rádio soava a música "Portugal, Portual" de Jorge Palma