Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Socialismo burguês

Avatar do autor julmar, 29.04.25

A Seixas.JPG

"Somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros"
Orson Welles
O meu sogro morreu uma semana antes do Dr Mário Soares. Ambos morreram pouco tempo depois de completarem 92 anos de idade. Todos os portugueses sabem quem é Mário Soares mas muito poucos sabem quem é António Seixas. Por isso, Mário Soares esteve no hospital da Cruz Vermelha com uma equipa médica a tempo inteiro, nas melhores instalações e com todos os mais sofisticados meios, cuidando da saúde e bem estar. António Seixas estava num lar e a cada agravamento do estado de saúde era chamada a ambulância dos bombeiros que, obrigatoriamente, fazia escala no Centro de Saúde do Sabugal para, em seguida, ser transportado ao hospital da Guarda onde aguardava, por tempo indeterminado, deitado na maca, por atendimento. No hospital não havia lugar para internamento, por isso, is e voltava a vir repetidamente, até morrer. De uma das vezes, tremia tanto que a médica se apressou a diagnosticar-lhe Parkinson. Mas não, era apenas frio. Muito frio.
Muito se escreveu e muito se escreverá sobre Mário Soares, socialista, republicano e laico. Sobre António Seixas, sem etiquetas políticas ou religiosas, não se escreverá mais do que estas palavras que poucos lerão. Foram iguais no que a natureza se encarrega - no nascimento e na morte e os dois viveram uma longa vida - 92 anos. Um e outro cidadãos portugueses; um e outro obrigados a deixar o país: um para fugir à fome, outro para fugir à prisão. Os dois estiveram, na mesma época, em Paris. Um na Paris das elites, dos museus, dos jardins, das grandes avenidas ensinando na universidade, reunindo e conspirando; o outro no bidonville de Champigny, de ruas lamacentas e barracas feitas no descanso dos domingos, companheiro de um exército operário, construindo o conforto e o luxo dos outros.
Que tem a Paris de Mário Soares a ver com a Champigny de António Seixas? Que tem a ver um com o outro?
Um tem um sonho para todos os homens e para o seu país: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O outro tem um sonho de felicidade para si e para os seus que nunca os homens 'iluminados' enlamearam os sapatos nas ruelas de Champigny para lhes anunciar e explicar a tríade da Revolução Francesa que, além da liberdade e fraternidade, prometia a igualdade entre os homens.
E, claro, os homens doutos, iluminados têm uma interpretação tão complexa desse conceito que os homens do bidonville não teriam inteligência e formação suficiente para a entenderem.

Religião sem Deus, um pouco de filosofia

Avatar do autor julmar, 14.04.25

Bertrand.pt - Religião Sem Deus

“A religião é mais profunda que Deus. A crença em um deus é apenas uma possível manifestação ou consequência de uma visão mais profunda de mundo.”
— Ronald Dworkin, Religião sem Deus, p. 1

Neste instigante ensaio filosófico, Ronald Dworkin propõe uma visão provocadora: a de que é possível sustentar uma vida religiosa sem crença num deus pessoal ou sobrenatural. Em Religião sem Deus, o autor desafia a noção tradicional de religião, argumentando que muitos valores centrais da religiosidade — como o senso de reverência diante da vida, a busca por significado profundo e a crença em uma ordem objetiva de valor — podem existir independentemente da fé teísta.

A tese principal do livro é que a religião deve ser entendida não apenas como crença em Deus, mas como uma atitude perante o universo — uma convicção de que a vida tem um valor intrínseco e que o mundo contém mistérios que merecem respeito e contemplação, mesmo sem uma divindade. Dworkin defende que essa visão religiosa secular pode ser compartilhada por ateus e agnósticos, e merece o mesmo reconhecimento e proteção jurídica que as religiões teístas.

Combinando filosofia moral, teologia e direito, Dworkin critica o cientificismo reducionista e abre espaço para uma espiritualidade baseada na ética, na estética e na responsabilidade humana. A sua reflexão convida o leitor a repensar o significado de religião no mundo contemporâneo.

 

Amin Maalouf, uma vez mais

Avatar do autor julmar, 05.04.25

Jardins.jpg

A leitura é uma fonte de inspiração, um diálogo constante com o autor, uma confrontação de pontos de vista. No caso de Amin Malouf é um amigo que já vem lá de trás de outras conversas de "Identidades assassinas" e " O Naufrágio das Civilizações". Nada é para sempre, todos os impérios caem e o império americano não é excepção. Faltava um homem como Trump para executor. Quanto maior a mudança, maior a dor. Nunca foi o fim da História porque tecnicamente impossível. Agora que o é, se não fora o caso de ser pouco católico, diria 'rezemos para que não aconteça'. O que for soará. Quem estuda história sabe como o cminho foi o que foi, mas nas suas encruzilhadas outros caminhos poderiam ter sido. E  a teoria da evolução aplicada à natureza, alheia às noções de bem e mal, também nos ajuda entender como chegámos ao mundo em que vivemos na sua forma cultural e civilizacional. 

No livro que nos traz aqui, um romance histórico que se situa no Império Sassânida no século III EC e que culmina e enfraquece em lutas contra o Imperio Romano. O personagem principal do romance é Mani (Maniqueu, de onde se forjou o termo maniqueísta, que de forma simplista representa os dois elementos em luta - o bem e o mal), que se tivesse continuado a ter a proteção do imperador Sapor e do seu filho, poderia ter tido o êxito que mais tarde, pouco tempo depois,  teve o Cristianismo com a conversão e proteção de Constantino, imperador romano. Mas Mani não fazia concessões dos princípios que o iluminavam: que não há Religião Verdadeira, que todas as religiões são verdadeiras e falsas, que podemos adorar vários deuses e que não se pode perseguir ninguém por pertença a raça, casta ou religião. E foi isso que o condenou à tortura e á morte.

«Sê Traidor ao Império, se tal for necessário, e rebelde aos decretos do céu, mas fiel a ti mesmo, a luz que há dentro de ti, parcela de sabedoria e da divindade.
 
No entanto, os ideais morrem por não terem sido a chincalhados; é pelos púdicos compromissos dos mestres, é pela traição dos discípulos que as doutrinas sobrevivem e prosperaram no meio do mundo e dos seus princípios. Cada religião terá tido a suas legiões. Menos a de Mani. Ter-se-á ele enganado na época? Terça já enganado no planeta?»
Página 218