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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Em memória do meu Pitagórico

Avatar do autor julmar, 28.02.21

O direito de sonhar - Gaston Bachelard

Hoje deu-me para revisitar o meu primeiro blog, O Pitagórico. Gostei de me passear por lá como quem passeia por um mundo que sentiu, interpretou e viveu e de reencontar personagens como o Amora da Silva, o Afonso Leonardo, O Luís Leonardo, o Borregana,  o Zé Vicente, amigos que  fiz e me fizeram. E, num louvor ao trabalho artesanal de Bachelard, acabei por descobrir a razão de virem a surgir no Badameco os meus estimáveis amigos Hortêncio e Julião.

(Postado no Pitagórico em 13deDezembro de 2004):

Creio que quem nunca trabalhou com as mãos nunca chegou a compreender o mundo, ou compreendê-lo-à de forma muito imperfeita. Ter a experiência de transformar uma matéria informe num produto é ter a experiência concreta da criação. Daí o encanto do trabalho do artesão.
«Tendo na mão uma matéria mole, pode-se parar de amassar. Diante de uma matéria dura é preciso continuar a agir. O sonhador da força não pode jamais se demitir. Esse rochedo que o homem ajeita fornece, desde o primeiro traço do gravador, a certeza de uma coragem que persiste. E a gravura diz tudo: o ferreiro que afia os utensílios, o empregado que carrega os fardos e a mulher que olha ... Sem um olhar de mulher, o que vale o esforço de um homem?»
In, O Direito de Sohar - Gaston Bachelard

 

VADE - MÉCUM, Badameco

Avatar do autor julmar, 17.02.21

VADE.jpg

Tenho para mim que as pessoas que admiramos são aquelas que de algum modo já viviam em nós. Lembro-me que desde muito cedo gostava de fazer registos, sinalizações. A escrita, provavelmente, nasceu dessa necessidade de registar quantidades, como no caso dos egípcios, ou histórias como no caso dos hebreus, ou das trocas comerciais como os fenícios. Por mim, habituei-me a fazer registos de ideias que me assaltavam, de momentos, de lugares. Penso que Montaigne já vivia em mim e é uma verdadeira alegria descobri-lo. Por isso, o meu Badameco visita o Vade-Mécum como um mestre a quem reverencia e admira. Questões de simpatia, similia similibus agregantur, ou simples leis da física?

 

 

Efeitos colaterais da pimenta

Avatar do autor julmar, 14.02.21

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Por vezes, dou comigo a pensar nos livros que li, uns por obrigação outros por escolha. Alguns sei onde estão e vou direto a eles, outros pela sua (in)utilidade, pelo seu volume, perco-lhes o lugar. Allegro ma non tropo é inesquecível e, pequeno que é, foi de uma assentada. O opúsculo é a prova provada de que matérias pesadas podem ser tratadas com leveza. Toda a realidade comporta uma face trágica e uma face cómica e, por tendência natural o espírito humano tende para a tragédia, sendo que o poder, e os delegados do poder, nomeadamente padres e professores, têm horror à comédia. Umberto Eco em O Nome da Rosa, conta-nos como isso é. Todos os ditadores detestam a ironia e, até, o humor, embora adorem a anedota - esse humorismo tosco, simplório e ordinário. Recomenda o autor que: "sempre que se apresente a ocasião de praticar o humorismo, é um dever social evitar que tal ocasião seja perdida." É assim este ensaio que, em parte, nos fala das cruzadas. 

"Quase todos os cruzados eram analfabrtos, mas conheciam os provérbios. Nasceu, assim, naquele contexto socio-cultural, a ideia do cinto de castidade: um após outro, os cruzados, antes de partirem, pensaram precaver-se contr brincadeiras de mau gosto, mandando encerrar a própria mulher no incómodo (para a mulher) mas seguro (para o marido) cinto de castidade. Foram tempos dourados para os ferreiros e a metalurgia europeia entrou em fase de expansão. Este foi apenas o primeiro de uma série de acontecimentos espectaculares".