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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Andar direito em dois pés é uma competência exclusivamente humana

Avatar do autor julmar, 31.12.20

O gráfico seguinte representa o meu "andar passo a passo" de 2020. De 13 km diários em Fevereiro e Março passa abruptamente para valores abaixo de 5km que se deveu ao menisco da perna direita que viria a ser operada em Julho, seguido de fisioterapia. Posteriormente surge mal estar na perna direita. Espero que tudo seja remediado no ano que vem e cumprir o objetivo de chegar à Cidade do Cabo, sem data prevista.

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Setembro 2016

ténis

Início de "Andar passo a passo 16 de janeiro de 2016

Em tempos, fiz uma pequena investigação e publiquei um opúsculo sobre as múltiplas expressões em torno da palavra andar, procurando aí alguma identidade do modo de ser português. Consulte um bom dicionário e ficará pasmado, no caso de ser dado a pasmos, com a quantidade de expressões, tendo, porém, a certeza de que lhe escaparão sempre algumas. Desde andar com o cu às fugas ao andar com o credo na boca com que poderíamos iniciar um discurso para falar do tenebroso tempo da Inquisição. 

A medicina clássica parece ter, recentemente, descoberto as vantagens de andar. A minha médica, excelente profissional,  em tempos que eu levava uma vida sentada, surpreendeu-me, terminando a consulta a receitar-me um par de sapatilhas e um conselho: Ponha-se a andar. Levei a sério a receita e o conselho e não parei de lhe dar cumprimento e estou mesmo em crer que não seria como sou se não me tornasse militantemente andante. Essa é também a experiência que nos conta o escritor japonês Haruki Murakami no seu livro Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo onde ele reflete sobre o que significa correr e como esse fato se refletiu na sua forma de escrever. É no ato de andar que a nossa alma, tantas vezes divorciada do corpo,  se encontra com ele e descobre as suas raízes biológicas e com isso entramos em comunhão com a natureza que nos gerou.   

Por isso, senão pode correr, ande; senão pode andar depressa, ande devagar. Mas ande. O nosso corpo foi feito para andar. A pior descoberta que o homem fez foi a de que se podia sentar e começou a usar o cu para aquilo que não foi feito, para estar sentado, que se podia fixar num sítio, que se podia sedentarizar. E descobriu a agricultura e com ela surge a acumulação a desigual distribuição de recursos, enfim, a dialética do senhor e do escravo. Os homens sedentários precisam de deuses ou, pelo menos de outros deuses.

A essência do homem é ser viajante (via+agere), fazer caminho. A vida é uma viagem. Viver a vida como deve ser é viajar. Por isso, não deve andar para chegar ali ou além, porque ali ou além não estará ninguém à sua espera. Estará você, os companheiros de viagem e as recordações da viagem. Subirá ao mais alto monte e verá, lentamente, o sol desaparecer no horizonte, pela última vez. Nesse momento final, tudo o que conta é a aceitação feliz de a viagem ter chegado ao fim. Pôs-se o sol, a escuridão desceu sobre a terra e não haverá amanhã.

É triste? Não. Triste é ontem não ter andado.

Dia de celebrar chegada a Berlim, passo a passo

julmar, 17.11.16

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 Quem anda por gosto, não cansa, diz o provérbio. Pode-se andar de infinitas maneiras e eu ando à minha. Iniciei a minha contagem no dia 14 de Janeiro e somei no dia de hoje, 17 de Novembro 2667,95Km. Cálculos feitos saí de Vila Nova de Gaia a 14 de Janeiro, atravessei Portugal, Espanha, França, Bélgica e, quase, toda a Alemanha, chegando hoje a Berlim, exatamente ao sítio onde se erguia o muro que durante a guerra fria dividiu a cidade de Berlim e a Europa. A próxima etapa será Varsóvia. 

Creio dever tudo isto ao pedido que o meu filho me fez quando hà 29 anos lhe perguntei qual era a prenda que desejava para os seis anos que ia fazer no dia 17 de Novembro. Como tinha aprendido na escola que era o dia do não fumador, disse-me que a prenda era eu deixar de fumar. Levei o pedido a sério e consegui o que em várias tentativas anteriores não conseguira. Creio qe não teria conseguido "chegar a Berlim" sem essa prenda que dei ao meu filho.

Por isso, hoje é um dia de celebrações: Dar os parabéns e agradecer ao meu filho, de parabenizar todos os que deixaram de fumar e a minha "chegada a Berlim".

Ano de 2016, passo a passo

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Passo a passo, chegada a Varsóvia

julmar, 24.12.16

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 Sempre os mesmos princípios: Devagar se vai ao longe, das coisas pequenas se fazem as grandes. Com vontade, com persistência. Letra a letra, palavra a palavra, página a página se escreve (ou lê) um livro. Tijolo a tijolo se faz uma casa. Passo a passo se faz uma viagem. Dia a dia se vive uma vida. 

Assim "cheguei" a Varsóvia (hoje, dia 24 de Dezembro de 2016, véspera de natal), percorridos que foram 3200 km. Próxima etapa - Minski, na Bielo-Rússia

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aí de minha casa, em Vila Nova de Gaia, no dia 14 de Janeiro de 2016, pelas 7,30 h. Cheguei hoje a Minsk, capital da Bielo Rússia, eram 15,30, hora de Portugal. Percorri 3749 km, passo a passo. 

Amanhã estarei a caminho de Smolensk, em direção a Moscovo. 

Minsk, capital da Bielorrússia, é uma cidade moderna dominada pela monumental arquitetura stalinista. Muitos de seus museus, teatros e outras atrações culturais linha Independence Avenue (Praspyekt Nyezalyezhnastsi), uma larga, 15 km de comprimento via que leva à vasta Praça da Independência. Ao longo desta icônica praça estão a enorme sede da KGB e a igreja neo-românica de São Simão e Helena, também conhecida como Igreja Vermelha, In Wiquipédia

Andar, andar até chegar à Rússia - Março 2017

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Cheguei a Smolensk,  cidade no oeste da Rússia , localizada às margens do rio Dniepre, próxima da fronteira com a Bielo Rússia. com uma população superior a 300 000 habitantes, dista de Moscovo 360 Km. Por aqui passaram, a pé como eu, os soldados de Napoleão e de Hitler que aqui defrontaram tropas russas.  Atualmente, Smolensk é uma cidade industrial, principalmente nos ramos eletrônico, têxtil e alimentício. Até 1939 a cidade pertenceu à Bielorrússia. 

Com alma para continuar, por Kaluga, em direção a Moscovo.

Vila Nova de Gaia Moscovo, passo a passo - 21-4-2017

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A Sombra do viajante - Agosto de 2017

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Todos os dias do ano faça chuva ou faça sol o caminhante faz a sua viagem. Moscovo ficou lá para norte e os olhos estão postos em Istambul. Passo a passo, é o segredo.

Ano de 2017, passo a passo

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Difícil não é fazer uma caminhada grande, de vez em quando. Difícil é fazer pequenas caminhadas todos os dias. É o que faço desde há dois  anos. 3705,98 km foi o total do ano que termina. Coragem é o que espero inventar em mim para o ano que aí vem.

Chegada a Istambul, passo a passo 4-12-2017

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Contar: Fazer contas, calcular, para construir um um conto sobre uma conta. Início de viagem: Vila Nova de Gaia,14 de janeiro de 2016. Sempre, quase sempre manhã cedo, muitas vezes antes do nascer do sol, com frio, geada, neve e sol. Todo o tempo é bom para andar. Chegada a Istambul, passados 688 dias, percorrida uma distância de 6728 Km, com uma média diária de 9,8 km diários, a uma velocidade média de 5km hora, totalizando 1345 horas. E porque toda a rota que subiu até Moscovo e desceu até Istambul foi feita passo a passo, quantos passos foram precisos? 

9 985 768 - nove milhões novecentos e oitenta e cinco setecentos e sessenta e oito. 

Tudo registado pelo meu inseparável companheiro - o iphone.

Esta é a conta, o conto virá depois.

Passo a passo até Erevan 1-6-2018

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De Istambul, percorrendo (mais exatamente, perandando) a costa onde a Turquia se banha no Mar Negro, a caminho de Erevan, capital da Arménia. Uma rota de 1710 km que se há-de concluir neste mês de Junho.

Chegada a Teerão, passo a passo - 24-9-2018

A passo e passo cheguei a Teerão, manhã cedo, no dia 24 de setembro de 2018, após ter percorrido 9550 Km. Tão grande (e grandiosa) a achei que a passei ao lado e, agora, me começa a ficar cada vez mais atrás. Não virarei uma única vez a cabeça e seguirei em direção a Cabul.  

Outubro, passo a passo - a persistência

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Mais espaço percorrido em menos tempo=a maior velocidade. Quando chegarei a Katmandu?

Passo a passo pelo Afeganistão - Outubro de 2018

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o Irão para o Afeganistão, a caminho de Cabul. Sempre, passo a passo, mesmo quando o passo se torna mais acelerado a fórmula continua inalterada V=E/T

Passo a passo, objectos da minha vida, 3-11-2018

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Três pares de sapatilhas especiais: Cada um deles cumpriu a sua missão fazendo cerca de 3500 Kms. Amanhã e depois e sempre continua a viagem. Sempre a contar.

Andar 2018, passo a passo - 31-12-2018

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Por vezes, é preciso enfrentar as adversidades do tempo. Hoje, último dia do ano,  geada pesada, dois graus negativos

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Hoje, último dia do ano, é dia de prestar contas. 365 dias que foram 365 jornadas de 10 Km cada uma. Um ano começado em Istambul, percorrendo toda a coata turca do Mar Negro, atravessando a Arménia e o Irão, agora próximo de Cabul, no Afganistão, a caminho de Islamabad. Que não falte a coragem para chegar ao, ainda longínquo sopé do Tibete

Pela Ásia fora, passo a passo -28-12-2018

De Istambul , na Turquia, a Herat, no Afeganistão, separados no tempo, por um ano, e na distância de 3633Km. Feito passo a passo, 10km por dia.  O lugar mais longe onde podemos chegar talvez esteja dentro de nós. Razão acrescida para andar, passo a passo.

Memórias de um Viandante, 7-1-2019

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alquer outra forma, eu não o consigo fazer senão, e com dificuldade, pela escrita.
Assim, o que escrevo não tem pretensão maior do que conhecer melhor estas terras na sua configuração natural, na compreensão do esforço multissecular de gerações na humanização da paisagem e na construção de um património cultural que nos deu a identidade que nos tornou aquilo que somos. Escrevo para aprender; não escrevo para dizer como as coisas são, mas, tão só, como eu as vejo. Se torno público, estas divagações, é só por considerar que outros, vendo como eu olho, tenham a oportunidade de olhar de modo diferente. Como dizia A. Gedeão no poema Impressão Digital:
Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros, com outros olhos,
Não veem escolhos nenhuns.
E lá fui eu, qual D. Quixote sem escudeiro, caminho fora, passo a passo na redescoberta das terras do Côa, da margem esquerda e da margem direita, subindo e descendo montes, atravessando rios, olhando horizontes que se perdem por Espanha, pela serra da Estrela, por Malcata

Por Terras do Sabugal, passo a passo – Memórias de um Viandante

A Chegar a Cabul, passo a passo - 28-2-19

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A chegar a Cabul lá para meados de Março. Tudo a correr sobre rodas (quer dizer a andar sobre pernas). Persistência, consistência, resistência... e CORAGEM.

Chegada a Cabul, passo a passo - 8-3-2019

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Partida de Vila Nova de Gaia em 16 de Janeiro de 2016, chegada a Cabul em 8 de Março de 2019, tendo andado, passo a passo, 11337 Km (onze mil trezentos e trinta e sete quilómetros). Sem férias, sem feriados, sem descanso ao sétimo dia. A partir de amanhã, a caminho de Islamabad.

Andar, passo a passo. Solvitur ambulando

julmar, 12.03.19
Diogenes.jpgUma das maiores controvérsias entre os filósofos gregos, que continuou depois deles e continuará, foi o problema do movimento. De forma racional, Parménides e os seus discípulos procuravam demonstrar a inexistência de movimento. O excêntrico Diógenes, ( o tal que se passeava pelas ruas durante o dia de candeia acesa à procura de um Homem e que dormia dentro de uma pipa), respondeu:solvitur ambulando (isso resolve-se caminhando).

Filosofias à parte ( como se fosse possível), as más disposições têm no movimento o seu principal remédio. Não é por acaso que, por bem ou por mal, o professor manda o aluno, em diferentes tons de vós e em diversas formas de enunciação, para fora da aula. Quando alguém está a ficar morcão, a sair fora de si, a incomodar ou a incomodar-se, ou não está a dar carreira direita no que faz, o melhor é, por si, ir dar uma volta, antes que alguém o mande à fava, a pintar macacos, abaixo de Braga ou a outros indesejáveis lugares. 

Por isso, desde há anos, segui o conselho da minha médica: Ponha-se a andar!

Andar, passo a passo. A caminho de Islamabad

julmar, 01.04.19
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"Caminhar -dar um passo de cada vez-pode ter a ver com amarmos a Terra, vermo-nos a nós próprios  e deixarmos o nosso corpo viajar à mesma velocidade da nossa alma."

In, A arte de caminhar - um passo de cada vez

Passo a passo até Lahore

julmar, 23.05.19
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12131Km, o equivalente a 18961412 passos, foi a distância que percorri desde Vila Nova de Gaia até ao distrito de Punjab (Paquistão), cuja capital é Lahore onde não sabemos o que mais admirar se os monumentos se a vida agitada e frenética da cidade

Andar, passo a passo. Ao encontro de Buda

julmar, 01.07.19
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Chegada à Índia, não numa caravela como Vasco da Gama mas nos meus pés andarilhos. Para trás ficaram, depois de cristão romanos, protestantes e ortodoxos, os adoradores de Alá - Turcos, arménios, iranianos, afegãos, paquistaneses. Agora, passo a passo chegarei ao Nirvana
 

Andar passo a passo, pela Índia fora

julmar, 01.08.19
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Coragem, persistência, humildade e uma crença firme no deus das pequenas coisas é o caminho que nos conduz onde quisermos. Este é o ensinamento principal do "Andar passo a passo". Saber para onde se vai. Dar o primeiro passo e depois um passo de cada vez, milhares, milhões de vezes.

Andar, passo a passo: Viagem além da Índia

julmar, 27.09.19
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Chegada a Katmandu

As contas que servem de base aos contos

A viagem começou em 16 de Janeiro  de 2016 e terminou hoje dia 27 de setembro de 2019, perfazendo um total de 1349 dias. Foram percorridos 13621 Km, o equivalente 18813419 passos  (dezoito milhões, oitocentos e treze mil, quatrocentos e dezanove) , num valor aproximado de 2724 horas (aceitando uma velocidade de 5km por hora) a partir de Vila Nova de Gaia. Passei por 16 países: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Polónia, Bielorrúsia, Rússia, Ucrânia, Roménia, Bulgária, Turquia, Arménia, Irão, Paquistão, Índia e Nepal. Foram utilizados seis pares de sapatilhas (o último ainda está para andar e durar). As rotas foram calculadas a partir do site: https://pt.distance.to/.

Os registos foram efetuados no iphone, na aplicação 'Saúde',

A média de Kms por dia foi: 2016 - 9km; 2017 - 10,1; 2018 - 10km; 2019 - 11,4 (até hoje)

Número de dias em que não saí para andar: 6, assim distribuídos: 2016 - 2; 2017 - 2; 2018 - 0; 2019 - 2

Andar passo a passo - Entrevista

julmar, 20.10.19
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P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?

R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.

E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,

para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.

Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/

P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?

 R. As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco https://badameco.blogs.sapo.pt/ (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.

Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.

P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?

A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.

Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.

Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.

P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?

Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami

P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.

R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

Andar, passo a passo:Partida de Alexandria

julmar, 22.10.19
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Biblioteca de Alexandria

Dia 28 de setembro de 2019, 6 horas. Partida de Alexandria, essa antiquíssima cidade, a cujo porto afluíam negociantes, filósofos, artistas, sacerdotes, matemáticos, conquistadores como se o seu farol - uma das sete maravilhas do mundo -  fosse o poderoso íman que a todos atraía. Era, à época, a maior cidade, o maior porto e com a maior biblioteca. Foi esta enorme cidade, fundada pelo maior conquistador da História, Alexandre o Grande que eu na minha pequenez, adorador do deus das pequenas coisas, tomei como ponto de partida para, passo a passo, calcorrear o imenso continente africano. Primeira etapa: Alexandria - Cairo

Até ao Cairo, passo a passo

julmar, 27.10.19
 
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É preciso chegar à África, chegar ao Egito, chegar ao Cairo para saber da grandeza das coisas Co mo foi possível ao homem construir estas pirâmides? Como todas as coisas grandes: pedra a pedra com um rio de suor da multidão imensa de escravos. Aqui pequeno, apenas eu ao constatar assombrado as pirâmides que, criança,via nos livros de História. E até o imenso deserto é feito areia a areiareia a areia

Põe-te Põe-te em movimento, anda! Abençoado seja todo aquele que caminha.

julmar, 15.15-11.19
 

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Sabendo que ia ter uns dias em que, por força maior, iria estar impedido de andar, passei pela FNAC (tenho muita saudade das velhas livrarias do Porto, mas os tempos são outros) e procurei um livro que, de outra forma, me transportasse para outros lugares. A escolha foi rápida: A imagem da capa, o título - sim, o título -, a autora, prémio nobel a literatura. 

Comecei  a ler e não é uma leitura fácil. Não são, propriamente contos e também não é um romance. É à medida que vamos lendo que nos deparamos com um puzlle e que nos compete a nós construí-lo. Para isso, temos de encontrar a cola que une as peças que encontramos no título original: BIEGUNI, que a tradutora em nota de rodapé explicita "Designa uma seita de antigos crentes ortododoxos que tratavam o movimento de maneira sagrada. Estar em constante movimento e atravessar fronteiras significava para eles não se apegar a nada e tentar fugir do mal que tenta privar-nos da liberdade". 

É também um retrato e uma crítica à nossa sociedade tão veloz e tão estática 

"Aquele que parar ficará petrificado; aquele que se detivera por um instante será alfinetado como o inseto, o seu coração será teres passado por uma agulha de madeira, as suas mãos e pés serão furados e pregados as ombreiras das portas.
Foi assim que morreu aquele que usou revoltar-se. Foi capturado e o seu corpo pregado na cruz, imobilizado como o de um inseto, para ser visto por olhos humanos e inumanos, mas principalmente por inumanos - os que mais se de leitam com estas cenas. Por isso, não é de estranhar que a reconstruam todos os anos e a celebrem, rezando a um corpo morto. E é também por isso que os tiranos de todas as espécies são servos infernais que transportam no sangue o ódio de morte aos povos nómadas. Daí as perseguições a judeus e ciganos. Daí que os homens livres sejam forçados a estabelecer-se e, depois marcados com uma morada que para nós é uma sentença. O que eles pretendem é estabelecer uma ordem sólida e tornar a passagem do tempo aparente, de modo a que os dias se tornem repetitivos e não se distingam uns dos outros. Querem construir uma grande máquina, na qual cada criatura terá de ocupar um determinado lugar executar movimentos, também eles aparentes - as instituições e os gabinetes, os carimbos e as circulares, a hierarquia e os cargos, as patentes, os requerimentos e os indiferimentos, os passaportes, os números, os cartões, resultados das eleições, as promoções e acumulação de pontos e a troca de umas coisas por outras.

Alfinetar o mundo com a ajuda de códigos de barras, colar um rótulo em todas as coisas para que se saiba que a mercadoria e é aquela e quanto custa. Que esta estranha língua seja incompreensível para as pessoas, que seja apenas lida por máquinas e autómatos e que estas façam recitais da sua poesia em códigos de barras, pela noites dentro, no interior das grandes lojas subterrâneas.

Põe-te em movimento, anda.! Abençoado seja todo aquele que caminha.

A reta é a mais curta distância para a morte

julmar, 18.11.19

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Nos bancos da escola aprendi que a linha reta é um conjunto infinito de pontos e que um segmento de reta é a mais curta distância entre dois pontos. Aprendi mais tarde que este era um dos postulados da Geometria de Euclides (viveu cerca de 300 anos a. C., em Alexandria), considerado o pai da Geometria que tal como a  Física de Aristóteles, é tão bela, tão falsa e tão útil no nosso quotidiano. Haveriam de surgir outras geometrias, no século XIX, - entre elas a geometia hiperbólica (Lobachevsky) e a geometria elíptica (Riemann) - de mais difícil entendimento por se encontrarem ausentes do mundo como naturalmente o vemos.

Ainda que o quisesse, nas minhas caminhadas não poderia caminhar em reta. Quando caminho da cidade do Cairo à cidade de Luxor, o meu calculador de distâncias dá-me sempre dois valores: Distância 504,29 km; Rota - 642,62km. Em rigor, se quisesse caminhar em linha reta de uma cidade à outra, teria de entrar pela terra dentro como uma toupeira, dado que, como hoje sabemos a terra é esférica - que os terraplanistas, cujo número dizem  estar a crescer consideravelmente, me perdoem. 

Quem na vida anda sempre na mesma direção, deverá aprender menos, viver menos do que aquele que não dá carreira direita, que se engana, que vai por aqui e por ali, que vai para a frente e volta para trás, que se perde. Talvez que a linha que une o nascimento à morte não sela uma reta mas um emaranhado de linhas curvas. Desde a infância em que rodava o arco  que prefiro as curvas.

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"... todas as minhas camnhdas foram diferentes, mas, olhando para trás, todas têm um denominador comum: o silêncio interior. A caminhada e o silêncio estão interligadas. O silêncio é tão abstrato quanto o caminhar é concreto"

Na margem do Nilo

julmar, 19.11.19
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Será possível encontrarmo-nos connosco? Pois é. Passados 10 anos, venho encontrar-me na margem do Nilo com este turista de t-shirt azul, óculos de sol e máquina fotográfica a tiracolo que ficou surpreso por me encontrar, atirou-me que estava mais velho. Perguntou-me para onde ia e eu que ia ao encontro da nascente do Nilo e ele que ia até à foz do Nilo. Em sentido oposto, ele turista de cruzeiro, eu pedantibus.

Pergunta-me quando  voltaremos a encontrar-nos. Talvez daqui a 10 anos na nossa casa da vila, respondi-lhe.

Andar passo a passo, com paragem obrigatória

julmar, 30.11.19
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Não há ventos que não pretem
Nem marés que não convenham
Nem forças que me molestem
Poderes que me detenham
Há muitos anos, tomei de empréstimo de António Gedeão, meu querido mestre, para meu lema de vida, esta estrofe do seu poema, "Fala do homem nascido". E dou-lhe cumprimento cada dia. Dia 11, como se vê no gráfico, não aconteceu. Afinal, os buracos existem, o não ser espreita-nos permanentemente.

Vale dos Reis, Luxor

julmar, 05.12.19
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Afinal é mesmo possível encontrarmo-nos connosco passados dez anos. Estava sentado e sentado ficou como se tudo fosse normal. Que tinha vindo ao Egito, que estava ali em Luxor embasbacado com a grandeza de tal civilização e, que Nilo abaixo ia até à sua foz. E eu lhe disse que, em  sentido contrário, ia Nilo acima até onde fosse a sua nascente. E como vais? Vou a pé, passo a passo. És maluco? Tanto comos reis que estão sepultados neste vale, o Vale dos Reis. Quando nos encontraremos? Talvez daqui a dez anos na casa da Vila.

Andar, passo a passo no ano de 2019

julmar, 31.12.19
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Total de Km percorridos - 4163,16

Média diária - 11,5

Tempo gasto (cálculo 5Km/hora) - 832 horas

Dias sem andar - 1

Andar, ler e escrever

julmar, 06.01.20

Dizia Thoreau que é necessário que passemos tanto tempo a andar como a ler ou escrever. Eu terei que passar a dizer-me: é mecessário que passe tanto tempo a ler e a escrever como a andar. Sobretudo escrever.

Cada manhã era um aliciante convite para tornar a vida igualmente simples e, digo até, inocente como a própria Natureza. Tenho sido, como osgregos, sincero adorador da Aurora. Levantava-me cedinho e tomavabanho no lago; uma espécie de exercício religioso e uma das melhorescoisas que já fiz. Contam que na banheira do rei Tching-thang haviamensagens gravadas com esse objetivo:
renova-te completamente acada dia; renova-te outra vez, e outra vez, e sempre outra vez.
Entendoa mensagem. A manhã me traz de volta os tempos heroicos. Tocava-metanto o zumbido tonto de um mosquito em passeio invisível e inima-ginável através de meu aposento ao amanhecer, quando me sentavade porta e janelas abertas, quanto me tocaria qualquer trombeta cele-brando a fama. Era o réquiem de Homero, em si mesmo uma Ilíada eOdisseia em pleno ar, cantando as próprias iras e viagens. Havia algode cósmico nisso tudo; um anúncio constante, até que o proíbam, dovigor e fecundidade perenes do mundo. Pouco se pode esperar do dia,se a isto se pode chamar de dia, para o qual não fomos acordados pornosso espírito, e sim pelas cutucadas mecânicas de um criado, para oqual não fomos acordados por nossas próprias forças recém-adquiridase aspirações íntimas, acompanhadas de ondulações de música celestialem vez de sirenes de fábricas.

 

"Early one morning, any morning, we can set out, with the least
possible baggage, and discover the world."

Thomas A. Clark

Dizia Thoreau que é necessário que passemos tanto tempo a andar como a ler ou escrever. Eu terei que passar a dizer-me: é mecessário que passe tanto tempo a ler e a escrever como a andar. Sobretudo escrever.

Ver nascer a noite, ver nascer o dia

julmar, 11.01.20

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A experiência mais comum das pessoas é verem morrer o dia e nascer a noite e os artistas, escritores e pintores, não poupam tintas nem palavras para realçarem a beleza de um crepúsculo na serra ou no mar. O nascer e o morrer, o amanhecer e o anoitecer têm muito de comum. No meu andar passo a passo, todos os dias sou testemunha da transição da noite para o dia. Hoje, por exemplo, um firmamento cheio de estrelas, a que uma lua cheia retirava o brilho, foi-se desfazendo com o clarear do dia. Amanheceres diferentes: manhãs de nevoeiro, manhãs de chuva, manhãs de geada, manhãs claras. Todas com uma beleza diferente. E as manhãs da África profunda, as manhãs sucessivas, cada uma delas a aproximar-me de Kartum, como serão?

Marcher, une philosophie

julmar, 27.01.20
 

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Andar passo a passo, cada vez mais perdido em África

julmar, 03.02.20

Pela margem esquerda do Nilo, percorrido todo o Egipto. Agora, meio perdido no Sudão, a caminho de Kartum onde chegarei pelos inícios da Primavera, mantendo o ritmo de janeiro

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Andar passo a passo, In Praise of Walking

julmar, 12.02.20
 
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Early one morning, any morning, we can set out, with the least
possible baggage, and discover the world.

It is quite possible to refuse all the coercion, violence, property,
triviality, to simply walk away.

That something exists outside ourselves and our preoccupations,
so near, so readily available, is our greatest blessing.

Walking is the human way of getting about.

Always, everywhere, people have walked, veining the earth with 
paths, visible and invisible, symmetrical and meandering.

There are walks in which we tread in the footsteps of others,
walks on which we strike out entirely for ourselves.

A journey implies a destination, so many miles to be consumed,
while a walk is its own measure, complete at every point along
the way.

There are things we will never see, unless we walk to them.

Walking is a mobile form of waiting.

What I take with me, what I leave behind, are of less importance
than what I discover along the way.

To be completely lost is a good thing on a walk.

The most distant places seem most accessible once one is on 
the road.

Convictions, directions, opinions, are of less importance than 
sensible shoes.

In the course of a walk, we usually find out something about our
companion, and this is true even when we travel alone.

When I spend a day talking I feel exhausted, when I spend it 
walking I am pleasantly tired.

The pace of the walk will determine the number and variety of 
things to be encountered, from the broad outlines of a mountain 
range to a tit’s nest among the lichen, and the quality of attention 
that will be brought to bear upon them.

A rock outcrop, a hedge, a fallen tree, anything that turns us out
of our way, is an excellent thing on a walk. 

Wrong turnings, doubling back, pauses and digressions, all contribute
to the dislocation of a persistent self-interest.

Everything we meet is equally important or unimportant.

The most lonely places are the most lovely.

Walking is egalitarian and democratic; we do not become experts
at walking and one side of the road is as good as another.

Walking is not so much romantic as reasonable.

The line of a walk is articulate in itself, a kind of statement.

Pools, walls, solitary trees, are natural halting places.

We lose the flavour of walking if it becomes too rare or too
extraordinary, if it turns into an expedition; rather it should be
quite ordinary, unexceptional, just what we do.

By Thomas A. Clark

Andar passo a passo, à espera que chegue

julmar, 12.02.20
In Praise of Walking
Walking upright on two feet is a uniquely human skill. It defines us as a species. It enabled us to walk out of Africa and to spread as far as Alaska and Australia. It freed our hands and freed our minds. We put one foot in front of the other without thinking – yet how many of us know how we do that, or appreciate the advantages it gives us? In this hymn to walking, neuroscientist Shane O’Mara invites us to marvel at the benefits it confers on our bodies and minds. In Praise of Walking celebrates this miraculous ability. Incredibly, it is a skill that has its evolutionary origins millions of years ago, under the sea. And the latest research is only now revealing how the brain and nervous system performs the mechanical magic of balancing, navigating a crowded city, or running our inner GPS system. Walking is good for our muscles and posture; it helps to protect and repair organs, and can slow or turn back the ageing of our brains. With our minds in motion we think more creatively, our mood improves and stress levels fall. Walking together to achieve a shared purpose is also a social glue that has contributed to our survival as a species. As our lives become increasingly sedentary, we risk all this. We must start walking again, whether it’s up a mountain, down to the park, or simply to school and work. We, and our societies, will be better for it.

Qual o tamanho real de África?

julmar, 02.03.20
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A grande viagem

julmar, 22.03.20
 
Wook.pt - A Primeira Viagem em Redor do Mundo
Mais, muito mais difícil do que a viagem à Lua! Mais demorada, mais incerta, maior imprevisibilidade, maior risco. E, claro, muito mais difícil que a minha viagem passo a passo.
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Andar, passo a passo. Chegada a Kartum

julmar, 31.03.20
Subi, a passo e passo, nas margens do Nilo, de Alexandria até Kartum. Uma distância de 2241Km. Continuarei, com o Nilo Branco como companheiro, até ao Lago Vitória. Difícil
 
 

Andar passo a passo, a caminho de Juba

julmar, 12.04.20
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Média de 12km/dia desde há 365 dias!!! Quatro mil trezentos e oitenta kms desde o dia 12 de Abril de 2019!! Quanta humildade, quanta persistência, quanta coragem são precisos! O caminhante nunca está em competição com ninguém, a sua marcha é anónima e silenciosa, recomeça cada dia. E triste é amanhã não ter andado.

Andar passo a passo, mais devagar

julmar, 25.10.20
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Desde Abril que não abria a aplicação 'Saúde' do Ipone que conta o andar dos passos.  Ainda não tinha tido coragem para o fazer. Ao olhar o gráfico, qualquer um diria que a causa foi o Covid 19. Eu sei que ele tem as costas largas e que passou a ser o Grande Bode Expiatório para todas as coisas ruins que acontecem. Acontece que no meu trajeto planeado de Alexandria à Cidade do Cabo, acompanhando as margens do rio Nilo, à medida que me aproximava de Kartum (Sudão), o joelho direito começava  a alertar-me com uma dor suave que se foi agudizando, que algo se passava. Passada a cidade, a dor foi crescendo e tive que parar num sítio onde Cristo não tinha passado e por onde, por agora, se passeia a sombra de Maomé. Agora, sim, entra o Covid: feita consulta médica e receitados exames ao joelho não havia nos hospitais agendamento para os realizar, pelo que só em finais de Julho fui operado ao menisco. Estou a terminar a fisioterapia e como se vê pelo gráfico há uma escala ascendente. Não vai chegar aos tempos doirados de 2019 com média diária de 12Km, mas vai chegar para cumprir o projeto de chegar à Cidade do Cabo, crendo no provérbio que 'DEVAGAR, SE VAI AO LONGE', passo a passo.
 
 
 

 

 

Leituras - Fim de ano, época de fazer balanços do balancé da vida

Avatar do autor julmar, 31.12.20

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Um parte importante do tempo que o ano tem é gasto em leituras, tempo de diálogo com pessoas que passaram muito tempo a investigar, pesquisar, imaginar, a encher páginas e páginas para nos transmitirem o melhor do seu saber. Obrigado a todos eles e um bom ano 2021para os que ainda vivem que são quase todos.
Há anos li um excelente livro de Jacques Monod intitulado "O Acaso e a Necessidade, ensaio sobre a filosofia natural da biologia" cuja importância se atesta pelo fato de após tantos anos eu o estar aqui a mencionar. No mundo da ciência como na vida o acaso e a necessidade continuam a presidir. Envelhecemos e nada podemos fazer quanto a isso. Porém, não envelhecemos todos da mesma maneira e, de algum modo, o importante mesmo é essa parte que nos cabe a nós. Há coisas que nos acontecem, que caem sobre nós e não há como evitar. O importante, então, é a maneira como lidamos com isso. Muitas vezes o problema está na maneira como olhamos para ele. A questão não é se o copo está meio cheio ou meio vazio mas o que pretendemos fazer com ele. Talvez esta reflexão resulte de dois livros extraordinários - O Iluminismo Agora e A Invenção do Passado - não fosse o caso de ter lido também O Infinito num Junco que destaco como o livro do ano. De resto, boas leituras das quais fui dando conta em posts anteriores. 
Livros
1 - Marcher, une Philosophie - Gros, Frédéric
2 - A grande viagem em redor do mundo - Pigafetta, António
3 - It’s not how good you are, it’s how good you want to be -Arden, Paul
4- O que fazer dos estúpidos, e como deixar de ser um deles - Rovere, Maxime
5 - O Naufrágio das Civilizações- Maalouf, Amin
6 - Decadência - O declínio do Ocidente- Onfray, Michel
7 - Este Vírus que nos enlouquece- Lévy, Bernard Henry
8 - Contos I - Tchékhov
9 - A resistência íntima, ensaio de uma filosofia da proximidade - Esquírola, Josep Maria
10 - O Tempo, esse grande escultor- Yourcemar, Marguerite
11- Esquerda e direita, guia histórico para o século XXI
12 - A fundação do universalismo, S Paulo
Badiou, Alain
13 - Trump - Badiou, Alain
14 - A Europa á deriva - Zizek, Slavo
15 - O Bode Expiatório- Girard, René
16- O Iluminismo Agora - Pinker, Steven
17- O infinito num junco - Vallejo, Irene
18- A Invenção do Passado - Ansary, Tamin

2020 - O que fazemos com o que nos acontece

Avatar do autor julmar, 22.12.20

Parte- I A grande história

O mundo funciona independente da nossa vontade e é presunção a mais pensar que o podemos mudar, por magia, por imploração a um deus mesmo escrito com maiúscula. A natureza indiferente segue o seu curso e dá-me tranquilidade que assim seja. Acabei de ler o livro A Invenção do Passado de Tamin Ansary, um escritor afegão radicado nos Estados Unidos e enche-me de orgulho participar na aventura da grande caminhada da raça humana neste ano de 2020 dC.
E, enfim, se hoje estamos descontentes como a maneira como hoje nos tratamos uns aos outros seria bom lermos o referido livro. É um pouco como sair de nossa casa, do apertado círculo social e cultural, do pequeno tempo onde estamos imersos, subir à montanha mais alta e vermos todo o caminho percorrido; ou como estamos no natal - as celebrações fazem parte daquilo que nos fez humanos- ofereça a si próprio este livro e mande-o embrulhar num papel bonito com um laço- a procura do belo faz parte de nós-, abra o livro e comece a ler. Lembre-se que o livro está já a falar de si, você já estava lá. Pronto e agora vá percorrendo o caminho que o trouxe até ao dia 22 de Dezembro de 2020 ( raio! Enganei-me a digitar e escrevi 2050)
Então, venha uma taça de champanhe!
 
Parte - II A Pequena história
 
Foi tão cheio este ano! De coisas boas e outras que nem por isso. Tão cheio que tive de contratar o Hortênsio que tratou do jardim, como nunca soube fazer, mudando a relva tão velha como a casa que fiz há 50 anos; que talhou uma pequena horta donde, em fartura, me encheu de alface, tomate, pimento, beterraba, espinafres, chuchu e outros mimos.
Também tive de contratar o Julião que, conhecedor das artes da construção, remodelou por completo o apartamento Imperador orientando a remodelação de duas casas de banho e envernizamento do soalho, e repintou todas as paredes e tetos, fez arranjos gerais e fez toda a limpeza.
Por vezes, este Julião parece ler- me o pensamento: Achei que antes de entrar nos 70 que haverão de começar no primeiro dia do ano, a casa one vivo devia ser reorganizada e que para ficar como nova ( por dentro), além de pequenos arranjos - eletricidade, iluminação, torneiras...), era preciso repintar todos os tetos e paredes. Chegados a outubro, diz- me o Julião, olhe que se quer fazer isso tudo antes do fim do ano, tenho que começar já. E lá tive que (com bons modos, é preciso ter jeito para lidar com ele) suportar a desarrumação necessária nestas lides. Em janeiro, disse-me: - olhe que a sua senhora começa a ter dificuldade em entrar na banheira e o senhor também vai ter e o melhor é trocar por um Poliban. E tinha razão, é outra coisa. Não fossem estes dois amigos, Hortênsio e Julião, e o ano 2020 pouco teria para ser lembrado. E não precisam de ter inveja de eu ter amigos assim, porque não são fáceis de aturar e pensam que não tenho mais com que me ocupar.
Felizmente, outros amigos, sem jeito para trabalho manual - Amora da Silva, Afonso Leonardo - não amuaram por eu me ter colado tanto à materialidade da vida.
Porque o que importa não é o que acontece mas o que você faz com isso.
Ora, venha lá mais uma taça!
 
Parte - III - História esquecida
 
Quando se inteirar do que aconteceu às populações do chamado Novo Mundo após a chegada de Colombo você vai ficar mais tranquilo com o que se está a passar no mundo devido à pandemia.
Se você continua à espera que a coisa passe, à espera que lhe saia o Totoloto, que alguém lhe dê boleia, e a queixar-se por o mundo ser como é, não beba uma taça, beba pela garrafa até à última gota. Amanhã, o sol voltará a nascer! Dionísio enquanto Apolo dorme a sesta.
 

Renovação do ambiente de Trabalho

Avatar do autor julmar, 15.12.20

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Pedi ao meu amigo Julião que me pintasse  a casa. Quando chegou ao escritório/biblioteca, disse-me, alto aí! O senhor trate de me tirar toda essa livralhada. Quase me deu vontade de desistir e teria desistido  se não fossem os meus livros e não tivesse por eles um carinho especial. Conheço-os todos por dentro e por fora. Ora, se eu já os tinha lido linha a linha, folheado págiana a página, porque não pegaria neles ao molho e os retiraria do lugar. Ontem e hoje foi o tempo de um a um os recolocar ordenadamente nas prateleiras de acordo com a temática: Filosofia e Psicologia, a maior parte; Antropologia e Sociologia; Literatura em prosa e verso (sem ser louco intento); Linguística e Teroria da Literatura; História e histórias; livros de artes; livros inqualificáveis; livros de bricolage e jardinagem; livros impensáveis como um - o Minhocário - cujas consequências se arrastam desde há 25 anos; livros de culinária; livros de música, incluindo a gregoriana; hagiografias e biografias; compêndios, manuais e algumas sebentas que resistiram à minha fúria destruidora do saber compilado. 

A minha última leitura, O Infinito num junco, tornou-me ainda mais um amador de livros, aida que não esqueça a pergunta de Almada Negreiros «E de que serve o livro e a ciência, se a experiência da vida é que faz compreender o livro e a ciência»?

E o amigo Julião, meio desconfiado, atirou-me a pergunta: Olhe lá, você já leu esses livros todos?

Eu, sem mentir, respondi-lhe, alguns mais do que uma vez.

Nós e a Europa ou Nós ribacudanos e Portugal

Avatar do autor julmar, 06.12.20

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Estive em agosto, no ano da morte de Eduardo Lourenço, em S. Pedro do Rio Seco, berço do escritor, uma aldeia fronteiriça, 5 Km a norte de Vilar Formoso, num percurso pelas pelas aldeias da histórica região de Ribacôa de que tive primeiro conhecimento através do boletim paroquial “Terras de Ribacôa”, publicado nos anos 50 e 60 do século passado. Vilar Maior, donde sou natural, pertencia a essa região que, à época, tinha uma forte densidade populacional e, embora, economias de subsistência, alimentavam as cidades com géneros alimentares e os exércitos e forças de segurança com mancebos para quem o alistamento era a quase única porta para o mundo. Foi por aqui que a porta se abriu ao pai do Eduardo que o pôde colocar a estudar no Colégio Militar. Havia uma segunda porta que era “ir para o seminário “, a porta que a mim me trouxe até aqui, à escrita deste pequeno texto que não é o Nós e a Europa mas o Nós ribacudanos e Portugal. Lembro-me de ter lido, há anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que afirmava que se não tivesse saído de Portugal nunca teria escrito o que escreveu por causa do clima. Não se referia, claro, ao clima natural mas ao clima cultural. Há, por vezes, uma tendência natural em considerar o homem como um fruto das circunstâncias, um determinismo sociológico que nos desresponsabiliza do que somos. O SE é o grande álibi para tudo quanto não fizémos, para tudo o que não dissemos, para tudo o que não escrevemos, para tudo o que não somos e, até, citamos, incompletamente, Ortega y Gasset "Eu sou eu e a minha circunstância" para justificar o nosso caminho: podia ter andado mais, podia ter feito melhor, podia ter tomado outra decisão, aliviando o eu e carregando na circunstância. Esquecemos a segunda parte da citação: "Se não salvo a ela, não me salvo a mim.”
Acontece que quem se encosta demasiado ás circunstâncias acaba por cair, antes que a morte chegue. Não foi o caso de Eduardo Lourenço, vivendo num tempo em que ainda não se haviam inventado elevadores sociais mas, apenas, íngremes escadas.
Teria gostado, no entanto, de ler uma obra sua, um pequeno texto sobre S. Pedro do Rio Seco, sobre o Ribacôa; teria gostado que à sua terra natal, para além do corpo, tivesse entregue um pouco mais da sua alma. Mas isso sou eu ocupado com o mundo das pequenas cousas, morador num pequeno lugar onde a alma me ficou cativa, crente nos versos de Alberto Caeiro:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
 

A última lição

Avatar do autor julmar, 05.12.20

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Por vezes , as maiores lições, dadas ou recebidas, são as que não foram preparadas, muitas vezes, nem nos demos conta delas. São coisas que nem saberíamos como as ensinar pelo simples fato de não ser ensináveis embora possam ser aprendidas. E, no entanto, são as coisas mais importantes da vida e da morte: o amor, a ternura, a gratidão, a compaixão, a coragem, a confiança... e, até, outras que alguns acham bem escolarizar em disciplinas como Educação Cívica. Esquecem, suponho, que o ensinável respeita apenas ao que é comunicável de forma intencional e explícita como técnicas ou conhecimentos. Podemos ensinar uma receita culinária mas não podemos ensinar o saber nem o sabor.
Por isso, aqueles que, hoje, nomeadamente, muitos professores, defendem que a educação é uma tarefa da família e que à escola compete ensinar e que ao mesmo tempo clamam por dignidade e respeito, com tarjas penduradas nos átrios das escolas, são vítimas da contradição ao reivindicarem ser meros técnicos do ensino e, por outro lado, se acharem profissionais insubstituíveis de quem depende a educação dos jovens. Essa é uma contradição inerente ao sistema e de que o professor é a vítima.
Derivei para os professores ( não é fácil desligar) , porque a ideia era falar da última lição, do meu Czar, e da morte assistida. No décimo sétimo ano de vida estava muito velho. Deixou de ser capaz de subir escadas, deixou de andar e tinha dificuldade em manter-se em pé para comer. Olhava-me com um ar cada vez mais triste. Fui ao veterinário contar-lhe da minha tristeza e explicou- me todo o procedimento. No dia seguinte, deitado sobre a mesa, a seringa preparada, a minha mão sobre a cabeça dele, o olhar dele posto em mim. O veterinário, perguntou, posso e eu que sim. E, numa grande paz, apagou- se. Chorei. A morte é só uma passagem.
Durante uma dezena de anos trabalhei a obra Fédon com os alunos do 12º ano, sobre imortalidade da alma, de Platão. Alguns anos encenámos a morte de Sócrates. O meu Czar ensinou- me mais que tudo isso.