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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Os livros que me (de)formaram - Philosophia ancilla theologiae

Avatar do autor julmar, 30.11.20

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Hoje, ao renovar a pintura da sala sala e consequente arrumação aos livros, dei com este pesado Manuale, todo escrito em latim macarrónico, por onde estudei Philosophia (corria o ano de 1968, com um Maio de Évora tão diferente do de Paris) estava muito longe de saber que um dia haveria de ser professor de Filosofia. Só eu sei quanto tive de andar para sair da Caverna! Como era possível a filosofia num mundo onde as perguntas importantes eram proibidas? Nunca mais se me apagaram da memória as mnemónicas das figuras e modos dos silogismos: BARBARA CELARENT, DARII, FERIO... , por aí fora. Puro encornanço, passar o tempo a decorar até saber de cor e salteado. Mas não lembro uma única aula ou questão filosófica entusiasmante. Importante mesmo é ter lutado para sair da caverna, saber que o mundo continua cheio delas e não se deixar aprisionar. Talvez, por isso, o meu trabalho de estágio para professor de filosofia tenha tido como pano de fundo a alegoria de Platão, a Caverna.

O tempo, esse escultor

Avatar do autor julmar, 25.11.20

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Numa visita a Castelo Novo, um aldeia histórica de Portugal, fiquei impressionado com esta escultura sem qualquer intervenção do homem. O tempo - milhões de anos - o vento, a chuva, a geada, o sol acordaram criar a cabeça de um guerreiro. E veio-me à memória a obra de Marguerite Yourcemar - O tempo esse grande escultor. Aqui num processo inverso.

"No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado."

NIHIL OBSTAT

Avatar do autor julmar, 24.11.20

Livro: O Fenómeno Humano - Pierre Teilhard de Chardin | Estante Virtual

Os livros lidos são caminhos percorridos, viagens feitas, são encontros, são conversas sérias de perguntas que fizemos ou charlas prazerosas. Em tempos, podem ter sido caminhos pouco recomendados ou proibidos, trilhados às escondidas, com capas a esconder quem dentro se abriga. A liberdade de ler estava condicionada e com ela se condicionava a liberdade de pensar.
No século XX, em que viajei, ainda era assim e a Igreja quis-me proteger dos caminhos da perdição e demorei, não, apenas, por ainda não saber latim, a saber e compreender o alcance da expressão “nihil obstat “. Isto tudo a propósito de hoje ter dado com este livro adquirido e lido em 1971.
Theihard Chardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo, cientista ( nos domínios da geologia e da paleontologia), tentou conciliar ciência e teologia conseguindo ficar de mal com uns com outros: com os cientistas que o acusavam de trazer para a ciência um misticismo alheio ao pensamento positivo; com os teólogos e com a Igreja católica acusado de desvio da doutrina criacionista, tendo sido proibido de leccionar e de publicar as suas obras, sendo a mais importante O Fenómeno Humano:
"Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito."
No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.
O Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1957, um decreto deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Cinco anos depois, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos.
Em 12 de maio de 1981, por ocasião da comemoração do centenário do seu nascimento, Chardin teve sua obra reconhecida pela Igreja através de uma carta enviada pelo cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, ao reitor do Instituto Católico de Paris.

Sobre os livros

Avatar do autor julmar, 22.11.20

O Infinito num Junco

O livro, disposto em capítulos - 87 para a cultura oriental, grega e helenística e 48 para a cultura romana -, começa com a fundação de Alexandria, cidade onde eu comecei a minha viagem que há-de terminar na Cidade do Cabo. Li os primeiros 87 capítulos e estou encantado com esta viagem pela linha de tinta da jovem Irene Vallejo. Um privilégio ler este livro

Ali, à beira do mar Mediterrâneo, nasceu a primeira cultura que quis acolher os saberes de toda a humanidade. Uma ambição tão fantástica herdava o desejo de entrar em contacto com os outros aos quais Heródoto dedicou a sua vida e que Alexandre aguilhoou na sua galopada rumo aos confins da terra. Como recordo professor George Steiner, Heródoto abordou a questão ao afirmar: “todos os anos enviamos os nossos barcos com um grande perigo para as vidas e grandes gastos para África para perguntar: quem são? Como são as vossas leis e as vossas línguas? Eles nunca nos enviaram um barco para nos perguntarem isso nós” O helenismo esboçou e estendeu a ideia da viagem de conhecimentos, sobre duas formas: a deslocação física-em caravanas, barcos, carroças, ao lombo de que de cavalgaduras -e o trajeto imóvel do leitor que vislumbra a imensidão do mundo desde as veredas de tinta de um livro. Alexandria, representada pelo farol e o museu, foi o símbolo desse duplo caminhar. Nessa cidade, que sempre acolheu grande mistura de cultura, Encontramos os alicerces de uma Europa que, com a suas luzes e suas sombras, a suas tensões e desvarios, até com a sua periódica inclinação para a barbárie, nunca perdeu a sede de conhecimento nem o impulso de explorar. Em Vision desde el fundo del mar, Rafael Argullol reclama para si próprio um epitáfio simples, composto por uma única palavra: “Viajoue!” E acrescenta: “viajei para fugir e para tentar ver-me a partir de outros miradouros. Quando conseguimos ver-nos de fora contemplamos a existência com mais humildade e perspicácia do que quando, como um tonto aplaudido por outros tontos, imaginávamos o nosso eu como o melhor eu, a nossa cidade como a melhor cidade e isso é que chamávamos vida com a única vida concebível“
Alexandria, na sua ambígua condição da cidade grega e origem da Europa fora da geografia europeia, inaugurou esse olhar exterior sobre si própria. Durante os melhores tempos da biblioteca, e seguindo o rasto de Alexandre, os filósofos estóicos atreveram se a mostrar pela primeira vez que todas as pessoas são membros de uma comunidade sem fronteiras e que são obrigados a respeitar a humanidade em qualquer lugar e o circunstâncias em que a encontrem. Recordemos a capital grega do delta como lugar onde fervilhava todo esse magma, onde começaram a ser importantes as línguas e as tradições alheias, juntamente com a compreensão do mundo e do conhecimento como um território partilhado. Nessas aspirações descobrimos o precedente do grande sonho europeu de uma cidade de cidadania universal. A escrita, o livro e a sua incorporação nas bibliotecas-foram as tecnologias que tornaram essa utopia possível. O mais habitual é o esquecimento o desaparecimento do legado de palavras, o chauvinismo e as muralhas linguísticas. Graças a Alexandria tornamo-nos extremamente estranhos: tradutores, cosmopolitas, memoriosos. A grande biblioteca fascina-me- a mim, a pequena marginalizada da escola de Saragoça-, porque inventou uma pátria de papel para os apátridas de todos os tempos. 
(do capítulo 87)

Regresso à Poesia

Avatar do autor julmar, 11.11.20

Regresso a Casa - Livro - WOOK

Houve um tempo, na minha longa carreira de professor, em que as minhas aulas começavam com um poema, tornando-se um ritual. Acreditava eu, como pedagogo prático, que entrar na aula exigia um corte com as coisas que, lá fora, nos carregavam o espírito e que a poesia, como uma oração, nos podia preparar para a filosofia. De vez em quando, sinto essa necessidade, como outros se sentem necessitados de rezar. A poesia também tem os seus pastores Hoje pela mão de José Luìs Peixoto.

Entro com a minha mãe no quintal da nossa casa.

A terra está coberta por folhas de várias estações.

Os pessegueiros perguntam por onde andámos,

porque demorámos tanto. As plantas dos canteiros

transbordaram, embaraçaram-se numa espécie de

desespero. A água do tanque de lavar a roupa é

verde. O pombal não tem pombos. A coelheira

não tem coelhos. A capoeira está habitada pela

memória de galinhas submissas e galos no poleiro,

desconfiados de qualquer movimento. Às vezes,

como antes, sentimos a chegada da gata, é uma

presença, uma intuição, vem cumprimentar-nos,

é uma gata livre, salta pelos quintais, escolhe as

pessoas com quem quer estar, apesar de invisível,

é agora o fantasma de uma gata. Ao fim da tarde,

com as janelas abertas, o que escreve a minha mãe

sobre a mesa da cozinha? Muito provavelmente,

escreve postais aos mortos, dá-lhes notícias com

a sua caligrafia de voltas demoradas. Ela própria

receberá esses postais quando for às casas vazias

ver se há correio.

Para compreender o mundo

Avatar do autor julmar, 02.11.20

O Iluminismo Agora - Steven Pinker - Compra Livros ou ebook na Fnac.pt
Este é o décimo sexto livro que leio este ano e, não tenho grandes dúvidas, que será, o meu livro do ano 2020. Não que esteja de acordo com todos os pontos defendidos pelo autor mas porque partilho com ele o essencial: A razão, a ciência e o progresso.
E não há-de ter sido fácil escrever um livro assim. Não apenas pelo seu volume mas por toda a investigação feita, desde a apresentação de fatos, através da recolha e interpretação de dados até à aportação de tantos autores de domínios históricos, filosóficos e científicos. É, de fato, o exercício da razão ao serviço da humanidade.
Faço minha a apreciação de Bill Gates sobe este livro:
“O mundo está a tornar-se melhor apesar de nem sempre o parecer. Sinto-me grato por podermos contar com pensadores brilhantes como Steven Pinker que nos ajudam a apreciar-lo melhor”.
 
Extrato
A argumentação do Triunfo do iluminismo não é apenas uma questão de refutar falácias e de disseminar dados. Pode ser tomada como uma narrativa arrebatadora, e eu espero que as pessoas dotadas de maior veia artística e capacidade retórica do que eu possam conta-la melhor e dissemina-la ainda mais. A históris do progresso humano é verdadeiramente heroica.É gloriosa. É inspiradora. É mesmo, atrevo-me a dizê-lo, espiritual. É qualquer coisa deste género. (Pg 490)