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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Sapere Aude! - Ousa Saber!

Avatar do autor julmar, 29.09.20

O Iluminismo Agora

Kant (1724-1804), o meu amigo Kant, um dos filósofos com quem mais aprendi, passou a sua vida a tentar responder às questões: O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? Para todas encontrou resposta, a sua resposta. A par de questões altamente metafísicas , preocupa-se com a vida prática, como cada um de nós deve agir e, como a sociedade no seu conjunto deve conviver. Ele é o maior e mais sólido fundamento das ideias do Iluminismo que representa, porventura, o mais decisivo movimento científico, filosófico e cultural da História da Humanidade, nele se baseando aquilo que o mundo civilizado, hoje, dá como adquirido e  que está consubstanciado na Declaração dos Direitos do Homem. 

Daí a leitura que vou iniciar, porque aquilo que julgávamos um caminho irreversível de progresso civilizacional, parece correr perigo. A barbárie não está à porta, ela já entrou. O melhor caminho é a acção iluminada pelo conhecimento. Por isso, continuo a dar cumprimento à solicitação de Kant: Sapere Aude!

Como explicar o inexplicável

Avatar do autor julmar, 27.09.20

Se o autor tivesse explicitado no princípio qual o seu objetivo, teria feito uma leitura diferente ou não a teria feito. O autor sabe do que fala, é um estudioso, já escreveu várias obras antes desta, tem um currículo invejável. Li com interesse e proveito mais de metade do livro, aos poucos fui-me dando conta da preocupação fundamental do autor, até descobrir o que pretendia:Provar através dos Evangelhos que o cristianismo, que por revelação, fogem ao ciclo da violência inicial levando a que não se torne num mito seguindo a estrutura comum a todos os mitos e se torne a porta de salvação da humanidade. Sendo assim, só resta ler este livro, e a menos que teimemos em ser gerasianos - porcos que se lançam ao mar. Prefiro a sinceridade dos que, renunciam à razão e, abraçados à fé imploram para que seja aumentada.

 «Diante do mito dos Titãs, as crianças e os seres ingénuos experimentam um sentimento de pavor, uma espécie de recuo. Os etnólogos atuais diriam que eles se deixam dominar pela afetividade. Eu próprio reincido, ao que parece, numa etnologia afectiva, toda ela votada a incoerência sentimental. Tal como romancistas realistas em 1850, as nossas ciências humanas veem na indiferença desumana e na impassibilidade o estado de espírito mais adequado a aquisição de um conhecimento mais científico. A exatidão matemática das ciências ditas “dura” suscita uma admiração, que muitas vezes, leva demasiado a letra a metáfora da dureza. A pesquisa desdenha, então, de sentimentos que não pode descartar sem riscos, uma vez que eles desempenham um papel essencial no próprio objeto que ela estuda, o texto mitológico. Mesmo que fosse possível manter uma completa separação entre análise das Estruturas e a afetividade, não haveria qualquer interesse em fazê-lo. Para compreender o segredo das transformações mitológicas nos nossos dois exemplos é preciso ter em conta sentimentos que a etnologia despreza. Fazer- mo-nos de duros para não parecermos desarmados é privarmo- nos, na realidade, das nossas melhores armas. (...)

 

Os nossos verdadeiros triunfos sobre mitologia nada tem que ver com essa falsa impassibilidade. Eles remontam uma espécie em que a Ciência sem consciência não existia, isso é uma obra anónima daqueles que, primeiro que todos, se levantaram contra a caça às bruxas e criticaram essas representações persecutórias das multidões intolerantes. Mesmo sob o aspecto de uma leitura puramente formal, e de tudo aquilo que passa por constituir o ponto forte da escola atual, não podemos chegar a resultados satisfatórios sem levar em conta que o assassinato coletivo, quando ele está presente, quer, quando não está, o mal estar Que motiva o seu desaparecimento: é em torno da sua ausência que se organizam ainda todas as representações. Se não quisermos ver esse mal estar, jamais conseguiremos esclarecer até mesmo os aspetos estritamente combinatórios e transformacionais das relações entre certos mitos.

(...)

Assim sendo, não queremos que os evangelhos sejam produto de uma elaboração puramente interior no meio efervescente dos primeiros cristãos. Na origem do texto deve haver realmente alguém de fora do grupo, uma inteligência superior que domino os dicípulos lhes inspire os seus escritos. São os vestígios dessa inteligência que nós identificamos, não reflexões dos discípulos, quando conseguimos reconstituir a teoria mimética numa espécie de vaivém entre relatos narrativos de as passagens teóricas, as palavras atribuídas ao próprio Jesus. Entre nós e aquele a quem chamou Jesus, os evangelistas são os nossos intermitida intermediários obrigatórios. Mas, no exemplo de aniversário de Pedro, e de todos os seus antecedentes, a sua própria insuficiência transformas em algo positivo. Eles aumenta a credibilidade e o poder do testemunho. O fracasso dos evangelistas em compreender em certas coisas, juntamente com a sua extrema precisão na maioria dos casos, faz deles intermediários de algum modo passivo. Por causa da sua relativa incompreensão, não podemos deixar de pensar que alcançamos, diretamente, um poder de compreensão superior ao deles. Temos, assim, a impressão de uma comunicação sem intermediários. Não é a nossa inteligência intrinsecamente superior que nos garante esse privilégio, são os 2000 anos de uma história lentamente moldada pelos próprios evangelhos.

Essa história não tem nenhuma necessidade de se desenrolar conforme os princípios de conduta enunciados para Jesus; é necessário que ela se transforme numa outra pia para nos tornar acessíveis aspetos do texto evangélico que o não eram para os principais discípulos; basta que ela se caracteriza pela lenta mas continuo a tomada de consciência de representação persecutória que, é um facto, não deixa de se aprofundar sem nos impedir, infelizmente, de praticarmos nós próprios a perseguição.

Nessas passagens que se iluminam de uma só vez, o texto evangélico assemelha-se um pouco, para nós, a um Santo e senha que se Garia por intermédio de pessoas que não estão por dentro do segredo, e os destinatários que nós somos receberiam essa senha com tanta mais gratidão quanto a ignorância do mensageiro nos garantiria a autenticidade da mensagem, tendo a jubilosa certeza de que nada disso ciência all aí poderia ser falsificado. Mas a metáfora que proponho não é adequada, porque, para que qualquer signo se transforme em Santo e senha, Basta modificar o seu sentido através de uma decisão convencional, ao passo que aqui é todo um conjunto de signos, até então inertes e baixos, que, de repente, sim 61 e brilham de intelecção, sem convenção prévia de nenhum tipo. É toda uma festa da luz que se acende o nosso redor para celebrar a receita ressurreição de um sentido que nem sabíamos que estava morto.

(...)

Os demónios de gerar asa os evangelhos mostram nos diversos tipos de relação humana que a primeira vista, parece em compreensíveis, essencialmente irracionais, mas que podem e devem última análise reconduzir a unidade de um mesmo e único fator, o mimetismo, fonte primária daquilo que dilacera os homens, dos seus desejos da sua rivalidades, dos seus trágicos e grotescos mal entendidos, fonte de toda a desordem, por conseguinte, mas fone igualmente de toda ordem, podendo intermédio dos bodes expiatórios, vítimas espontaneamente

 

Filósofos da minha geração

Avatar do autor julmar, 16.09.20

A Europa à Deriva - Slavoj Žižek - Compra Livros na Fnac.pt

Sem premeditação, dei comigo, ultimamente, a ler textos de autores da minha geração, sobretudo filósofos. Compartilho com eles uma é poca da história que não trocaria por nenhuma outra, com guerras, tragédias, problemas enormes mas com realizações inacreditáveis e muito mais imprevisível e incerta que qualquer outra. E, citando Marx 'não se colocam problemas ao homem que o próprio homem não seja capaz de resolver' Zirek, retornando à ideia de Comunismo, crê ser a alternativa ao capitalismo que na profecia leninista, na sua forma imperialista, seria o seu próprio coveiro. 

Quando eu era jovem, a uma tentativa tão organizada de regular a comunidade chamava-se comunismo. Talvez devêssemos reinventá-lo. Não basta permanecer fiel à Ideia Comunista - há que localizar, na realidade histórica, os antagonismos que transformam essa ideia numa urgência prática. A única questão autêntica hoje em dia é: sancionamos a per dominante naturalização do capitalismo, ou o atual capitalismo global contém antagonismos fortes e suficientes para impedir a sua reprodução indefinida? Existem quatro desses antagonismos: a ameaça iminente da catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada 'propriedade intelectual', as implicações sócio-éticas dos novos desenvolvimentos técnicos e científicos, e, por último, mas não menos importante as novas formas de apartheid, os novos muros e bairros de lata. Há uma diferença qualitativa entre este último aspecto, o fosso que separa os Excluídos dos Incluídos, e os outros três que designam os domínios daquilo a que Michael Hardt e Toni Negri chamam "o comum“, a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização constitui um ato violento ao qual também deveria resistir-se por meios violentos, se necessário:
  • O comum da cultura, as formas imediatamente assocializadas de capital cognitivo, sobretudo a linguagem, os nossos meios de comunicação e de educação, mas também a infraestrutura compartilhada dos transportes públicos, da eletricidade, dos correios, etc.
  • O comum da natureza exterior, está ameaçado pela poluição e pela exploração (do petróleo às florestas e o próprio habitat natural);
  • O comum da natureza interna (a herança biogenética da humanidade), com a nova tecnologia biogenética, a criação de um homem novo, no sentido literal de se modificar a natureza humana torna-se uma perspetiva realista.
Todas estas lutas partilham da consciência dos potenciais destrutivos que chegam à auto- aniquilação da própria humanidade, caso a lógica capitalista da limitação desses comuns seja autorizado a ter livre curso. É essa referência ao “comum“ que justifica o surgimento da noção de Comunismo: ela permite-nos ver o grupo progressivo “ cerco“ ao comum como um processo de proletarização daqueles que, desse modo, ficam excluídos da sua própria substância. No entanto, o comum também pode ser restituído à humanidade coletiva sem o comunismo,  num regime autoritário comunitário; o sujeito des-substancializado, 'desenraizado', privado do seu conteúdo substancial também pode ser contrariado na direção do Comunitarismo, da busca do seu lugar próprio numa nova comunidades substancial. Não há nada mais 'privado' do que uma comunidade de estados que percebo os Exluídos e se preocupe com a maneira de manter uma distância adequada. Por outras palavras, nessa série de dos quatro antagonismos aquele que se verifica entre os Incluídos  e os Excluídos é crucial: sem ele, todos os outros perdem a sua orla subversiva. A ecologia transforma-se num problema desenvolvimento sustentável, propriedade intelectual no complexo desafio jurídico, a biogenética uma questão ética. Pode lutar-se sinceramente em prol da ecologia defender-se uma noção mais ampla da propriedade intelectual, opômo-nos aos elogios de direito sobre o genes, sem se enfrentar o antagonismo entre os Incluídos e os Excluídos - podem até formular-se algumas dessas lutas nos termos dos Incluídos ameaçados pelos Excluídos poluidores. Dessa maneira não chegamos a nenhuma universalidade autêntica apenas às preocupações privadas no sentido kantiano do termo.»

A Fundação do universalismo

Avatar do autor julmar, 14.09.20

Alain Badiou, São Paulo | vseditor

Desde a primeira vez que ouvi esta passagem dos Atos dos Apóstolos - A conversão de Paulo a Caminho de Damasco - que esta figura me cativou e, mais tarde me intrigou. 

Actos dos Apóstolos 22, 3-16

'Naqueles dias, Paulo disse ao povo: «Eu sou judeu e nasci em Tarso da Cilícia. Fui, porém, educado nesta cidade de Jerusalém e recebi na escola de Gamaliel uma formação estritamente fiel à Lei dos nossos pais. Era tão zeloso no serviço de Deus, como vós todos sois hoje. Persegui até à morte esta nova religião, algemando e metendo na prisão homens e mulheres, como podem testemunhar o Sumo Sacerdote e todo o Senado. Recebi até, da parte deles, cartas para os irmãos de Damasco e para lá me dirigi, com a missão de trazer algemados os que lá estivessem, a fim de serem castigados em Jerusalém. Sucedeu, porém, que, no caminho, ao aproximar-me de Damasco, por volta do meio-dia, de repente brilhou ao redor de mim uma intensa luz vinda do Céu. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque Me persegues?’. Eu perguntei: ‘Quem és Tu, Senhor?’. E Ele respondeu-me: ‘Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues’. Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz que me falava. Então perguntei: ‘Que hei de fazer, Senhor?’. E o Senhor disse-me: ‘Levanta-te e vai a Damasco; lá te dirão tudo o que deves fazer’. Como eu deixei de ver, por causa do esplendor daquela luz, cheguei a Damasco guiado pelas mãos dos meus companheiros. Entretanto, veio procurar-me certo Ananias, homem piedoso segundo a Lei e de boa fama entre todos os judeus que ali viviam. Ele veio ao meu encontro e, ao chegar junto de mim, disse-me: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista’. E, no mesmo instante, pude vê-lo. Ele acrescentou: ‘O Deus dos nossos pais destinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e ouvires a voz da sua boca. Tu serás sua testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. Agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome’»

Por mor desta intriga fui lendo sobre esta figura maior que se nos apresenta de espada na mão e prega o amor. Ele é a grande figura, militante e doutrinária, que pregando a fé ( Cristo ressuscitou) e a igualdade de judeus e pagãos instaura a Igreja. Sem Paulo nunca haveria cristianismo e tudo se teria diluído em seitas.

Estranhamente, ou não, talvez ninguém tenha escrito uma obra, sobre Paulo, tão profunda e tão isenta e, só alguém com alguma afinidade de pensamento/acção e de admiração poderia ter produzido um texto como este . A atitude do militante Alain Badiou que encontra em Marx um sentido para a humanidade com a instauração do comunismo não está longe da atitude do apóstolo Paulo que encontra na ressureição de Cristo o caminho para a salvação.

Não se trata de uma bibliografia, nem de uma interpretação doutrinária ou histórica. Trata-se de uma obra de filosofia, pura e dura, que se propõe provar a tese que consta do título. Quem se propuser a ler, não espere uma leitura fácil, crendo que isso seja um bom motivo para a sua leitura.

Leitura breve sobre assunto longo

Avatar do autor julmar, 08.09.20

Trump | Snob

"Bolsonaro quer esmagar um comunismo inexistente? Que lhe barre o caminho, assim como a todos os percursores do velho mundo, um novo comunismo, desta vez bem real"

Depois de uma difícil e vagarosa leitura de Alain Badiou - S. Paulo - A fundação do universalismo -, uma obra de filosofia pura e dura procurando a instauração de uma nova metafísica assente no acontecimento da proclamação da Ressurreição de Cristo, li, de uma assentada (no sentido literal), esta pequenina obra de análise política sobre a situação mundial tendo por fundo a eleição de Trump. 

A minha geração, à parte a filosofia escolástica que foi a minha formação de base, teve como pano de fundo da interpretação da natureza e da sociedade a filosofia marxista, cuja importância é relevada por Sartre : "O marxismo é a filosofia inultrapassável do nosso tempo". A partir de 1980 vários acontecimentos deram início ao fim "do nosso tempo" que teve como marco simbólico a queda do Muro de Berlim em 1989. Depressa o capitalismo, sem o travão do socialismo, acelerou e tomou conta de todo o planeta. Os inteletuais educados numa visão marxista do mundo rapidamente fizeram o seu agiornamento e o capitalismo passou a constituir o único horizonte da humanidade, não que seja um bom sistema, que resolva os problemas da humanidade mas tão só porque é o único possível, não há outra solução. 

"Portanto, parece necessário, para compreender tudo isto, tomar quatro termos em consideração. Recaapítulo aquilo que chamo de crise atual:

1- A brutalidade a violência cega do capitalismo como temporário, que é um regresso à brutalidade e à violência cega do capitalismo do século XIX. Releiam Dickens! Voltámos, com novas novas formas, à época de Dickens

2 - A decomposição da classe política, coloca-nos diante da possibilidade de um novo fascismo. É uma perspetiva sombria.

3- A frustração popular perante tudo isto, o sentimento de uma desordem obscura, a convicção de que não existe uma orientação aceitável no mundo e de que é, seja como for, impossível continuar assim. Poder-se-ia dizer, parodiando o fim de um célebre livro de Samuel Beckett: o capitalismo não pode continuar, ele deve continuar, ele vai continuar.

4 - Por fim, a ausência de qualquer outra via estratégica.Segundo uma formalização aritmética, podemos dizer que no conjunto temos a passagem de duas vias estratégicas, o capitalismo e comunismo, a uma só, o capitalismo global enquanto única via estratégica, e que na política passamos de duas a quatro mas entre estas quatro, existem desigualdades, e, de momento, a força maior encontras-se do lado direito. Ameaça-nos a possibilidade de uma nova forma de fascismo, coma ausência, a terrível ausência de qualquer coisa do outro lado"

E o preenchimento dessa ausência será o regresso, não daquilo que foi a realização do comunismo mas da Ideia que lhe presidiu, contrapondo, assim, à afirmação da desigualdade identidade a ideia de Igualdade e universalidade.