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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Última leitura de 2019

julmar, 31.12.19

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«Os monstros existem, mas são muito pouco numerosos para que sejam verdadeiramente perigosos;os que são mais perigosos são os homens comuns, os funcionários dispostos a acreditar e a obedecer sem discutir»

Primo Levi

 

 

Metafísica bovina

julmar, 28.12.19

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Fotografia tirada numa manhã de nevoeiro 

Se eu fosse pintor haveria de gostar de pintar esta aguarela. As vacas alinharam-se pronta e espontâneamente quando sentiram a minha presença. Tirei várias fotografias. Imóveis. Haverá mais metafísica no seu olhar bovino que no conjunto da Suma Teológica de S. Tomás de Aquino.

Leituras de 2019

julmar, 22.12.19

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E, prestes a chegar ao fim do ano,  é tempo de balanço , esse exercício contabilístico que nos prende à realidade  dos factos, essa obrigação de a cada ano que passa dar conta do tempo que gastámos nisto e naquilo, sendo que isto e aquilo é, para mim, o ler, o escrever e o andar. E é assinalável que dos 16 livros lidos, metade tenha sido em língua inglesa, muito acima das minhas espetativas, o que contriubuiu para o apuramento do meu inglês. Esforço a continuar em 2020.

Outra nota, consiste no fato de a primeira e a última leitura consistirem numa arte de. Nada que tivesse planeado mas que faz todo o sentido. 

Por último, apete-ce-me dizer, deixemo-nos de tretas, vamos aos factos. A minha leitura do ano é Fact Fullness de Hans Rosling

Obrigado a todos os autores, meus mestres, que me abriram novos horizontes, com quem foi um prazer viajar.

1- A Arte de Caminhar, um passo de cada vez - Kagge, Erling

2- Homo Creator - Wilson, Edward O.

3- Science And Islam - Masood Ehsan

4- Hard Times - Dickens, Charles

5- O Homem Mais Rico Do Mundo - Conlin, Jonathan

6- The Invention of Solitude - Auster, Paul

7- The Humans - Haig, Matt

8- Fact Fulness - Rosling, Hans

9- How democracy Die - Levitsky, Steven e Ziblatt, Daniel
10- A Mais Breve História da Alemanha - Hawks, James
11- Tríptico da Salvação - Cláudio, Mário
12- 12 Rules for Life, an Antidote to Chaos - Peterson, Jordan B.
13- Camilo Broca - Cláudio, Mário

14 - Viagens - Tokarkzuc, Olga
15- 1908-1910 “Frades Jesuítas “ Correm Portugal pela muita tinta dos Jornais - Peres, Sanches Manuel

16-- A arte de não acreditar em nada. Livro dos três impostores. Organização e prefácio de Raoul Vaneigem

17 - Desobedecer - Gros, Frédéric

O elogio da merda

julmar, 20.12.19

«Merda: palavra-chave do inspector Otero, de significado amplo e muito pessoal. ‘Merda até ao traço do lábio’: locução que utiliza frequentemente para designar um sentimento ou uma situação de impotência absoluta»

In, Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires, Colecção Mil Folhas, pgs 32/33

Também se pode ter uma conversa de merda de uma forma elevada, tudo depende do tipo de parlatório: tribuna, púlpito ou do alto da burra, mas sempre de um local elevado.

Tudo é merda, ou porque daí veio ou porque para lá caminha. E a humanidade, em geral, e cada um de nós em particular, deve-lhe mais do que está disposto a conceder. Se os primeiros filósofos andaram em busca da arquê enquanto princípio de que todas as coisas são feitas para explicação do mundo material (o fogo, a terra, o ar, a água em separado ou todos no seu conjunto), se tivéssemos de procurar o princípio da humanidade bem poderíamos dizer que esse princípio é a merda. Biblicamente poderíamos substituir a volatilidade do pó pela maior consistência da merda: «Memine, homine, quia pulvis es et in pulvis reverteris». Igualmente, quando no Evangelho se diz «Pelos frutos os conhecereis» se poderia substituir frutos por merda, porque ela é um sinal da doença e da saúde, ela traça a identidade de cada um - não há duas merdas iguais.

Num materialismo grosseiro, apesar do qual, ou através do qual se tornou famoso, Proudon afirmava que o homem é aquilo que come. Num materialismo igualmente grosseiro mas mais mal cheiroso poderíamos afirmar que o homem é aquilo que caga. Um homem é medroso no caso de se cagar de medo; é um valentão se mete um cagaço a alguém. Como se vê pelo cagar se mede a personalidade de cada qual. Se se diz de alguém que é um cagão, está tudo dito. Cagões é o mais que por aí abunda e Portugal é cada vez mais um país de cagões.

Também há quem não dê peido que bem cheire. Há pessoas tão forretas, tão avaras que nem peidos dão e que de tanto se encolherem trocam sonantes peidos com que gostosamente se aliviariam por bufos malcheirosos que torna suspeitos todos os circunstantes. Era assim que um professor meu de sociologia nos explicava a razão de serem necessários 3 indivíduos para constituir um grupo: Ao contrário de dois, se forem três indivíduos e um deles se bufar, torna-se impossível saber quem foi. E sem suspeição não há grupo, concluía ele.

Está por estudar, creio eu, e porque há gente para tudo e até para estudar a merda, o seu contributo na disseminação das espécies botânicas.

 Há um ror de gente desejoso que o próximo faça merda, sobretudo entre companheiros de profissão.

Dizia uma quadra do tempo da merda da Ditadura:

Se o isqueiro paga imposto

E o fósforo imposto paga

Daqui a pouco paga imposto

A merda que a gente caga

Nunca na merda da ditadura se pagou tanto imposto como na merda da democracia,  aliada da civilização, que em vez de merda lhe chama “detritos sólidos”dos quais envia ao prezado leitor deste texto de merda uma fatura mensal. Porque mudaram as moscas mas a merda é a mesma, prova-se que tudo o que é essencial é universal. E quando ainda não havia facebook, a veia poética dos cagões, deixa gravado a navalha, nas portas das retretes, nessa privacidade universal, a inspiração expirada:

Neste local solitário

Onde a vaidade se apaga

Todo o fraco faz força

Todo o valente se caga

Merda é das palavras mais generalistas e tal como a palavra coisa dá para suprir toda a deficiência designativa das realidades, razão porque há tanta gente com elas na ponta da língua.

Apesar dos inúmeros sinónimos (excrementos, fezes, dejectos, porcaria, caca…) nenhum deles a traduz de forma perfeita.

E se o leitor já está farto destas merdices, vou contar-lhe uma história de merda.

Num daqueles anoiteceres frios de primaveras tardias, um passarinho meio implume que mal ensaiava o voo e se extraviara da mãe e dos irmãos sentiu-se enregelado. Quis o destino que uma vaca lhe colocasse uma farta bosta em cima o que lhe proporcionou uma noite aconchegada. Quis o destino que um gato madrugador, à procura do pequeno-almoço, firmado nas patas, surpreendido, tenha visto uma cabecita a espreitar daquela bola a fumegar e Zás! Uma sacudidela e era uma vez um passarinho.

Então, toma atenção porque:

 Nem todo o que te mete na merda te quer mal

Nem todo o que te tira da merda te quer bem

 Quando te meteres na merda, enterra-te bem nela

Se marcha el Maestro. Adios Patxio

julmar, 19.12.19

Tenho a ventura de viver um tempo de gente fantástica - Filósofos, cientistas, artistas - e de poder fruir das suas criações.

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https://music.youtube.com/watch?v=_6CZwlbmMIY&list=RDAMVM_6CZwlbmMIY

El Maestro 

Con el alma en una nube
y el cuepo como un lamento
viene el problema del pueblo
viene el maestro
el cura cree que es ateo
y el alcalde comunista
y el cabo jefe de puesto
piensa que es un anarquista
le deben 36 meses
del cacareado (mento)
y el piensa que no es tan malo
enseñar (toreando )un sueldo
en el casino del pueblo
nunca le dieron asiento
por no andar politiqueando
ni ser portavoz del cuento
las buenas gente del pueblo
han escrito al menisterio
y dicen que no esta claro
como piensa este maestro
dicen que lee con los niños
lo que escribio un tal Machado
que anduvo por estos vagos
antes de ser exilado
les habla de lo inombrable
y de otras cosa peores
les lee libros de versos
y no les pone orejones
al explicar cualquier guerra
siempre se muestra remiso
por explicar claramente
quien vencio y fue vencido
nunca fue amigo de fiestas
ni asiste a las reuniones
de las damas postulantes esposas de los patrones
por estas y otras razones
al fin triunfo el buen criterio
y al terminar el invierno
le relevaron del puesto
y ahora las buenas gentes
tienen tranquilo el sueño
porque han librado a sus hijos
del peligro de un maestro
con el alma en una nube
y el cuerpo como un lamento
se marcha,se marcha el padre del pueblo
se marcha el maestro.

Livros proibidos

julmar, 09.12.19

A Arte de Não Acreditar em Nada e Livro dos Três Impostores | Antígona

Os livros sempre constituíram um perigo e, por isso, eram de acesso reservado. A forma mais eficaz de o conseguir era impedir as pessoas de aprender a ler. Ou, então, escrevê-los numa língua não popular. Com Lutero, o aparecimento do protestantismo (que preonizava a leitura dos livros sagrados na língua materna) e com a descoberta da imprensa, a Igreja Católica estabeleceu , através do Index, o que não se podia ler. Quanto aos livros sagrados - a Bíblia - continuariam em latim até ao Concílio Vaticano II. E recordo o embaraço do velho pároco Inácio Faria que a primeira vez em que celebrava a missa segundo os normativos do referido concílio, calhou de ser uma leitura de S. Paulo aos Gálatas, 4:22 - 31 : 

 "Diz lá que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro de sua mulher que era livre."

O padre, apanhado de surpresa: - Porra, porra, meu povo! Vamos lá regressar ao antigo. Voltou as costas ao povo e leu em latim.

"Embora interesse a todos os homens conhecer a verdade, são muito poucos os que gozam desse privilégio. Uns são incapazes de a procurar por si próprios, outros não querem fazer esse esforço. Não devemos por isso espantar-nos com o facto de o mundo estar cheio de opiniões vãs é ridículas; nada as faz correr melhor do que a ignorância, aí reside a única fonte de falsas ideias que temos da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os Outros temas que constituem a religião. O uso prevaleceu, contentamo-nos com os preconceitos que vêm desde o nosso nascimento e entregamos as coisas mais essenciais a pessoas interesseiras que têm como lei sustentar teimosamente as opiniões recebidas e não ousam destruí-las com medo de se destruírem a si próprias"

 

Vale dos Reis, Luxor

julmar, 05.12.19

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Afinal é mesmo possível encontrarmo-nos connosco passados dez anos. Estava sentado e sentado ficou como se tudo fosse normal. Que tinha vindo ao Egito, que estava ali em Luxor embasbacado com a grandeza de tal civilização e, que Nilo abaixo ia até à sua foz. E eu lhe disse que, em  sentido contrário, ia Nilo acima até onde fosse a sua nascente. E como vais? Vou a pé, passo a passo. És maluco? Tanto comos reis que estão sepultados neste vale, o Vale dos Reis. Quando nos encontraremos? Talvez daqui a dez anos na casa da Vila.