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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

POEMA EM LINHA RETA, Álvaro de Campos

julmar, 29.08.18

 


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Os incêndios e os cidadãos demissionários

julmar, 08.08.18
Os políticos deviam ouvir mais pessoas como o meu amigo Abílio com quem nos meus passeios matinais vou dando ouvidos à voz do povo que trabalha e tem um conhecimento de experiência feito, de quem já combateu, no passado, e apagou muitos fogos ao apelo feito pelo toque do sino a rebate da aldeia dele.

- A mim não me tiravam eles de casa, afiança-me.

Agora é tudo entregue a especialistas cuja eficiência está à vista. Em vez de prepararem as pessoas para se defenderem e para defender o que é seu, tratam-nas como crianças; em vez de as ensinarem a lutar, ensinam-as a fugir; em vez de as incentivar a resistir convidam-nas a desistir; em vez de, em cada povoado, ajudar as comunidades a organizarem-se na defesa das calamidades, dão- lhes números de contato telefónico. E Conselhos: Não faça nada, se vir deflagrar um incêndio; não faça nada se vir alguém a ser assaltado ou agredido; e, se for você, não ofereça resistência. Contate apenas, porque o Estado tem especialistas para tudo.

E tudo a que somos obrigados é a ser cidadãos demissionários, solidários na cobardia e no medo.

Jalan, jalan ou a razão encontrada de andar, passo a passo

julmar, 02.08.18

“Viajar é uma forma de loucura, é sair do seu lugar, prescindir do conforto e entregar-se ao desconhecido. Se por vezes ofazemos por compulsão ou por interesse ( motivações tão importantes ou válidas quanto quaisquer outras, o passeio é nesse sentido, um ato artístico, que encontra novas paisagens paisagens, novas formas de vida, sem deliberadamente procurar nada. É, como qualquer viagem, um ato que abdicar da segurança do lugar comum, mas que encontra prazer no próprio ato de caminhar. O caminhante perde a história, ansiedade. É o epicurismo a andar pelos campos. Cada passo que é uma renúncia e uma forma de desapego. Jalan, jalan é andar melhor. Por um motivo simples: não é utilitário, não tem um percurso definido, há uma liberdade intrínseca. Assemelha-se à arte. É uma atividade que prescinde de técnica. Ninguém tem de ter um modo eficiente de andar para poder passear. Não há tempo envolvido. Não há limitações, não há pressa. Nem sequer vagar. A noção do tempo perde-se na contemplação da paisagem. Um passo reencarna outro passo e também a mesma essência o hedonismo do gesto. Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que ri reside a riqueza do passeio.”
In, Jalan, jalan - uma leitura do mundo, de Afonso Cruz