Em tempos, fiz uma pequena investigação e publiquei um opúsculo sobre as múltiplas expressões em torno da palavra andar, procurando aí alguma identidade do modo de ser português. Consulte um bom dicionário e ficará pasmado, no caso de ser dado a pasmos, com a quantidade de expressões, tendo, porém, a certeza de que lhe escaparão sempre algumas. Desde andar com o cu às fugas ao andar com o credo na boca com que poderíamos iniciar um discurso para falar do tenebroso tempo da Inquisição.
A medicina clássica parece ter, recentemente, descoberto as vantagens de andar. A minha médica, excelente profissional, em tempos que eu levava uma vida sentada, surpreendeu-me, terminando a consulta a receitar-me um par de sapatilhas e um conselho: Ponha-se a andar. Levei a sério a receita e o conselho e não parei de lhe dar cumprimento e estou mesmo em crer que não seria como sou se não me tornasse militantemente andante. Essa é também a experiência que nos conta o escritor japonês Haruki Murakami no seu livro Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo onde ele reflete sobre o que significa correr e como esse fato se refletiu na sua forma de escrever. É no ato de andar que a nossa alma, tantas vezes divorciada do corpo, se encontra com ele e descobre as suas raízes biológicas e com isso entramos em comunhão com a natureza que nos gerou.
Por isso, senão pode correr, ande; senão pode andar depressa, ande devagar. Mas ande. O nosso corpo foi feito para andar. A pior descoberta que o homem fez foi a de que se podia sentar e começou a usar o cu para aquilo que não foi feito, para estar sentado, que se podia fixar num sítio, que se podia sedentarizar. E descobriu a agricultura e com ela surge a acumulação a desigual distribuição de recursos, enfim, a dialética do senhor e do escravo. Os homens sedentários precisam de deuses ou, pelo menos de outros deuses.
A essência do homem é ser viajante (via+agere), fazer caminho. A vida é uma viagem. Viver a vida como deve ser é viajar. Por isso, não deve andar para chegar ali ou além, porque ali ou além não estará ninguém à sua espera. Estará você, os companheiros de viagem e as recordações da viagem. Subirá ao mais alto monte e verá, lentamente, o sol desaparecer no horizonte, pela última vez. Nesse momento final, tudo o que conta é a aceitação feliz de a viagem ter chegado ao fim. Pôs-se o sol, a escuridão desceu sobre a terra e não haverá amanhã.
É triste? Não. Triste é ontem não ter andado.

Há um conjunto de perguntas que sempre se me colocaram mas, ultimamente mais insistentemente, e de um ponto de vista diferente. E encontro-as logo no início: «Terá a humanidade um lugar especial no Universo? Qual o sentido das nossas vidas pessoais?» Do ponto de vista da religião, nada há a procurar. A resposta está dada. O ponto de vista que interessa, em termos de conhecimento, é, pois, o científico.
É para essa viagem que o autor nos convida mostrando, demonstrando e argumentando que:
«A humanidade se ergeu pelo próprio pé, através de uma série de eventos que ao longo da evolução se foram acumulando. Não estamos predestinados a atingir seja que objetivo for, tão pouco temos de responderr perante outro que não seja o nosso próprio poder. Apenas a sabedoria baseada numa autocomprensão, e não a piedade, nos salvará. Não haverá redenção nen segnda oportunidade que, de cima, nos venha a ser concedida. É só este planeta que temos para habitar e este sentido que temos para desvendar. Para dar este passo na nossa viagem, para entender a condição humana, precisamos de uma definição de história bem mais ampla do que aquela que convencionalmente é usada» .
E recordo Kant e a sua Crítica da Razão Pura na qual conclui pela possibilidade do conhecimento científico e pela impossibilidade da Metafísica como ciência. E o seu estímulo para que a humanidade no seu conjunto e cada indivíduo em particular tenha a coragem de «SAPERE AUDE!» (Ousa saber!)
Estou certo que o poeta ia gostar, que o filho ia gostar, de saber que estávamos em sua casa, na sua quinta a apertar os fios com que se tece a amizade. E, talvez, tenha escrito este poema para nós.
Um dia,
A querer espargir
Mensagem
Que mora em ti,
Sê simples
Simplesmente. Tu.
Como a água de rasteiras fontes...
Não diz de onde vem,
Não diz para onde vai,
E mata sedes...
Como flor dos caminhos...
Anónima de cor e aroma,
É esperança de viandeiros,
Como seara ondulante...
Música alada
E aceno lento
De fome apaziguada ...
. Se marcha el Maestro. Adi...
. A ribeira de ontem e a ri...
. Andar passo a passo, com ...
. A reta é a mais curta dis...
. Ora, descubra lá a(s) dif...