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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Visitando escritos de Agostinho da Silva

julmar, 20.06.16

Pense por si próprio 

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.

Agostinho da Silva, in 'Cartas a um Jovem Filósofo

Pessoas e lugares da minha vida - A minha manhã submersa 4

julmar, 20.06.16

Évora 6º ano.jpg

 Ali estás tu metido numa sotaina preta, apertada por uma faixa vermelha a treinar para um ofício que nunca virás a exercer. Lá estão os velhos companheiros que contigo vieram de Beja e os que aqui vieste encontrar em Évora, incluso alguns timorenses. O menino que foras, era agora um adolescente que frequentava aulas de Filosofia lecionadas pelo canónico Júlio Chorão, ficando tu muito longe de perceberes o que era a filosofia; decoraste e nunca mais esqueceste as figuras dos silogismos (BARBARA, CELARENT, DARII, FERIO...) a partir do grosso e pesado Manuale Philosophiae, ad usum seminariorum, de I. Di Napoli. Assim mesmo, filosofia estudada em latim. A ilustração, o espírito crítico, a interrogação havias  de as construir a partir da tua desconfiança e dúvida sobre as irracionalidades em que tropeçavas a todo o momento. Fé, precisas de ter fé. Não rezas porque tens fé, rezas para teres fé: Senhor, aumentai a nossa fé pedias num circulo vicioso que não deu em nada. Queriam que tu fosses transparente mas  tu só podias dizer que sim que acreditavas, que amavas Deus e a Virgem e que seguias todos os preceitos da Igreja católica, apostólica e romana e que querias de todo o coração ser o eleito do Senhor. E tu, sem o saberes seguias o conselho daquele que viria a ser o teu apreciado Espinoza: Obediência na ação, liberdade no pensamento. Talvez por isso, te achassem tão enigmático e obscuro. Como se pode ser transparente num ambiente de pressão, repressão e de violência? Por que lhes darias tu acesso ao teu pensamento, aos teus projetos? Como lhes confessarias esse pecado da desobediência ao pensamento único? E tinhas que suportar a palavra de Deus, escolhida de propósito para com ela te zurzirem, a torto e a direito, de manhã, ao meio dia e à noite, todos os dias: que sois sepulcros caiados, que são muitos os chamados e poucos os escolhidos, que por isto e por aquilo serás um condenado ao inferno, um fariseu, um maldito que no juízo final tomarás a esquerda do Deus todo poderoso. E mostraram-te o Inferno onde as almas dos condenados ardiam em chamas eternas!

Mas o mundo estava a mudar, a Igreja também. Às escondidas, lá ias lendo (não entendendo muito do que lias) sobre as dissidências, os padres operários, a teologia da libertação, os cadernos da GEDOC de Nuno Teotónio Perereira e dos padres Feliciano Alves e Abílo Cardoso que nesse ano de 1969 haviam tido início. Bem que o Madureira (que viria a ser bispo) quis entrar no teu mundo, com perguntas  e mais perguntas ficando a saber o mesmo. Nada.É verdade que te quis pôr fora do seminário. Um tal padre Urbano, de Beja, opôs-se. E tu lá foste para o Seminário Maior de Coimbra depois de teres aprendido as figuras dos silogismos, a iniciação ao grego, a Literatura com o Sebastiaõ, a continuação do latim com o Sardo e o grupo polifónico com o Alegria. Todos padres, cónegos, doutores. 

 

Lugares da minha vida

julmar, 20.06.16

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Por aqui me demorei a dissipar sombras

Dependência do externato Pedro Nunes na Av. da República. Anos 80. Aqui lecionava Filosofia, à noite, a alunos trabalhadores de profissões várias. Guardo memória de um solicitador a quem nunca consegui fazer uma avaliação clara: Uma escrita tão floreada que toda a folha ficava quase sem espaços vazios; na parte oral, debalde o interrogava, porque ocupava toda a conversa, não dando possibilidade de ser questionado. Não era fácil, entre a extensa matéria, fazer-lhes entender a Crítica da Razão Pura de Kant ou a Dialética hegeliana. Hoje, os azulejos cansados desprendem- se da parede e um cadeado na porta impede a entrada de visitas indesejáveis

Leitura de Junho

julmar, 15.06.16

Depois da leitura de Mein Kamppf, fui tentar encontrar a resposta  como é que um homem movido pelo ódio, incapaz de estabelecer relacionamentos humanos normais, surdo a argumentos que não fossem os seus, se tornou num líder tão carismático que galvaniza um povo  e o conduz a uma  tão inimaginável situação? Como foi possível Hitler tornar-se uma figura com um poder tão atraente para milhões de pessoas?

Aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer. Ou melhor, acontece todos os dias em dimensões diferentes e os ingredientes são sempre os mesmos: Obediência, pensamento único, fanatismo, dogmatismo, fé, fé incondicional e  uma causa que nos transcenda, única e absoluta. Depois é mandar rufar tambores, criar rituais, uniformes e sinais (ou o sinal) agitar bandeiras, cantar o hino e pregar, repetidamente, a causa das causas. Dividir os homens entre bons e maus. Banalizar o mal. O terror e o medo farão o resto. E este é um caminho fácil porque é feito de preguiça racional, de obediência cega, da expressão natural das emoções, do viver por delegação, do dizer sim e, sobretudo, da ausência de coragem. 

Maiis uma vez, para ler este livro não precisa de gastar dinheiro. Faça um download.

Marcelo Presidente

julmar, 09.06.16

Não votei em Marcelo. Porém, no tempo que já leva como presidente, está a convencer-me. Ao contrário, de muita gente que nunca sai da sua, que nunca perde a razão, eu gosto de ser persuadido por palavras e convencido por acções. Bem que precisamos de políticos bem dispostos, inteligentes, cultos e cuidadores do bem comum.  

Leituras longas

julmar, 06.06.16

Já o disse, noutro sítio, que um bom livro é o que nos faz bem: por ser instrutivo, por nos deleitar, por nos fazer rir ou chorar, por confirmar ou infirmar uma ideia, por nos abrir uma porta ou janela. Isso não tem a ver com o livro ser grande ou pequeno, com ter sessenta ou seiscentas páginas. No presente livro foram 872 páginas para contar a história de trinta e dois reis. Ao ler tanta página veio-me à memória o pedido de desculpa do filósofo francês M. Montaigne (1533-1592) a um seu amigo, por lhe escrever uma carta tão comprida, por não ter tido tempo para lhe escrever uma mais curta.

E um livro, seja de  matemática, física ou literatura, ou nos entusiasma ou não presta.

Leitura de Maio

julmar, 06.06.16

Porque lemos os livros que lemos? Porque vão de encontro aos nossos interesses, às nossas necessidades, porque procuramos respostas a perguntas que nos colocamos. O que leva certas pessoas a mudarem o curso da história dos povos e da humanidade. No caso presente, como foi possível que um rapazito, nascido num recanto da Áustria, filho de uma família humilde, sem o concurso de pessoas influentes, com morte do pai e da mãe, muito antes da idade adulta, se tenha tornado tão poderoso a ponto de ter estado próximo do domínio total da humanidade? O fanatismo é, em todos os tempos, seja religioso ou ideológico, o principal inimigo do homem. Daí a importância de uma educação baseada no espírito crítico, na cultura do espírito científico e na atitude filosófica. E também podemos aprender com Hitler, nomeadamente, na defesa do estudo da História, cujas lições do passado nos devemservir para o presente. 

E já agora, uma sugestão: Não compre o livro. Faça um download no seu computador ou smatphone.