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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Aprendizes de filosofia

julmar, 31.05.16

Epílogo

Porque aprendemos que de muitos caminhos singulares se faz um caminho comum,

Porque das múltiplas diferenças se faz a paisagem,

Porque por trás do diferente encontramos ou igual,

Porque aprendemos a filosofar

Sabemos

simplificar o complexo

complexificar o simples

sabemos

que o parente é real

que o real é aparente

sabemos

que o familiar encobre o insólito

que o óbvio é o inexplicável

e, sobretudo, sabermos

Das dúvidas que recaem em nosso saber

Das interrogações, quais linhas do horizonte,

Que desfeita uma, outra se levanta…

até ao fim

Aprendizes de filosofia

julmar, 30.05.16

aprendizes capa.jpg

 A arrumar papéis vou encontrando algumas relíquias. Como este livro feito pelos meus alunos. Eu apenas escrevi o prólogo e a introdução a cada temática. Aí reencontrei a minha alma de professor de filosofia.

Prólogo

Hesitámos na escolha do termo prólogo, pois que outros - prefácio, preâmbulo, prelúdio - se apresentavam capazes de cumprir a função. Optámos por este por nele se conter um significado essencial ao filosofar - o logos que nos obriga a encontrar as razões a favor dos discursos que se seguem.

A filosofia depois de Sócrates, na academia de Platão, no liceu de Aristóteles, nas universidades medievais, modernas e contemporâneas tornou-se discurso escrito que, na solidão de quem escreve e de quem lê, permite a reflexão elaborada que ia fluência do falar não consegue. Mais do que na fala é na escrita que experimentamos a dificuldade em nos exprimirmos com rigor e clareza e nos descobrimos no nosso (não) saber. Quem aprende filosofia tem de passar, necessariamente, de uma forma consciente, por essa experiência. Experiência difícil nos tempos que correm pouco propícios à experiência do filosofar, dada a falta de vagar, a procura do espetacular e de distração incessante, da extensão do fast e do pronto a consumir, a todos os momentos da vida, das incontáveis solicitações exteriores, das novidades que, de tantas, já nenhuma nos provoca!. Por outro lado, os vícios adquiridos ao longo dos nove anos de vida escolar criam uma má disposição para a filosofia.

Porém, quando se têm jovens como os que fazem o presente trabalho é possível minimizar e ultrapassar as referidas dificuldades e ensaiar passos na aprendizagem do filosofar. Cada um, de acordo com os seus interesses e capacidades, com diferentes graus de envolvimento e de desempenho, como é natural. A esperança de um professor de filosofia é que todos aprendam a pensar melhor, a pensar diferente, de que encontrem uma estrada, um caminho ou uma simples vereda que os conduza, mais do que  ao conhecimento do mundo e dos outros, à descoberta de si mesmos. Como Platão nos ensinou (e nos continua a ensinar), aos aprendizes não lhe podemos dar os olhos mas podemos orientar-lhes o olhar: para ficarem confundidos, primeiro; para verem claro, depois. Talvez que alguns não cheguem a sair das trevas; talvez que outros, sentindo-se confusos, prefiram retornar à segurança que a ignorância proporciona; seguramente que alguns descobriram a luz, a sua luz.

 Partimos para este trabalho como uma necessidade de materializar na escrita alguns percursos, algumas ideias. Não é por se ter aprendido bem na catequese que se é um bom cristão; também não se é bom filósofo por se terem aprendido todos os conceitos. Por isso, lemos para aprender, escrevemos para aprender, ainda e sempre, na tentativa de nos experienciarmos a filosofar. Cada um saberá em que medida o conseguiu.

E tinha de haver, semprem uma aula Peripatética

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Leitura de Maio

julmar, 11.05.16

Uma questão que atravessa a história da filosofia é uma questão de ordem prática:Como devemos conduzir a nossa vida? Ou dito de outa maneira: Como ter uma vida boa? Ou, ainda, de modo mais comum como alcançar a felicidade?

A Filosofia ocidental, na qual me instruí, de pendor dominantemente racionalista, responde que tal implica uma definição do que é o bem e uma conduta racional para o atingir, quer se trate do "conhece-te a ti mesmo socrático", da ascese platónica ao mundo as Ideias, ou do imperativo categórico kanteano.

Ora, os filósofos chineses ensinam-nos caminhos que não passam por aí.

A ideia de um mundo fragmentado e imperfeito, a importância dos rituais, a importância das pequenas coisas, a cultura como uma construção, a imprevisibilidade são entre outras, ideias que há muito alimento.

E eu fico feliz quando encontro ideias que se opõem às minhas, ou divergem apenas, e, será, certamente, um caminho aberto à leitura dos filósofos apresentados pelo autor. 

Em jeito de conclusão, diz o autor

Neste mundo fraturado e fragmentado, compete-nos a nós criar ordem. Somos nós que construímos o e que lhe damos padrões, não vendo-nos livres das emoções humanas com que é difícil lidar, esta coisa confusa que nós somos, mas começando precisamente aí. E fazemos isto através da autocoltivação diária: esforçando-nos através dos nossos rituais para melhorarmos o modo como nos relacionamos com aqueles que no rodeiam; cultivando energias nos nossos corpos, para podermos viver com mais vitalidade; treinando os nossos corações e mentes para tomarmos decisões diárias de uma maneira poderosamente diferente; e resistindo à nossa tendência para nos esquivarmos à experiência, a fim de estarmos permanentemente recetivos a coisas novas.

 O processo de construir um mundo melhor nunca termina, porque as nossas tentativas de criar relações melhores nunca têm fim. Mas tal como aprendemos a melhorar as nossas relações, aprendemos a alterar situações e, dessa forma, a criar um número infinito de novos mundos. Abrir-nos-emos às possibilidades existentes nas ideias filosóficas, que indicam o caminho para uma vida boa.

Se o mundo está fragmentado, então dá-nos todas as oportunidades de construirmos o mundo de uma maneira nova. A começar pelas mais pequenas coisas da nossa vida diária, em que podemos alterar tudo. Se começarmos por aí, então está tudo na nossa mão.

A terra do Calhas

julmar, 09.05.16

Entre as palavras que definem a lusa gente, temos o verbo calhar. Às vezes vem mesmo a calhar por que se ajusta ao que era esperado, porque convém assim, porque encaixa como uma luva, porque chegou no momento próprio. Trata-se do Calhas em maré de sorte. Porque, por natureza, o Calhas umas vezes calha bem, outras vezes calha mal. Quando calha bem, diz-se ‘veio mesmo a calhar’; quando calha mal, é a vida. Mas o Calhas não tem origem, nem história, nem causa. Simplesmente acontece. Ele é um princípio básico do (des) conhecimento. É mesmo o contrário do princípio explicativo da realidade, isto é, do princípio de razão suficiente segundo o qual tudo o que acontece tem uma causa. Por isso, é um bom aliado do espírito preguiçoso que ‘deixa o marfim correr’, parente do ‘fia-te na virgem’. Mas, apara além de ser um princípio de conhecimento e aprendizagem ele é também um princípio de ação segundo o qual não é necessária preparação ou plano para atingir um objetivo, basta fazer ao calhas. Se calhar corre mal e ainda bem que não se investiu muito, senão o prejuízo seria maior. E até calha que às vezes o Calhas tem razão, porque até um relógio parado está certo duas vezes ao dia. E porque o calhas às vezes dá certo, depressa nos dão como incentivo empreendedor o conselho de ‘atirar o barro à parede’   Portugal é a terra do Calhas. Ele está entre nós, ele está dentro de nós. Bem que cada português podia acrescentar Calhas ao seu nome. Do Calhas é que depende tudo: do juiz que nos calha, do examinador que nos calha, do professor que nos calha, do médico que nos calha, do polícia que nos calha, da mulher/homem que nos calha. Até há quem defenda que o achamento do Brasil foi obra do Calhas e que a história de Portugal é quase no seu todo obra dele. A ser assim, deveríamos encontrar forma de o materializar e fazer um monumento em sua honra.

Apaixone-se!

julmar, 09.05.16

Apaixone-se. Apaixone-se por uma balada, por um poema, por uma flor, por um monumento, por uma paisagem, por um bicho, por uma mulher, por um homem. Mas nãose esqueça de pensar e não esqueça que a paixão é o estado em que mais vemos as coisas da maneira como não são.

Sabia que as ideias mais comuns são ideias falsas?

julmar, 06.05.16

Pode ser um pouco assustador aceitar a ideia de que as ideias mais comuns são ideias falsas. O que nos permite  afirmar a falsidade dessas ideias é uma forma de conhecimento diferente: o conhecimento científico. Como se trata de um tipo de conhecimento recente na história da humanidade e porque aquelas ideias desempenham um papel fundamental nas crenças e na visão do mundo elas continuam dominantes e a ser transmitidas de geração em geração. Além disso, essas ideias respondem muito eficazmente a questões fundamentais para o homem, nomeadamente as ligadas à religião que, nas palavras de Hegel, «é a filosofia dos ignorantes». Por outro lado, as ideias científicas contradizem, muitas vezes a nossa experiência comum: o que nos é familiar e evidente, por exemplo, a ideia de que o sol gira à volta da terra. Até há pouco tempo a vida dos homens não dependeu do verdade das ideias. Ideias falsas podem até ser extremamente eficazes, como se comprova pela historia. Porém, cada vez mais, a sobrevivência da humanidade estará dependente da verdade do conhecimento científico, sendo já indispensável à sua sobrevivência. Estaremos, por boa ventura, no início de um novo iluminismo.

Até hoje, a religião foi o principal travão ao desenvolvimento da ciência. É inerente ao espírito cienrífico uma atitude de crítica, de dúvida, de tolerância e de humildade que lhe permitirá, num espírito evangélico, fazer bem a quem lhe fez mal.