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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

A primeira leitura do ano

julmar, 25.01.16

Passamos a vida a ler. Uns de uma maneira, outros de outra maneira. A minha avó que não andou na escola leu à maneira dela, o suficiente para me ter transmitido um legado de como devemos ler o mundo. Uma leitura sem letras. Desgostou-se por não poder ter lido o mundo da maneira que outros o leram - com letras. Por isso, quando eu quis ir para a universidade e não tinha dinheiro para isso ela, prontamente, mo emprestou. Para que eu pudesse ter uma leitura do mundo que ela não teve porque acreditava que quem lesse o mundo através das letras haveria de ter uma vida mais grata, mais cómoda. Uma vida melhor, talvez, mesmo uma vida boa. Sem esse entendimento da minha avó, nunca teria lido lido Homero, Cícero, Aristóteles, Descartes, Kant, Nietzsche ... e nunca teria lido o Torcicogologista de Gonçal M. Tavares que ainda dará muito que falar.

A Poesia não vai à missa

julmar, 11.01.16

            A POESIA NÃO VAI

 

A poesia não vai à missa,

não obedece ao sino da paróquia,

prefere atiçar os seus cães

às pernas de deus e dos cobradores

de impostos.

Língua de fogo do não, caminho estreito

e surdo da abdicação, a poesia

é uma espécie de animal

no escuro recusando a mão

que o chama.

Animal solitário, às vezes

irónico, às vezes amável,

quase sempre paciente e sem piedade.

A poesia adora

andar descalça nas areias do verão.

 

            Eugénio de Andrade - O sal da Língua

Rótulos assassinos - Oligofrenia

julmar, 07.01.16

Felizmente era um termo difícil e nem a aluna nem sua mãe o entendiam. Ali estava o atestado sobre a mesa, em papel azul de vinte e cinco linhas , suporte que a burocracia exigia, onde o médico, por sua honra, atestava que a Elisa sofria de oligofrenia. Porque a Elisa era nervosa, porque a Elisa não acompanhava as aprendizagens,  porque os professores em Conselho de Turma, acharam que a Elisa tinha dificuldades e que devia ser sinalizada para o Ensino Especial Integrado. Para isso a Elisa precisava de um atestado médico. E o médico atestou que a Elisa era oligofrénica.
Telefonei ao médico e perguntei-lhe como tinha chegado áquela conclusão. O médico ficou ofendido.
- O senhor está a pôr em causa a minha competência? 
E eu que não, que apenas queria compreender como chegara a tal conclusão. Rasguei o papel. Apoiei como pude a Elisa cujo ambiente familiar a fazia sofrer gravemente. Passados alguns anos encontrei a Elisa numa escola e era uma professora igual a outras. Felizmente nunca soube o que oligofrenia queria dizer.

Chegou a factura

julmar, 07.01.16

Mais uma coisa inútil trazida de cadernos onde se faziam anotações e textos sem tom nem som, para resistir à inutilidades, vulgaridades, banalidades e conversas da treta de gente ministerial que explicava medidas educativas e paradigmas que haviam de trazer o sucesso aos alunos, o bem estar aos professores e a riqueza à nação.

Podemos dizer que a escola mudou. Podemos dizer que a escola não mudou. Para uma e outra proposição se podem arranjar razões válidas. A escola mudou pelas boas intenções dos políticos que quiseram tornar a educação universal e obrigatória. Primeiro a terceira classe, depois a quarta classe, depois o 6º ano; depois 15 anos (nono ano, se possível); finalmente 18 anos ( 12º ano, se possível). A ideia subjacente é a de que os cidadãos educados e instruídos serão melhores cidadãos e que a desigualdade social e económica se dissipará, numa igualdade de oportunidades assim oferecida. Bem cedo se verificou que a igualdade de  oportunidade de acesso não se traduzia numa oportunidade de sucesso. Bem cedo se verificou que para o conseguir eram necessárias medidas de apoio que cedo se verificou resultarem em nada; procurou-se simplificar os curriculos, acabar com exames (introduzir a avaliação contínua, privilegiar os processos, o esforço em vez dos resultados, introduzir escalas curtas onde as diferenças se esbatessem, diminuir o grau de exigência, aumentar os apoios pedagógicos acrescidos, estabelecer planos de recuperacão, delinear territórios educativos de intervenção prioritária com equipas multidisciplinares; à medida que os alunos iam aprendendo cada vez menos, iam-se comportando cada vez pior e na mesma medida os professores desistiam cada vez mais de ensinar para cada vez mais os tentar fazer aceitar regras e disciplina. Ate que se chegou a uma descoberta muito importante: os meninos portam-se mal, não sabem como estudar e é necessário que aprendam não porque os professores ensinam mas porque imaginativa e cooperativamente são capazes de construir o próprio saber e daí a legislar em conformidade foi um breve passo. E sai a trindade que milagrosamente há-de resolver, de uma assanhada, o problema dos insucedidos e dos indisciplinados: Educação Cívica, Estudo Acompanhado e Área de Projecto. E começou a proclamar-se "se não conseguimos tirá-los da ingorância, conseguiremos torná-los em obedientes cidadãos". E qualquer professor ainda que incompetente para atingir os objectivos na matéria da sua especialidade com os alunos, era considerado competente para os atingir na matèria para que nunca havia sido ensinado, no pressuposto de que na  universidade da vida e onde se treinam a cidadania, a estratégia e a criatividade. Mesmo que, na prática, se não cumpra o dever, se ignore o método científico e o projecto não ultrapassa o jogo do fim de semana. E sempre na conveniência da confeccional alfaiataria dos horários
e de que se se é professor se tem, por inerência, competência nas referidas áreas.
Parece elementar que o professor de cada matéria escolar ao ensiná-lá de maneira explícita ou não conduza o aluno ao método adequado da sua apreensão e domínio. Como poderei ensinar filosofia sem ao fazê-ló mostrar como se estuda? Como se pode separar o método e as técnicas de estudo sem ser a estudar alguma coisa? Como ensinar o caminho sem definição de aonde se quer chegar?
De igual modo a Formação Cívica. Há coisas que se aprendem mas não se ensinam formalmente. Não se ensinam em sala de aula.