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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Última leitura de 2015

julmar, 29.12.15

Ao fechar de 2015 uma leitura imprevista, feita quase de um fôlego. A chuva e o frio convidam à leitura que é uma interessante forma de viajar, sobretudo quando o autor, como é o caso, nos conta sucessivas histórias que nos dão conta da mais recente história da Europa, centradas na crise islandesa, grega e irlandesa.

Leituras de 2015

julmar, 25.12.15

Caminhando a passos largos para o fim de 2015, é altura de começar a fazer balanços. Desse balanço faz parte o rol de leituras. Para além da habitual do Expresso e do Jornal de Letras, em suporte digital, e de outas leituras avulsas, a lista de livros:

  1. Sons e silêncios da Paisagem sonora portuguesa, Augusto, Carlos Alberto, FFMS
  2. As Portas da Percepção. Huxley – antígona
  3. Pseudociência, Marçal, David, FFMS
  4. Deus não é grande, Como a religião envenena tudo - Hitchens, Christopher
  5. Se isto é um homem – Levi. Primo
  6. Não se encontra o que se procura – Tavares, Miguel de Sousa
  7. História da Rebolosa – Pinheiro, Bernardino
  8. O Direito de Sonhar, Bachelard Gaston
  9. Escuta Zé Ninguém – Reich, Whilielm
  10. As Inovações Que mudaram a História – Steven, Johnson
  11. Em teu Ventre - Peixoto, José Luís
  12. A Origem das Espécies – Darwin, Charles
  13. Mar Azul, Anónimo
  14. Boomerang - Uma viagem pela Europa, o novo Terceiro Mundo - Lewis, Michael
  15. História dos Reis de Portugal, Vol.1                                                                                                                            O melhor, em ficção, foi, sem dúvida, Em teu Ventre, de José Luís Peixoto. Em não ficção, saliento Se Isto é um homem, de Primo Levi e A Origem das Espécies, de Charles Darwin. O Direito de Sonhar, de G. Bachelard é uma releitura e, provavelmente, voltarei a lê-lo uma vez mais.

Feliz Natal

julmar, 24.12.15

presep julio.jpgVezes sem conta me dizia a Teresa, do alto da sua militante criatividade, das incontáveis aplicações das paletes. E,chegado o natal, que é ele todo um princípio de tudo e como todos os princípios, puro e cagulado de inocência, botei-me, como criança a brincar. Fui á antiga manjedoura e recolhi a palha que meu pai tratou e ceifou há mais de cinquenta anos - meu menino Jesus, onde vai a minha meninice! - e, rebuscando pelos cantos da casa, lá foram aparecendo o burro e a vaca, S. José, Nossa Senhora e o Deus menino e umas bolinhas,que penduradas num pinheiro dos verdadeiros, mais uma estrela e um anjo resultou num quadro que reconta uma das mais maravilhosas histórias do homem.  

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.

A aula: perpetuação do mito da caverna?

julmar, 09.12.15

Resultado de imagem para uma caverna de Platão

 Provavelmente nunca a filosofia floresceu e teve a vitalidade dos primeiros filósofos gregos. Nela se sente a originalidade de quem não recorre a um passado para se justificar. O "logos" não havia ainda ganho o domínio e a unidade e diversidade coexistiam dialéticamente.

Com Platão a filosofia institucionaliza-se, sistematiza-se, cristaliza-se, escreve-se, sedentariza-se.

Sócrates filosofava na rua, na praça, não escolhia lugar. Com Platão a filosofia passa a ter um lugar próprio - A Academia, a Escola.

Sócrates não escolhia auditório: partia do princípio de que todo o homem é filósofo, que qualquer um pode encontrar a verdade. Platão divide os homens em categorias, impõe condições para entrar na academia: " Proibida a entrada a quem não souber matemática”: propedêutica obrigatória, a seleção começava. Sócrates interrogava, Platão ensinava. Passa-se de um saber constituinte a umo saber constituído. Dá-se a cristalização do saber.

Com a morte de Sócrates que será apenas a primeira,a  filosofia sedentariza-se. A polis não suportava um saber que não podia controlar.

A filosofia de Sócrates era de crítica às instituições. Platão tentará colocar filosofia ao serviço da instituição. O filósofo deixará de assumir consciência crítica e passará a ser um funcionário da instituição e pago por ela.

E o mito da caverna vingou. No ensino também. O contacto directo com a vida e seus problemas deixou de existir. E todos os aprendizes de filósofo entram na caverna: "estão lá dentro desde infância, algemados de perdas e pescoço, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões”.

Em frente, em cima do estrado, o professor faz passar as imagens sonoras, por vezes visuais. Essas imagens não são as próprias coisas mas tomam-nas como tais. Um ensino livresco, divorciado da realidade.

«… se eles fossem capazes de conversar uns com os outros que te parece, achas que eles julgaríamos estar a nomear objetos reais, quando designavam apenas as sombras que viam? " Ensino nominalista. «Considera depois, como reagiriam se fossem soltos das cadeias ". Saídos da caverna, ficarão deslumbrados por não ver ligação entre o que aprenderam e a vida real. Ou talvez não.

Poderá parecer um pouco  caricatural a analgia estabelecida, mas não deixará contudo de traduzir muito do que  se passa hoje na sala de aula. Aliás, este mito, tão simbolicamente rico, não deixa de traduzir, num contexto mais vasto, a vida da civilização ocidental.

O professor, único que viveu no mundo das ideias (ou que conhece melhor o jogo das cavernas?) regressa à caverna e compete-lhe, agora, conduzir os outros através de uma ascese a esse mesmo mundo. Nem todos o conseguem. Os que o conseguirem serão, no entanto, o reis, os guardas da cidade. Os outros que não se purificaram da ignorância serão os súbditos.

O Mito surtiu efeito. Se não é a cidade ideal que foi construída dela se aproxima em muitos aspetos. Por isso, é um erro considerar Platão como um político frustrado. Platão continua vivo.

Somos habitantes da caverna, seus prisioneiros e não sabemos onde se encontra a porta. Se a encontrarmos de pouco vale pois quem tentar dirigir-se para ela será tratado de parvo ou criminoso. Todos dizem mal da prisão mas detestam sair dela. Nascemos nela e a ela nos habituámos.

Pedagogicamente, os conservadores procuram manter as leis e regras que tornam possível a vida na caverna. Os progressistas pretendem decorá-la, adorná-la, reivindicam mais conforto e liberdade para nela viver.

(Extrato do trabalho de estágio, Escola Seundária Infanta D. Maria, Coimbra, 1980)

Pessoas e lugares da minha vida - A minha manhã submersa 3

julmar, 09.12.15

Beja 5º ano.jpg

Da esquerda para a direita, na 1ª fila: o Pires, o Cardoso - com corpo a mais para a idade - , o Brazinha - de alcunha que não recordo o nome, o Zé Alberto - colega de seminário, faculdade e profissaõ, o Peralta - o nosso mentor -, o Moreira, uma vocação tardia.

Continuando da esquerda para, na 2ª fila: o Amaral - colega de seminário, faculdade e profissão, o Nunes, o Armindo, o Finote, o Mascarenhas, o Júlio e o Daniel. Dos cerca de quarenta que entraram comigo no seminário apenas ali estão quatro. Os outros, entraram antes e reprovaram, esperando por nós. O seminário tinha deixado de ter os que entravam em Filosofia e, por isso, nós éramos, agora, os mais velhos. Terminado o 5º ano mandaram-nos para o Seminário Maior de Évora onde as novas do Concílio do Vaticano II não haviam chegado. Era tudo muito escuro e nós já havíamos encontrado a luz , nós destoávamos naquele alinhamento de corvos recitando laudes, ladaínhas e jaculatórias. Um ano letivo, apenas um. No seguinte enviaram-nos para o Seminário Maior de Coimbra, talvez com luz a mais, acabámos por nos queimar.

Pessoas e lugares da minha vida - A minha manhã submersa I

julmar, 03.12.15

Beja Retiro.jpg

Eu sou aquele  ali, tão longe de imaginar que eu o estaria ver daqui num espaço e num tempo tão diferente. O velho a olhar o menino e todos os seus colegas que agora serão velhos também. Sim, lá está o Veríssimo, o Sérgio, o França, o Amaral da Mizarela mais o sobrinho tão pequenino como ele, o Manel de Jesus do Safurdão que um dia se meteu de bicicleta e me foi visitar à Vila; O Zé Vaz do Escabralhado; o Sérgio, o Pires, o Armindo, o Egídio o único que se ordenou padre; o Carriço, O Cabanas de Alvito,o Sebastião, o Alexandre Araújo, meu conterrâneo; O Zé Alberto, o Coelho, o Dias, o Vilaça, o Gomes, o Amaro, o Rico, o Ferraz, o Finote, o Lucas. Reconheço todos os rostos, o lugar de onde vieram, as suas habilidades, jeitos e feitios e, com tempo, escreveria o nome de todos. Todos de pescoço apertado com gravata que mais tarde haveria de ser com cabeção se não se desviassem do caminho do Senhor. Retiro: oração, pregação, meditação, silêncio. Três dias sem abrir o bico porque Deus só se ouve no silêncio. O menino ouvia a pregação, tentava meditar mas o espírito esgueirava-se para assuntos mundanos e banais; às vezes fugia para casa dos pais, ouvia a voz da mãe: «É bom ires para o seminário, livras-te deste inferno de trabalhos, vais ter uma vida muito bonita».De repente, acordava à voz do padre Aparício: «Muitos são os chamados e poucos os escolhidos». E o menino, aos poucos, ia perdendo aos poucos a alegria que o fazia assobiar e cantar e sonhar.