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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Leitura de Novembro

julmar, 24.11.15

Atrevo-me a dizer que José Luís Peixoto é o melhor escritor da atualidade. Já José Saramago se surpreendera com a sua escrita quando afirmou, a ele que tarde se tornou escritor, que lhe fazia inveja como gente tão nova escvrevia tão bem. José Luís Peixoto faz lembrar muito o estilo de Saramago e as próprias temáticas e seu desenvolvimento são muito semelhantes. Para quem gosta de literatura no seu sentido mais estrito, este é um escritor incontornável.

E escreve como um deus, como o deus bíblico:

Para oferecer conforto rudimentar, retirei peso às palavras e ás ações.

O conhecimento completo emudece as palavras e tolhe as ações.

O absoluto é um fardo insuportável.

A irresponsabilidade faz tanta falta como a responsabilidade,

Cada um tem a sua hora,

Os sábios usam-nas ao mesmo tempo, mais de uma ou mais de outra,

Os sábios conseguem distinguir as ocasiões e as medidas,

E não duvidam que precisam de uma e de outra.

(pg. 135)

 

A raiz do extremismo

julmar, 18.11.15

Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz. Porém, se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em absoluta escuridão. Por isso, se a luz que está em ti são trevas, quão tremendas são essas trevas!. Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro. (S. Mateus,cap. 6; vs-22, 23)

Difícil é suportar a dúvida, a incerteza, a insegurança, a relatividade que é aquilo de que  o nosso mundo é feito. Por isso, o homem inventou os deuses, primeiro, e, descontente com a falta de entendimento entre eles, inventou Deus, a seguir. Finalmente, sabemos o caminho, a verdade e a vida, revelada na palavra de Deus aos homens. Quem acreditar nela será salvo. Porém, Deus terá escrito vários livros, ou o mesmo livro é entendido diferentemente e a vontade do Senhor não é clara: Que senhor deve ser amado, que senhor deve ser odiado? 

 A doutrinação do amor e do ódio leva à guerra.

Urge educar o olhar. O meu, o teu olhar não é sempre bom, não é sempre mau; hoje vê de um modo e amanhã vê de um modo diferente. Agrada-me que assim seja. 

Urge a implementação de uma cultura laica e de um espírito científico que leve o homem a aceitar-se naquilo que ele é incluiso o seu desejo e capacidade de melhorar. O mundo é feito de luz, de sombra e de escuridão. Por isso, é tão belo!

Sabe o que é a Tolerância?

julmar, 16.11.15

No âmbito da disciplina Metodologia do trabalho Científico, no 1º ano do Curso de Filosofia, com o excelente professor Júlio Fragata, escolhi, entre muitas outras, para trabalho escrito a CARTA ACERCA DA TOLERÂNCIA John Locke (1632-1704). 

No Facebook, por onde passa de tudo, encontrei um amigo do Facebook que, dada a formação académica que tem, seria de supor não alinhar com o pensamento fácil que é todo feito da preguiça própria do lugar comum. Lamentava-se essa alma que o mal do Ocidente se devia a ser demasiado tolerante. Como se uma coisa boa deixasse de ser boa por ser excessivamente boa. As perguntas são úteis porque medem o nosso saber e, se formos, diligentes pomo-nos a caminho à procura de respostas. O que é a Tolerância? E, então, o Ocidente tem sido demasiado tolerante?

 

 

Fábricas de terroristas

julmar, 16.11.15

A leitura é a forma que encontramos de fugir à vulgaridade da palavra: A palavra escrita tem um modo diferente de dizer, tem um tempo diferente para ser compreendida. A palavra escrita resulta de um esforço de especulação, de organização e de selecão. Quer sempre o escrevente dar-nos o melhor fruto do seu trabalho. E, deste modo, conseguimos conversar com os melhores recolhendo o melhor do seu saber e da sua experiência. 

Das múltiplas crónicas, a maior parte sobre a África e Angola, em particular, pelo momento que vivemos, chamou-nos especialmente a atenção a crónica: FÁBRICA DE TERRORISTAS

Lembrando-nos o autor o espantoso romance, An Act of Terror, do grande escritor sul-africano André  Brink em que se conta a história de um jovem, de origem bóer e como esse jovem ganha consciência política e se comprommete na luta contra o apartheid vigente na África do Sul. Vê os seus amigos abatidos, um a um, pelos serviços secretos e acba por cometer um atentado, considerado um ato terrorista. Parece depreender-se do romance que a sociedade e o Estado criavam as condições para que as pessoas, impotentes para mudarem as condições de existência, cometessem atos desesperados. 

Há muitas vezes, a tentação imediata, sobretudo no rescaldo de situações tão bárbaras como a últma que aconteceu em Paris, de muitos acharem que quem tenta analisar e compreender estes fenómenos, está a aceitar tais atos. Certo é que, ao agir de forma irracional o fenómeno só tenderá a agravar-se.

«... Mas entendo as razões que levam pessoas a cometerem esses atos enlouquecidos de terror. E os donos da fábrica, felizes com o resultado da sua iniciativa, mas  de ar compungido, apontam depois o dedo, vejam, são terroristas, põem bombas em autocarros, deixam-se explodir à frente de restaurantes. Sim é uma forma errada de lutar contra a injustiça e a opressão. Mas quem os leva a isso?»

Quem acabou com a autoridade do Estado em zonas do Norte de África e Médio-Oriente, a troco de quê? Não é só a Natureza que tem horror ao vazio, a Sociedade também.

«DE vez em quando o terrorismo ataca no quintal da fábrica e é um vendaval de lamentos, ameaças furiosas, bombardeamentos de retaliação, criação de alianças espúrias. Curiosamente, os donos das fábricas de terroristas não movem umde do contra as ditaduras medievais da Aràbia Saudita, do Bahren ou do Qatar. Por também serem fábricas de terroristas? Os semelhantes reconhecem-se e protegem-se, é conhecido. E nós temos de aguentar com as imagens de destruições de um lado e do outro e com a selvajaria dos Actos de Terror».

  

Aos pregadores do bom senso

julmar, 12.11.15

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que têm. Assim, não é verossímil que todos se enganem; mas, pelo contrário, isso demonstra que o poder de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina de bom senso ou razão, é por natureza igual em todos os homens; e, portanto, que a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais razoáveis que os outros, mas somente que conduzimos nossos pensamentos por diversas vias, e não consideramos as mesmas coisas. Pois não basta ter o espírito bom, mas o principal é aplica-lo bem.

(Discurso do Método, R. Descartes)

O texto que acabou de ler é o início de uma pequenina obra, dividida em seis partes e que se destinava a ser o prefácio de uma obra grande, designada O Mundo, e que mandou o bom senso e a prudência que não fosse publicada, pois, estava na memória de todos a condenação de Galileu pela mão sinistra da Inquisição. Descartes amava mais a luz que emana da verdade do que a luz que o projetasse para as bocas do mundo, para a fama. Foi, em parte isso, que o levou ao exílio forçado para a Holanda, onde mais livre e tranquilamente, numa rua de talhantes e  magarefes, poderia levar a cabo o projeto a que decidira dedicar a sua vida. Leu e levou a sério o conselho de Ovídio «Bene vixit, qui bene latuit» , bem viveu, aquele que bem se escondeu. 

Pela enésima vez, folheio este pequenino livro, e, de cada vez, encontro a claridade que falta no caminho da densidade sombria dos tempos que vivemos. A tecnologia permitiu subir a intensidade do som, levar a mensagens a todos os lados, permitiu a todos não só o acesso à informação mas até a sua produção e difusão e fazer de qualquer insignificante fenómeno o centro das atenções. Ser ouvido, ser visto tornou-se o grande desiderato do zé ninguém que nada é, do zé ninguém que pensa ser um super qualquer coisa. Toda a gente sabe, toda a gente quer mostrar que sabe e, mais, que o seu saber, apenas seu, julga dever ser o verdadeiro.saber. 

Então, não seria útil aos comentadores, incluindo aquele que é (foi) o decano dos comentadores da televisão lerem esta meia dúzia de linhas? E se o relessem e sobre ele refletissem, será que continuariam a fazer o que fazem do modo que o fazem? Tanta fanfarronice!  Como é que alguém que afirma que é a sua opinião, afirme simultâneamente que é verdadeira? Então, agora passou a haver opiniões verdadeiras? 

Nada me agita tanto cá por dentro como os apelos ao bom senso. É um dos lugares da preguiça, como o são todos os lugares comuns: Quando se não sabe o que fazer porque não se estudou, não se trabalhou apela-se ao bom senso o que é uma estultícia porquanto como nos diz Descartes ele está lá de forma natural. O que dá trabalho não é ter bom senso mas sim o modo como o aplicamos: «Não basta ter o espírito bom, mas o principal é aplicá-lo bem» Mas claro, isso requer trabalho. E recolhimento para nos encontrarmos connosco na nossa intimidade. Ora, para muitos seria como entrarem numa casa vazia, ou então numa casa muito desarrumada. Por isso, há que viver fora com luzes ofuscantes e sons muito altos. Sou visto, sou ouvido, logo existo.

The show must go on!