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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

O Direito de Sonhar, Gaston Bachelard

julmar, 29.09.15

Quem ama a pintura bem sabe que a pintura é uma fonte de palavras, uma fonte de poemas.

Há livros que são como algumas pinturas - ao olhar de novo para elas, encontramos sempre algo que não nos aperceberamos, encontramos, de cada vez, um prazer maior. Há livros que não são para ler mas para reler. São como músicas que contamos voltar a ouvir: sempre,  uma vez mais. 

Há muito que Bachelard me inspirava de modo diferente de todos os outros filósofos; há muito que me sentia reconhecido por me ter proporcionado aprender um discurso diferente sobre o mundo e a descodificar os discursos que sobre o mundo se fizeram; há muito que eu suspeitava que a poesia e a filosofia sondavam a mesma realidade, suspeita tornada certeza com a leitura de Bachelard. Por isso, decidi que ele é o filósofo da minha vida, o primeiro da minha lista, no momento em que releio “O Direito de Sonhar”e descubro tudo isso nas suas próprias palavras.

Assim, ao contemplar as gravuras de Flocon, um filósofo não apenas se conta histórias, mas se compraz ao  admirar nelas uma filosofia ilustrada. Então, ao trabalho! Em muitas pranchas Flocon talha, lajeia, Flocon monta andaimes. Um dia lhe pedi uma cela de filósofo — e ele me fez um escritório de arquiteto. Ele crê — não está tão errado — que pensar é construir. Crê que gravar é construir. Sabe o que é um tempo que trabalha e um espaço que é trabalhado. Gosta de apreender oinstante da construção, em que a construção vai completar o projeto. É muito normal que tenha a impaciência do trabalhador, que "projete"' então um "castelo na Espanha'*.

Eleições à porta - Releitura de "Escuta, Zé Ninguém"

julmar, 24.09.15

Corria o verão quente de 1975 e a minha amiga Luísa Celisa, revolucionária da FEC-ML, levou-me à leitura desta obra de leitura obrigatória para a esquerda política de então.

Voltei de novo e o Zé Ninguém está como sempre esteve, quase me apetece dizer que está pior.  Se não leu é muito aconselhável que o faça antes de votar. 

Oh as casas as casas as casas Ruy Belo

julmar, 16.09.15
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
ela morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas