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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Sapere aude!

julmar, 16.02.15

É verdade que a Filosofia e, sobretudo, a ciência, são ainda crianças, quando comparadas com o pensamento mágico e com as crenças religiosas. Porém, em defesa de uma ética laica e de uma humanidade mais saudável e mais feliz, urge fazer a apologia da razão e a divulgação do conhecimento científico. A evidência do que a ciência faz por si está na televisão que vê, na música que ouve, no medicamento que vai tomar a seguir ao almoço, no Skype que o liga a todo mundo, no telemóvel que não dispensa, na porta que se abre quando se aproxima ... Estamos rodeados de produtos da ciência e da tecnolgia por todo lado. Nunca religião alguma fez tantos milagres. Pena que os alunos saiam da escola, por vezes, da Universidade e não tenham tido jamais um encontro autêntico com o prazer de pensar, um encontro com o prazer de entender, por dentro, o espírito científico. 

Continuamos a fazer orelhas moucas ao apelo do expoente máximo do Iluminismo, I. Kant (1724-1804): Sapere aude!, ousa saber

Marranos, maçónicos e comunistas em Vilar Maior

julmar, 14.02.15

No tempo em que quase todas as famílias matavam um marrano, até `diáspora das décadas de 60 e 70 do século passado, havia na mentalidade comum da vila uma forte reprovação, anátema mesmo, sobre os judeus por terem matado Cristo, sobre os maçónicos que aqui terão chegado com as ideias liberais da Revolução Francesa, e, por último, os comunistas.

Os judeus tornaram-se os bodes expiatórios - todas as religiões têm os seus bodes expiatórios - de todos os males que a humanidade sofria, tudo culpa dos judeus. Aqui na vila, onde existiu uma comunidade - tinha mesmo um lugar de culto - originada da chegada de judeus expulsos de Espanha, corría o final do século XVI. Se não chovia a culpa era dos judeus, se havia inundações a culpa era dos judeus, se graçava doença, se as colheitas mingavam, se o gado morria ... era culpa dos judeus. Se alguém cometia um ato bárbaro, era uma judiaria.  Depois dos reis católicos de Espanha, também o nosso rei D. Manuel ordenou que todo o judeu que não se convertesse ao cristianismo lhe fossem confiscados os bens e fosse expulso. A Inquisição encarregou-se de avaliar a sinceridade dos novos conversos - os marranos - e de vigiar os seus hábitos, nomeadamente se se continuavam a abster de carne de porco. Ora os católicos consideravam esta gente tão suja que os designava como marranos. Por isso, o porco aqui não era porco mas marrano. Se alguém não cumpria os preceitos da Igreja, se alguém não cumpria com obrigações ou se, simplesmente, fazia um trabalho mal feito (uma marranada), era vituperado como marrano. Naturalmente, porque aqui viveram e se multiplicaram, muitos de nós seremos descendentes de marranos. Ao contrário da maçonaria e do comunismo, o marranismo foi experienciado, vivido e praticado aqui. O Estado Novo, em aliança com a Igreja católica, tomaram como missão combater o comunismo e os comunistas, sendo que bastava não participar nas cerimónias da Igreja, ou não estar de acordo com o regime para que fosse apontado como comunista - uma espécie diabólica. Mas Aparições de Fátima, um pedido da senhora era rezar pela conversão da Rússia.A reza diária do terço, havia uma oração pela conversão da Rússia. Tiveram êxito as orações? Bom, a Rússia não se converteu, porém, já não é comunista.

Leituras que dão que pensar

julmar, 12.02.15

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Há muitos tipos de leituras. A maior parte das que fazemos são leituras de confirmação em que nos revemos nas nossas crenças, nas nossas opiniões. Durante muito tempo até foram as únicas que me eram permitidas. As outras eram proibidas e como proibidas lembro-me de ter lido, entre outras, La Nausée de Jean Paul Sartre e o Manifesto do Partido Comunista. O pensamento único, laico ou religioso, sempre obstaculizou  o exercício livre do pensamento e a sua expressão. A presente leitura foi para mim uma leitura confirmatória e, ao mesmo tempo, inquietante. Porque, muitas vezes, uso a estratégia de assobiar para o lado. -Ah, mas isso é falta de coragem! - Pois é.

«Pergunto a mim mesmo porque existe uma diferença verdadeira e séria entre mim e os meus amigos religiosos e os amigos verdadeiros e sérios são suficientemente honestos para admitir isso. Eu contentar-me-ia em ir ao bar mitzvahs dos seus filhos , em maravilhar-me com as suas catedrais góticas, em 'respeitar' a sua crença de que o Alcorão foi ditado, ainda que exclusivamente em árabe, a um mercador analfabeto, ou em interessar-me pelos consolos wicca, induístas e jaínistas. E parece-me que continuarei a agir desta forma sem insistir na delicada condição recíproca - que é a de que, como consequência, me deixem em paz. Porém, no fundo, a religião é incapaz de fazer isto. Enquanto escrevo estas palavras, e quando os leitores as estiverem a ler, pessoas de fé estarão de maneiras diferentes a planear a vossa e minha destruição, e a destruição de todos os êxitos humanos conseguidos à custa de duras penas a que aludi. A religião envenena tudo

Macaco salva amigo eletrocutado

julmar, 06.02.15

Precisamos de começar a ter um olhar diferente

http://www.youtube.com/watch?v=WXjB-7Yjanc

Foi no passado sábado, em Kanpur, na Índia. Numa estação de comboios um macaco cai eletrocutado e fica inconsciente, talvez moribundo. De imediato um outro macaco aproxima-se e começa a fazer tudo para o reanimar. Morde-o. Atira-o ao ar. Mergulha-o em água. Insiste, insiste, até que uns 20 minutos depois o outro macaco começa a dar sinais de vida. Tudo perante o olhar de dezenas de passageiros que estavam nas plataformas e não se aproximaram.

Ouvindo Paulo de Tarso

julmar, 02.02.15

Das coisas mais acertadas que li em S. Paulo, que faço por ter em mente

Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente.

S. Paulo aos Filipenses (cap. 4, versículo 8)

Leitura obrigatória

julmar, 02.02.15

Agradecia que alguém mo tivesse dito: que há livros de leitura obrigatória e que este é um deles. Porque há coisas que é melhor aprender nos livros,  nos livros apenas. Pensamos que o impossível não pode ter lugar e, no entanto, ele está sempre a acontecer. A caverna descrita por Platão é muito mais real do que imaginamos. A naturaza do homem é o que sempre foi. O que está acontecer na Europa - o norte contra o sul - devia pôr-nos em estado de alerta. A resignação e submissão dos portugueses é muito preocupante. Segue um extrato do capítulo

Sucumbir ou salvar-se

(...) Queríamos levar o leitor a considerar como o Lager foi também, e em notável medida, uma gigantesca experiência biológica e social.

Fechem-se entre arames farpados milhares de indivíduos diferentes em idade, condição, origem língua, cultura e hábitos, e obriguem-se, nesse lugar, a um regime de vida constante, controlável, idêntico para todos e abaixo de todas as necessidades; é quanto de mais rigoroso um experimentador poderia instituir para estabelecer o que é essencial e o que é adquirido no comportamento do animal-homem perante a luta pela vida.

Não acreditamos na dedução mais fácil e óbvia: que o homem é fundamentalmente brutal, egoísta e estulto na sua maneira de atuar, quando todas as superestruturas civis lhe são tiradas, e que o "Haftling" seria, portanto, o homem sem inibições. Julgamos, pelo contrário, que, em relação a isso, nada mais se pode concluir, a não ser que, diante da carência e do mal-estar físicos obsessivos, muitos hábitos e muitos instintos sociais ficam completamente silenciados.

Parece-me, no entanto, digno de atenção este facto: verifica-se que existem entre os homens duas classes bem distintas: os que se salvam e os que sucumbem. Outros pares de contrários ( os bons e os maus, os sensatos e os insensatos, os cobardes e os corajosos, os desgraçados e os afortunados) são muito menos nítidos, parecem menos congénitos e, sobretudo, admitem graduações intermédias mais numerosas e complexas.

Esta divisão é muito menos evidente na vida comum: aí não é frequente acontecer que um homem se perca, pois normalmente o homem não está só, e no seu subir e descer, está ligado ao destino dos que o rodeiam; pelo que só excepcionalmente acontece que alguém cresça sem limites, ou desça derrota após derrota até à ruína. Mais, cada um possui habitualmente recursos, espirituais, físicos e também económicos, capazes de tornar ainda menos provável a eventualidade de um naufrágio, de uma carência perante a vida. Acrescente-se afinada que uma sensível ação de amortecimento é exercida pela lei e pelo sentido moral, que é a lei interior; de facto, considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficientes são as leis que impedem ao miserável ser demasiado miserável, e ao poderoso ser demasiado poderoso.

Mas no Lager tudo acontece de outra forma: aqui, a luta para viver é uma remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só. Se um Null Achtzehn qualquer vacilar, não encontrará quem lhe estenda uma mão, mas sim alguém que o deitará abaixo, pois ninguém estará interessado que um "muçulmano"(com esta palavra, ignoro porquê, os velhos do campo designam os fracos, os ineptos, os votados à selecção) a mais se arraste todos os dias para o trabalho; e se alguém, com um milagre de paciência selvagem e astúcia, encontrar uma nova combinação para escapar ao trabalho mais duro, uma nova artimanha que lhe proporcione algumas gramas de pão, procurará manter secreta a forma como o conseguiu, e por isso será estimado e respeitado, e tirará um lucro exclusivo e pessoal; tornar-se-á mais forte, os outros terão medo dele e, por isso mesmo, será um candidato à sobrevivência.

Na história e na vida, parece às vezes vislumbrar-seuma lei feroz, segundo a qual «dar-se-á a quem tiver; tirar-se-á a quem não tiver» No Lager, onde o homem esá só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser de quase-camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde algum proveito. Mas aos “muçulmanos”, aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir  a palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam comer em casa. Muito menos vale a pena ser-se amigo deles, pois não têm conhecimentos importantes no campo, não comem nada extra-ração, não trabalham em Komandos vantajosos e não conhecem nenhuma forma secreta de organização. E, finalmente, sabe-se que estão aqui de passageme, dentro de poucas semanas, deles ficará apenas um punhado de cinzas num campo não muito longe daqui, e um número de matrícula riscado num livro de registo. Embora envolvidos e arrastados sem tréguas pela multidão inúmera dos outros iguais a eles, sofrem e arrastam-se numa íntima solidão baça, e em solidão morrem ou desaparecem, sem deixar rasto na memória de ninguém.

O resultado deste feroz processo de selecção natural poderia ler-se nas estatísticas do movimento do Lager.  Em Auschwitz, no amo de 1944, dos velhos prisioneiros judeus (não falamos aqui dos outros, pois diferentes eram as suas condições) «Kleine Nummer», dos pequenos números inferiores a cento e cinquenta mil, sobreviviam pocas centenas; nenhum deles era um Haftling comum, vegetando nos Kommandos comuns e pago com a ração normal. Só sobreviviam os médicos, os alfaiates, os sapateiros, os músicos, os cozinheiros, os jovens homosessuais atraentes, os amigos ou patrícios de uma ou outra autoridade do campo; e ainda indivíduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos, desempemhando (em consequência de uma investidura por parte do comnado dos SS, que neste sentido mostravam ter um conhecimento dos homens deveras diabólico) os cargos de Kapo, de Blockaltester, ou outros. E, finalmente, os que sem desempenhar funções particulares, pela sua argúcia e energia conseguiam sempre organizar com êxito, obtendo assim, para além da vantagem material e da reputação, também indulgência e estima por parte dos poderosos do campo. Quem não sabe tornar-se um Organizator, Kombinator, Proeminent (feroz eloquência das palavras!) acaba por se tornar dentro de pouco tempo um “muçulmano”. Uma terceira via existe na vida, onde aliás é norma; não existe no campo de concentração.

Sucumbir é o mais simples: basta cumprir todas as ordens, comer só a ração, obedecer à disciplina do trabalho e do campo»

 pg 93 - 96