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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

A possibilidade do impossível

julmar, 26.11.14

Sinopse do autor

«Democracia» designa hoje na linguagem política um significante vazio, tão mais consensual quanto mais vazio, quanto mais inquestionado no seu conceito ou na sua substância, espécie de religião laica universal. O problema filosófico-político deste tempo não é a crítica do capitalismo, sobre a qual toda a gente está mais ou menos de acordo. É a crítica da democracia que nos vendem, a única a que nos dizem termos direito, como regime de poder inseparável da realidade capitalista dominante e modo ideal, e também o mais cínico, de legitimação sociopolítica dessa realidade. Uma crítica ciente de que a solução para os cada vez mais dramáticos problemas da humanidade suscitados pelo capitalismo global, para o presente estado pré-apocalíptico do mundo, não passa por esta democracia.

Uma leitura que recomendo a quem gosta de pensar metafisicamente, de quem, paradoxalmente, sabe que o impossível é realizável. E para aqueles que sabem que Marx não morreu e que acreditam que o capitalismo não é o fim da História. É um prazer ler Sousa Dias.

Tanto para descobrir!

julmar, 10.11.14

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Até hoje não soube o que era o tédio senão de o ouvir a quem o experiencia: durante os anos de trabalho porque vivia em pleno o que fazia e entendia que podia sempre fazer melhor. Agora com tempo meu mas com tanto para fazer que não sei para onde me virar. E claro que não dispenso o ócio. Muito do que agora leio, sinto que o deveria ter feito há mais tempo. Por exemplo, este livro de Mário de Carvalho. Mas pode ser que não seja tarde demais. «Falando de ficção em prosa, logo vem à ideia a conveniência de uma história. De facto, quem não pretenda fixar-se na prosa poética, nem nas múltiplas formas de exercitar o gosto pela escrita que envolvam apenas a vertente de memórias, sentimentos, estados de alma, pensamentos, interrogações filosóficas, experimentalismos romanescos, perguntas sobre a língua ou exercícios de estilo - como outrora se dizia - é muito provável que queira começar por querer contar uma história. A tal ficção narrativa» pg 42

O prazer de reler G. Bachelard

julmar, 05.11.14

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Em tempos que lecionava filosofia, este era um texto que os alunos estudavam no 11º ano, no contexto de um excelente programa que se preocupava com a construção do espírito científico

«A idéia de partir de zero para fundamentar e aumentar o próprio acervo só pode vingar em culturas de simples jus- taposição, em que um fato conhecido é imediatamente uma riqueza. Mas, diante do mistério do real, a alma não po- de, por decreto, tornar-se ingênua. É impossível anular, de um só golpe, todos os conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que cremos saber com clareza ofusca o que deve- ríamos saber. Quando o espírito se apresenta à cultura cien- tífica, nunca é jovem. Aliás, é bem velho, porque tem a idade de seus preconceitos. Aceder à ciência é rejuvenescer espi- ritualmente, é aceitar uma brusca mutação que contradiz o passado. A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião. Se, em deter- minada questão, ela legitimar a opinião, é por motivos diver- sos daqueles que dão origem à opinião; de modo que a opi- nião está, de direito, sempre errada. A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao desig- nar os objetos pela utilidade, ela se impede de conhecê-los. Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado. Não basta, por exemplo, corrigi-la em determinados pontos, man- tendo, como uma espécie de moral provisória, um conhe- cimento vulgar provisório. O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreen- demos, sobre questões que não sabemos formular com clare- za. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida científica os problemas não se formulam de modo espontâneo. É justamente esse sentido do problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conheci- mento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído.» A Formação do Espírito Científico

Quem condecorará Cavaco? - Afonso Leonardo

julmar, 04.11.14

Em Portugal para se ser condecorado não é preciso ser distinto, basta distinguir-se; não é preciso fazer obra valerosa, basta ocupar lugar de relevo, basta aguentar-se em cima da onda, deixar que o tempo dure, deixar que o tempo passe, e, se for necessário, fazer de morto. Antigamente os reis recompensavam os que os serviam com títulos a que correspondiam terras e rendas. Como as terras não há, hoje, quem as trabalhe e ninguém as quer, fazem-se favores em cargos de administração pública ou privada, em reformas doiradas, mais uns subsídios disto ou daquilo,mais um automóvel topo de gama, mais um motorista, mais uma secretária, mais um assento aqui, mais uma cadeira ali numa universidade, mais uma presidência de um instituto ou de uma fundação. Tudo porque seria lamentável perder uma experiência acumulada nos mais supremos cargos de instituições nacionais e internacionais. Homens, para já sobretudo, homens de pouco conhecimento, por vezes mesmo avessa ao conhecimento, mas que têm uma extensa carteira de conhecimentos, uma rede de contatos que lhe permite abrir portas se a diplomacia funcionar, porque, caso contrário, encontra-se logo uma forma de as arrombar para o que têm gente preparada. Infalível: se não resulta o plano A, passa-se ao plano B. Gente que vive de lealdades e favores. Novembro de 2014 - Cavaco condecora Barroso, jovem que na Faculdade de Direito de Lisboa ao mesmo tempo que aprendia as especiosidades da argumentação jurídica, em discursos inflamados jurava levar a classe operária ao poder e escorraçar a burguesia infame e estabelecer o reinado do proletariado numa sociedade igualitária. Mas Durão estava tão à frente da classe operária que a perdeu de vista e, em vez de olhar para trás e para baixo, passou a olhar para a frente e para cima e descobriu que além dos infortúnios da terra existe a ventura celeste. Talvez os pobres possam lá chegar um dia, mas, diz ele, eu tenho que lá estar primeiro, não me vou perder por causa deles. Afinal, chegar lá até foi rápido, até foi fácil. E chega a Primeiro-ministro de um país pequeno. Depois o Deus Bush, convida-o para um retrato, assegurando-lhe que a forma de chegar ao céu, na conjuntura do momento, era através da guerra. E, quem diria, citou-lhe Bush 'Os Lusíadas' ou Pessoa «Quem quer chegar ao Bojador terá de passar além da dor». Sim, senhor, é para já. Depois, sabe-se lá porquê, um convite para Presidente da Comissão Europeia. Durão hesitou entre o amor à pátria que o tinha eleito e um chamamento que de tão grandioso que era só podia ser um chamamento divino. E porque desobediência é o maior dos pecados, talvez o único pecado, não quis incorrer na ira de Deus. Houve mesmo um jornal católico que viu na ida de Durão um desígnio de Deus, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima. Soube-se ainda, da maneira que estas coisas se sabem, que o articulista foi chamado ao Bispo e que o caso circulou abafado pelos corredores da Cúria do Vaticano. E com exemplaridade reinou em Bruxelas durante uma década que deixou o reino da Europa muito atrás da concorrência americana e asiática. Dizem que falhou. Cavaco Silva, um Salazar dos tempos modernos, preza como valor superior a família. A família política também. Por isso tudo o que de valeroso acontecia noutras famílias lhe causava inveja e rancor. Foi assim com Saramago, foi assim com José Sócrates, foi assim com Carlos do Carmo. Cavaco Silva exclui quem não pertence aos seus. Com naturalidade condecorou Durão Barroso que abandonou o país e que viu na condecoração recebida a prova de que a sua decisão foi boa, boa para o país. O país está-lhe muito agradecido. Por isso, é tempo de ascender ao cargo mais alto da nação. Novembro de 2016 Barroso condecora Aníbal Cavaco Silva por relevantes serviços prestados à Nação.

«Esta é a ditosa pátria minha amada»

Discurso Sobre o Filho da Puta - Alberto Pimenta

julmar, 04.11.14

O que, na espuma dos dias, me terá levado até aqui?

Alberto Pimenta Portugal, 1937) Balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta é sempre um pequeno filho da puta; mas não há filho da puta, por pequeno que seja, que não tenha a sua própria grandeza, diz o pequeno filho da puta. no entanto, há filhos-da-puta que nascem grandes e filhos da puta que nascem pequenos, diz o pequeno filho da puta. de resto, os filhos da puta não se medem aos palmos,diz ainda o pequeno filho da puta. o pequeno filho da puta tem uma pequena visão das coisas e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o pequeno filho da puta. no entanto, o pequeno filho da puta tem orgulho em ser o pequeno filho da puta. todos os grandes filhos da puta são reproduções em ponto grande do pequeno filho da puta, diz o pequeno filho da puta. dentro do pequeno filho da puta estão em idéia todos os grandes filhos da puta, diz o pequeno filho da puta. tudo o que é mau para o pequeno é mau para o grande filho da puta, diz o pequeno filho da puta. o pequeno filho da puta foi concebido pelo pequeno senhor à sua imagem e semelhança, diz o pequeno filho da puta. é o pequeno filho da puta que dá ao grande tudo aquilo de que ele precisa para ser o grande filho da puta, diz o pequeno filho da puta. de resto, o pequeno filho da puta vê com bons olhos o engrandecimento do grande filho da puta: o pequeno filho da puta o pequeno senhor Sujeito Serviçal Simples Sobejo ou seja, o pequeno filho da puta. II o grande filho da puta também em certos casos começa por ser um pequeno filho da puta, e não há filho da puta, por pequeno que seja, que não possa vir a ser um grande filho da puta, diz o grande filho da puta. no entanto, há filhos da puta que já nascem grandes e filhos da puta que nascem pequenos, diz o grande filho da puta. de resto, os filhos-da-puta não se medem aos palmos, diz ainda o grande filho-da-puta. o grande filho da puta tem uma grande visão das coisas e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o grande filho da puta. por isso o grande filho da puta tem orgulho em ser o grande filho da puta. todos os pequenos filhos da puta são reproduções em ponto pequeno do grande filho da puta, diz o grande filho da puta. dentro do grande filho da puta estão em ideia todos os pequenos filhos da puta, diz o grande filho da puta. tudo o que é bom para o grande não pode deixar de ser igualmente bom para os pequenos filhos da puta, diz o grande filho da puta. o grande filho da puta foi concebido pelo grande senhor à sua imagem e semelhança, diz o grande filho da puta. é o grande filho da puta que dá ao pequeno tudo aquilo de que ele precisa para ser o pequeno filho da puta, diz o grande filho da puta. de resto, o grande filho da puta vê com bons olhos a multiplicação do pequeno filho da puta: o grande filho da puta o grande senhor Santo e Senha Símbolo Supremo ou seja, o grande filho da puta. ALBERTO PIMENTA [Porto, 1937] publicado por julmar às 21:16 link do post | comentar | favorito

Breves

julmar, 03.11.14

Um bom exercício para as mentes preguiçosas, para os doutores do senso comum, para aqueles que nada têm de procurar, para os materialistas dogmáticos, para os realistas, é tentarem entender esta tese fundamental do bispo G. Berkeley.

Claro que os preguiçosos dirão, sem mais, este gajo é parvo.

Esse est percipi aut percipere.Ser é ser percebido ou perceber.