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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Os Amigos Nunca São para as Ocasiões - Miguel Esteves Cardoso

julmar, 26.05.14

Há provérbios e ditos para todos os gostos. Para muitos funcionam como uma prova de verdade do quem pensam, dizem ou sentem. Alguns deles são simplesmente horríveis. Como este de que nos fala o MEC.

 

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso. 

A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre. 

Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter. 
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'

Bem mandados, malcriados e criados apenas

julmar, 21.05.14

A língua é o retrato do povo, e, se quiserem, do indivíduo também. Falar, saber falar, falar bem, falar caro traduz o génio do indivíduo acrescentado pela educação. Mas lá está. Educação era uma palavra que na vila não se usava, era assim uma espécie de palavra chique. O que havia era criação daí resultando indivíduos bem-criados, sendo que estes eram designados como bem mandados, isto é, que obedeciam. Daí que cheguei no âmbito das minhas reflexões teológico-cristãs à conclusão de que apenas existe um único pecado: a desobediência. É daí que surge Lúcifer e depois (se nestas alturas há antes e depois!) toda a saga da queda e regresso ao paraíso. A transgressão é sempre um atentado ao poder. Por isso, os malcriados são aqueles que, em primeiro lugar, não obedecem aos pais. 

Ser mal-criado é, em primeiro lugar, não fazer o que lhe é dado ou o que lhe mandam. Em segundo lugar, é a forma como exprime os seus sentimentos e se comunica com o uso de palavras obscenas, as carvalhadas. Ora a boa educação passava muito pelo uso que se fazia das mesmas. Esperava-se que mulheres e crianças delas não fizessem uso. Quanto aos homens o uso dependia das circunstâncias - do lugar, do tempo, dos circunstantes, dos motivos. Para alguns, a carvalhada era uma espécie de bordão, em que não abriam a boca que não saísse asneira, como uma spécie de jaculatória profana; outros usavam-na apenas em situações de extrema irritação ou indignação; outros encontravam derivados ou substitutos da carvalhada na sua pura crueza, como: catancho,catano, carais, caramba, carago(espanhol), catrino. Para além dos que praguejavam contra acontecimentos, coisas, animais e indivíduos, havia os que praguejavam contra Deus, contra a Virgem e contra os Santos, o que era frequente fazerem nuestros hermanos. Também eu conheci um blasfemador, guardador de cabras nas penedias da Fraga, lançadas com uma indignação tão feroz que até os barrocos se encolhiam e mudavam de cor.

E, finalmente, havia os criados e as criadas que o destino quisera que a bem ou a mal se sujeitassem ao mando dos que podiam e que de nome tinham ser criado do dono.

Ler para saber

julmar, 16.05.14

 

Aprender é o que nos distingue das outras espécies. Pena que o tempo é escasso para tanto que há para aprender. Este é um livro que estive para parar de ler ao fim do terceiro capítulo. Teria perdido a leitura fascinante das mais significativas descobertas científicas e a compreensão de como matemática, física, química e biologia se conjugam na compreensão do universo.

PNL para cristãos e não só

julmar, 05.05.14

Os que estão muito interessado em ter os pés bem assentes no chão, os chamados realistas, aqueles que conseguem ver o mundo como ele é - vá-se lá saber como é que eles conseguem isso! -, os que lutam arduamente por pão ou por dinheiro e querem sempre mais pão e mais dinheiro, os que só conhecem a pergunta para que é que isso serve, os escravos da utilidade, os apressados que reduzem a vida à equação 'tempo é dinheiro', os incapazes de descansar a cabeça sobre a mão ou de espetar o indicador no queixo e cravar os olhos no céu, diria eu que nunca 'verão a Deus', seja lá o que isso for.

 

"Naquele tempo, 38 Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. 39 Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a Sua palavra. 40 Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: ‘Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o  serviço? Manda que ela me venha ajudar!'. 41 O Senhor, porém, lhe respondeu: ‘Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. 42 Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada'" (Lc 10, 38-42).