Fiquei pasmado ao ler este livro que só agora me decidi a ler. Não encontro melhor para o exprimir que as palavras de Luiz Pacheco:
«uma cavalgada furiosa de episódios, uma feira, um tropel de gente, uma festa popular de malucos e malucas, tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata, o sentimento nos momentos doloridos mas tudo tão próximo de nós e tão naturalmente reproduzido na escrita.»
E confesso que nenhum outro livro me fez rir até às lágrimas como este. Ou encontrar um lugar tão filosófico como a Praia do Pensar Nisso.
«Aqui ninguém pode passar, ninguém poderá ir mais longe do que isto, há outro caminho para avançar mas vai dar a outras regiões, não aconselho seja quem for a avançar nessas regiões, todos os que vão para lá ficam presos numa teia de aranha chamada Xântila, o sol não alcança essas tão tremendas e dsoladas regiões, apenas uma lua de sombra paira sobre elas, também não chega lá a música das esferas, ou outra música qualquer como a músic das veias, ou a da brisa nas folhas das árvores, o silêncio faz-se transportar na mais cega e fria das naves espaciais, usa no peito o emblema da vertigem de profundidades sem regresso, reina sobre um império de águas paradas onde crescem monstros de olhos comidos por piranhas xantilianas, são as regiões das tarântulas incansáveis que tecem a teia de aranha chamada Xântila, todos os que vão para aquelas regiões ficam presos nessa teia de aranha, na rede do ódio, da inveja, do egoísmo e da crueldade, são as regiões tremendas e desoladas do império dos mais apodrecidos oceanos, a lua de sombra é testemunha de tudo o que se passa e vai registando sem interferir, o silêncio pede cada vez mais sombra à lua com um simples estalar de dedos, a lua de sombra atenta, absorve toda e qualquer cintilação, já se têm perdido estrelas inpreparadas nessas regiõe de sombra e de silêncio, desaparecem nos fios da teia de aranha, não há o sentido de orientação, um homem de que me não lembro agora o nome perdeu lá o desenho do coração, outro perdeu o alcance e a curva que trazia no olhar, uma mulher alta e perturbada, que partiu para lá uma semana, nunca mais se soube dela, não aconselho a ninguém aquelas regiões, estou aqui para avisar as pessoas e analisar os passaportes, não tem por acaso um cigarrinho?, muito obrigado como vê, o sol e os eus companheiros estão do outro lado, a música das esferas não passa daqui (...) estou aqui para cumprir ordens, aconselhar as pessoas e verificar os passaportes, o visto para o sol e os seus companheiros é passado num posto especialmente criado para o efeito, mas há necessidade de fazer um estágio na Praia de Pensar Nisso, ora mostre-me lá o seu passaporte, hum, hum, estou a ver, cuidado, nao se afaste tanto porque é perigoso, o raio de acção da lua é muito grande, chegue-se aqui para o pé de mim, ponha um pé no mar e outro na terra (...) ainda ontem não consegui demover um homem dessa ideia, tirou aqui à minha frente uma finíssima película de limpidez que ainda se lhe espalhava no olhar, deixou aqui também o odor de uma manhã campestre, as cores de uma borboleta, o tactear de um rosto querido, o sabor de uma romã e o som de um sino muito ao longe, não consegui convencê-lo, é este maldito apelo da sombra, este canto de sereia do silêncio ...»
Muito do que sei e, por via disso, do que sou devo-o aos livros. Verdade que boa parte da minha vida foi (e ainda é) passada com eles. Enquanto estudante por necessidade, como professor por necessidade e liberdade e hoje por liberdade e prazer. Li em todos os sítios imagináveis, em qualquer hora, nas mais diversas posições, sobre os mais diversos assuntos, em línguas que vão do grego e do latim, passando pelo italiano, pelo castelhano, pelo galego, pelo inglês e pelo francês e, a maioria, na língua de Camões, de Pessoa e Saramago. Livros grandes e pequenos, em prosa e em poesia. Livros que não servem para nada, de especulação metafísica pura ou de pura ficção. Livros sobre como fazer isto e aquilo. Livros que não lembra ao diabo como dos Ingrimanços de S. Cipriano.
E do meu top ten de livros, poderia citar o melhor de todos os romances que li "As Memórias de Adriano" mas apraz-me registar um curioso "Como fazer um minhocário", de que resultou a sua construção efetiva, há cerca de vinte anos, no meu jardim. Daí resultou que uma terra infértil se tornou num húmus extraordinário onde ainda hoje as ditas minhocas continuam por ali a laborar.
Talvez entre o "De Ente et Essentia" do S. Tomás de Aquino e estas minhoquices a distância não seja assim tão grande.
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