O analfabetismo, a incivilidade é persistente no país. O capítulo IV do livro é sobre isso que fala de maneira explícita, já que em toda a obra de Aquilino existe tanto de encanto pela terra, pala gente e pels bichos como indignação e desprezo por uma classe dirigente parasitária, prepotente e incivilizada.
«Em regra, o camponês vê-se e deseja-se para atamancar a vida. Há ramos em que ele se defende menos mal; mercê porém de factores novos de ordem psicológica, fá-l muito pior do que há anos a esta parte. Um deles e dos mais notáveis diz respeito à vestuária. A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de uqe fazia os lençóis, a camisa os sacos, as calças de verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala - a chamada serguilha - para os aventais; entretecida com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confecionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. Aparte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o flibusteiro (...)
O português resigna-se a tudo menos a não ter opinião ou a não deitar a sua sentença. E como se julga o mais competente, vá de impor-se e não permitir que os outros pensem diferentemente. O nosso sectarismo e mesquinhez social estão muito nisto.
(...) A aldeia não precisava de nada de fora.
(...) Mas o mundo modificou-se. Veio a estrada a macadame
(...) Vale a pena aprender a ler e a escrever naqueles lugares onde não há necessidade de ler e escrever? Em temos diferentes há alguma vantagem em criar um órgão a que falta a função? A pedagogia, a mais inteligente, a mais tenaz, desacompanhada de outros meios por si só é incapaz de abonar esta quadratura do círculo.
(...) Numa palavra: em toda a aldeia, que não seja servida, ao menos pelo macadame, o esforço escolar escoa-se como a água na areia, sem deixar mais vestígios que uma ociosa e fátua espuma»
Era ainda estudante quando conheci N. Chomsky, na altura em que, à margem do curso de Filosofia, me interessava pela Linguística. Gostei especialmente, neste livro, do único capítulo dedicado à Línguística(Cp. Aprender a Descobrir), pela questão linguística mas, concomitantemente pela crítica ao senso comum, ao modo como se faz ciência e ao modo como se educa.
Interessante a crítica feita às políticas neoliberais e, portanto e sobretudo aos Estados Unidos. Mas o título é, de fato, ambicioso, "Mudar o Mundo" para chegar à conclusão tácita de que o mundo não se muda de fora. Mudam-se apenas as formas de dominação mas lá por baixo fica tudo na mesma.
Por isso, prefiro seguir o conselho de R. Descartes de antes preferir mudar-se a si do que mudar a ordem do mundo:
"Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo; e, em geral, a de habituar-me a acreditar que nada existe que esteja completamente em nosso poder, salvo os nossos pensamentos, de maneira que, após termos feito o melhor possível no que se refere às coisas que nos são exteriores, tudo em que deixamos de nos sair bem é, em relação a nós, absolutamente impossível. E somente isso me parecia suficiente para impossibilitar-me, no futuro, de desejar algo que eu não pudesse obter, e, assim, para me tornar contente. Pois, a nossa vontade, tendendo naturalmente para desejar apenas aquelas coisas que nosso entendimento lhe representa de alguma forma como possíveis, é certo que, se considerarmos igualmente afastados de nosso poder todos os bens que se encontram fora de nós, não deploraremos mais a falta daqueles que parecem dever-se ao nosso nascimento, quando deles formos privados sem termos culpa, do que deploramos não possuir os remos da China ou do México; e que fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos mais estar sãos, estando doentes, ou estar livres, estando presos, do que desejamos ter agora corpos de uma matéria tão pouco corruptível quanto os diamantes, ou asas para voar como as aves. Mas confesso que é preciso um longo adestramento e uma meditação freqüentemente repetida para nos habituarmos a olhar todas as coisas por este ângulo; e acredito que é prin- cipalmente nisso que consistia o segredo desses filósofos, que puderam em outros tempos esquivar-se do império do destino e, apesar das dores e da pobreza, pleitear felicidade aos seus deuses. Pois, ocupando-se continuamente em considerar os limites que lhes eram impostos pela natureza, convenceram-se tão perfeitamente de que nada estava em seu poder além dos seus pensamentos, que só isso bastava para impossibilitá-los de sentir qualquer afeição por outras coisas; e os utilizavam tão absolutamente que tinham neste caso especial certa razão de se julgar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que quaisquer outros homens, os quais, não tendo esta filosofia, por mais favorecidos que sejam pela natureza e pelo destino, nunca são senhores de tudo o que desejam." In, Discurso do Método - Terceira parte.
Diremos que isto é muito conservador. Sem dúvida. Mas também Chomsky se declara um conservador, um conservador com valores. E é aí que vai bater a última questão que lhe é colocada:
- E que conselho daria aos jovens?
- (...) De modo algum se pode responder por outra pessoa a perguntas como: "A que devo dedicar a minha vida? Como devo viver?" Trata-se de coisas que temos de descobrir por nós mesmos.
É exatamente assim: A ausência de domínio e a afirmação da liberdade só pode acontecer nascida de dentro de cada um. Daí a importância da educação, da educação alicerçada no "Conhece-te a ti mesmo" socrático. Esse é o caminho. Sem atalhos.
(...)
Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha estas mocas, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê! são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis!
Têm orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!
Vá! Georges, faz-te Manel! viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito.
Que hão-de gostar!
Tira o chapéu, silêncio!
Passa a procissão
Falas de Civilização
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade
Poemas inconjuntos
Cumprir com as obrigações fiscais - a décima, o dízimo, a licença do cão, a licença disto e daquilo - não era coisa fácil numa comunidade onde a escassez do dinheiro era comum. Pelo que, na impossibilidade de cumprir se botavam ao relaxe. Outros se botavam ao relaxe pois por onde quer que fossem apenas deparavam com becos sem saída.
Eram relaxados aqueles que se abandonam ao curso dos dias, ao vento das circunstâncias, aos que se deixam arrastar pela corrente, aos que baixam os braços. Deixam que as nódoas se acumulem, que a barba cresça, que a remela se seque, que o tempo passe indefinido. Deitam-se ao relaxe e tanto se lhes dá isto como aquilo, que chova ou faça sol. Entegam o seu destino ao pior dos deuses: O Deus Dará que é uma providência descuidada. Desacorossoados da vida, sem réstea de esperança, botam-se ao relaxe. Seca-se-lhes o corpo, mirra-se-lhes a alma.
E, tirando o vinho e a confissão não havia remédios nem doutores que tal coisa curassem. Quando não empederniam o coração, quando a indiferença era impossível, às vezes, uma corda para apertar cargas ou prender o vivo era o instrumento de perdição.
Hoje o relaxe é outro. Aquilo que era uma figura do direito fiscal passou a uma técnica (ou um campo de lazer...) corporal e/ou espiritual de aliviar o stress, de encontar bem estar.
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