Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

Ouvindo a voz do papa - Evangelii Gaudium

46. A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção

aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo

sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a

ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para

acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do

filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder

entrar sem dificuldade.

publicado por julmar às 16:24
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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

Psseio com Gedeão no Parque Biológico de Gaia

n

Pastoral
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.


Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.
António Gedeão (Poesias Completas, 1956-1967 )

publicado por julmar às 15:59
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Lugares da minha vida - Parque Biológico de Gaia


Desde de 93 que frequento este lugar, ultimamente todos os dias. Sorte a minha poder usufruir um parque considerado dos melhores a nível europeu; sorte minha poder manter de forma tão privilegiada o contato com a natureza; sorte a minha poder deambular pela natureza acalentando os melhores sentimentos e lembrartodos os que me são queridos.
publicado por julmar às 13:21
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Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014

As minhas orações

Saudade do tempo em que vivia apaixonado a profissão de professor. Saudade do tempo que, diretor do Centro de Formação, fazia a bertura das ações de formação com um poema, como uma oração profana. De acordo com o público se escolhia o poema. Tratando-se de professores de educação visual e tecnológica, o poema era o que se segue:
A Flor
«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens.Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon,je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiment pas faire mieux. »
Henri Matisse
Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essa linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor !
Almada Negreiros em A Invenção do Dia Claro
publicado por julmar às 19:15
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Poemas da minha vida

Não sei porquê nem como mas houve poemas que se me colaram. Outro tempo, outra memória mas era assim: mal dava conta e  ... Zás estava recitar de cor o poema. Alguns muito breves, como: 

 

«A catedral de Burgos tem trinta metros de altura

e as pupílas dos meus olhos dois milímetros de abertura.

Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!»

António Gedeão

 

 Outros de uma extensão considerável como "O Operário em construção" de Vinicius de Morais

 

Outros como o que se segue de Camilo Pessanha, talvez pela sua musicalidade

 

Violoncelo

Chorai arcadas 
Do violoncelo! 
Convulsionadas, 
Pontes aladas 
De pesadelo... 
De que esvoaçam, 
Brancos, os arcos... 
Por baixo passam, 
Se despedaçam, 
No rio, os barcos. 
Fundas, soluçam 
Caudais de choro... 
Que ruínas, (ouçam)! 
Se se debruçam, 
Que sorvedouro!... 
Trêmulos astros, 
Soidões lacustres... 
_ Lemes e mastros... 
E os alabastros 

Dos balaústres! 
Urnas quebradas! 
Blocos de gelo... 
_ Chorai arcadas, 
Despedaçadas, 
Do violoncelo. 

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra

publicado por julmar às 18:50
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Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

A decapitação da cultura

Está-me difícil viver neste país.  Mas que não me mandem emigrar, que não me digam bacocamente que quem está mal muda-se porque não abdico do meu país, da minha cultura, dos amigos, da família. O que custa é ver um país que se afunda, um país sem rumo, um país que se esvai em recursos e em gente. Um país sem projetos e sem sonhos. Um país onde às elites dirigentes sobra em ganância e avidez de poder o que lhe falta em saber e cultura. Um país onde a política se reduz à tencocracia, onde o primeiro ministro não passa de um contabilista básico do deve e haver sustentado num economês que sirva os interesses de quem o pode sustentar. 

Reduzimos toda a vida a uma única dimensão: à economia e às ciências que imediatamente a possam servir. Ciências Sociais, Literatura, Arte, História, Filosofia? Para quê? Isso são luxos a que não nos podemos entregar. Ensino obrigatório até ao 12º ano? Dinheiro para Investigação só se investigarmos hoje e o resultado surgir na economia no dia seguinte que o que a gente precisa é dinheiro. 

Por isso, nunca sairemos do buraco porque o povo, tornado burro de carga, não merece deixar de o ser. O nosso déficit é económico porque ali desagua o nosso deficit de cidadania, o nosso deficit de educação, o nosso deficit de cultura científica ... e de cultura apenas. É que quem luta apenas por pão nem pão tem que baste. O burro de carga cada vez carrega mais e cada vez o que carrega vale menos. E quanto mais pesada é a carga mais fixa o olhar no chão que pisa, e cada vez passa mais tempo a carregar. Por isso, já não sabe que há sol e que há estrelas, e que há céu ... e que há flores e perfume. E no esquecimento começa a morte.

publicado por julmar às 17:54
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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Eusébio, Camões e o Panteão - Afonso Leonardo

 Camões diz o que se propõe com a obra que inicia: cantar os feitos dos portugueses:

 

«Cantando espalharei por toda a parte

Se a tanto me ajudar o engenho e arte»

«Aqueles que por obras valerosas se vão da morte libertando»

 

A obra Os Lusíadas terá sido concluída em 1556 e publicada pela primeira vez em 1572. Tudo isto há cerca de 450 anos, não vai assim há tanto tempo, bastante para as nossas curtas vidas. Mas, como o poeta bem sabia e bem o disse: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Não havia futebol no tempo do Camões e as ‘obras valerosas’ eram de outra natureza.

No país onde o impossível acontece, onde os milagres explicam o inexplicável, onde os deuses do Olimpo se reúnem para deliberar sobre a giesta portuguesa, onde um rei português derrota cinco reis mouros numa desproporção de cem infiéis para um cristão, pudemos ver Camões, na televisão, com um olho apenas, como que a mostrar que em terra de cegos quem tem um olho é rei, a falar sobre o King Eusébio da Silva Ferreira.

Conta  Camões que a seu pedido, e para continuar a narrar os feitos dos portugueses, S. Pedro lhe concedera a graça, de poder ter umas saídas precárias lá do assento etéreo onde subira, e vir até esta babilónia cada vez mais confusa. Conta que Sião, essa pátria celeste, é tão boa, tão deleitosa que só mesmo a morte do Eusébio o poderia fazer sair de lá; que pelo que foi sabendo, depois que à pátria ditosa subira, nada se passou que lhe valesse a pena de na pena pegar; que depois que se fora se foi sucedendo um rosário de desgraças e se instalou, com caráter definitivo, uma apagada e vil tristeza; que os reis cada vez mais fracos foram tornando mais fracas as fortes gentes até acabarem com os reis … e nada ter mudado. Conta que, ainda que, na pátria celeste nada afete a plenitude do descanso eterno, não é indiferente aos céus o que se passa na terra e que a compaixão é a maior componente da felicidade eterna. Por isso, dileto da mãe de Deus, a quem ofertara o seu poema preferido «Sôbolos Rios» e «Os Lusíadas», intermediou junto dela para que se apiedasse do “ilustre peito lusitano, a quem Neptuno e Marte obedeceram». E logo a Senhora, rogando ao Filho que rogasse ao Pai, se deu início a todos os preparos para a descida da Senhora que havia de, regenerando Portugal, fazer dele a plataforma para pôr ordem no mundo o que se faria rezando o rosário para conversão da Rússia que não tinha jeito nenhum os comunistas atacarem a Igreja e mal dizerem Deus. E a veia dos poetas começou logo a inventar versos e o génio musical a adorná-los para glorificar o povo eleito e o reino dos céus:

Salve, nobre padroeira

Do povo teu protegido

Entre todos escolhidos

Para povo do Senhor

Fátima, diz Camões, ainda um dia (isto é como quem diz porque lá em cima já não há dias apenas os resplendores da luz perpétua) a cantarei.

 

Diz Camões que a única música que se ouve nos céus é a música celestial (o que faz todo o sentido), e que a única música terreal que ganhou esse estatuto foi o Fado que de tão plangente e triste provocou a compaixão celeste e que, se o corpo da Amália, está no Panteão Nacional, a sua essência (que no céu só podem existir essências) se encontra no assento etéreo.

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava

Amália, a Diva do Fado, que deu voz a poemas meus, diz Camões, ainda um dia (isto é como quem diz porque lá em cima já não há dias apenas os resplendores da luz perpétua) a cantarei.

Fátima, a Senhora do Rosário, estava na pátria celestial, o Fado por que celestial chegou lá, mas o Futebol, Senhor?

Camões, fechou o olho, meteu a mão no queixo sustentando a cabeça e ficou em silêncio tão prolongado que o jornalista, lhe atirou:

- Então, senhor Luís de Camões, acha que o Eusébio deve ir para o Panteão Nacional?

Deixe-me dizer-lhe que ao Eusébio tanto se lhe faz. E falo com conhecimento. Fui sepultado em 1580 na Igreja de Sant’Ana, em Lisboa, perto da casa onde vivia a minha mãe. Passados 300 anos, em 1880, pegaram numas ossadas de um qualquer e trasladaram-nas para os Jerónimos dizendo que eram os meus restos mortais. Os portugueses são um grande povo que cuida mal dos vivos e se preocupa muito com os mortos. Também podem dizer do Eusébio o que de mim disse o Almada Negreiros:

«A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões»

Mas como não cantar o futebol, essa descoberta (ainda que não portuguesa), maior que a descoberta das Índias e das Américas e do seu maior executante?

Eusébio da Silva Ferreira diz Camões, ainda um dia (isto é como quem diz porque lá em cima já não há dias, apenas os resplendores da luz perpétua) o cantarei. 

publicado por julmar às 15:12
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

Paula Rego

Foto: 'Flood', etching and aquatint on paper, 1996 | Paula Rego

Gosto dos quadros de Paula Rego. Não me perguntem porquê.

publicado por julmar às 19:11
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Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

Primeira Leitura do ano

Quase ficamos sem palavras para falar da escrita de Valter Hugo Mãe, como ficamos sem palavras na contemplação da beleza. As obras, a presente também, são acima de tudo literatura e não são aconselháveis a quem gosta de uma trama criadora de suspense. A história principal acaba por resultar da interseção de muitas histórias. A obra é de um profundo humanismo que rejeitando a transcendência a procura incessantemente, numa consciência de que Deus não existe mas não podemos viver sem ele. 

«O tempo não é linear. Preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. O tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. É fácil de entender. Quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente continuamos os dias, às vezes até as horas,  e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didácticos anos. Mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. Perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono, e dentro disso, é precisoque superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito parabéns a você, as dtas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto (...) e também é precisosuperar a primeira saída de carro a sós. O primeiro telefonema que não podeser feito para aquela pessoa. A primeira viagem que fazemos sema sua companhia (...) o livro que lemos em absoluto silêncio. O tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vezalgu,a coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez doseu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, atê o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo» (pg 125)

publicado por julmar às 17:36
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Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

Agradecimento

Neste final de ano 2013
Cresci tanto dentro de mim
Que me derramo em graça
E das imensas graças que recebi
Me apraz assim agradecer

À minha família, de quem recebo mais do que dou
Nos cuidados do corpo e no alento da alma

À minha neta que ninguém me enternece tanto

Aos artistas que me mostraram a beleza do mundo e da vida

Pela palavra, pelo som, pela imagem, pelo movimento


E aos amigos em geral
E aos começados por A, em particular
Que seria de mim sem vós?
Vos estis salis terrae
Também aos amigos do facebook, essa nova ágora
Aos amigos reformados que semanalmente comigo se sentam à mesa,

Com a dedicação do sr Eduardo, D. Teresa e Nuno
À Lurdes Tonta que me ajuda a ver a tontice do mundo

E a todos os outros tontos de modos vários
Ao Manuel de Oliveira que me lembra que é possível trabalhar aos 105 anos
Aos meus médicos, os melhores do mundo, que me concertam as maleitas
Ao 112, sem o qual a ti Filomena, não chegaria a 2014
À Fátima Tomé, que dá corda ao relógio da vila
Aos companheiros de caminhadas pedestres
Aos vizinhos atentos aos meus pequenos descuidos
Ao meu cão que todas as manhãs espera não sei se a mim se ao pão
Ao padre Hélder que me cativa com a sua autenticidade

Ao Papa Francisco que praticante da alegria e da esperança
A todos os que fizeram a II Feira de Talentos
A todos que em gesto e olhar aprovaram insignificâncias
Aos homens que me abraçaram e apertaram a mão
Às mulheres que me beijaram
Às cozinheiras que me prepararam comida, 
aos empregados que ma serviram
Aos que tiveram paciência para me ouvir
Aos que me quiseram ler e comentar
Aos que com mansidão me corrigiram.
Aos que me disseram não, contestaram, discordaram
A todos os que me tornaram feliz
A todos a quem acrescentei valor

Que todos de graça tenham cobertura
Para todos coragem e sabedoria na realização dos seus sonhos
Para todos paz, saúde, alegria, amor.

OBRIGADO

publicado por julmar às 22:26
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