Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

Máquina do mundo - A. Gedeão

Quero continuar espantar-me cada dia, depois de ter vivido muitos dias, e continuar achar graça ao mundo em que vivo, ao vento e à gente que passa. Alfonso Leonardo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá lo e tê lo, erguê lo e defrontá lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo

publicado por julmar às 11:51
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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Lendo, ainda, a 'Desumanização' de valter hugo mãe

«A religião era uma forma de teimosia. As preces faziam-nos perseverar. E acreditar que deus se ocuparia também dos nossos destinos era uma casmurrice, talvez. Uma pretensão toda a dar-se importância. Tão pouca gente podia ser uma coisa grande no tamanho da alma. Mas eu não conseguia acreditar nisso. Achava-nos tristes. Ridículos. Deus certamente bocejaria se assistisse ao espetáculo pequenino das nossas vidas. Estaria indubitavelmente olhando para outro lado, para outro lugar. Mesmo quando Steindór cantava ou lia poemas que explicavam boa parte das coisas mais secretas do universo. Deus devia estar ocupado com mais gente. Lugares de mais gente. Onde alguém se revelasse excecional e admirável. O meu pai, que era poeta, ou o Steindór, que tinha coração de ouro, haviam de ser banais perante a grandeza dos de outras terras. Talvez fossem maravilhosos apenas porque não havia mais ninguém». Pg 149

publicado por julmar às 19:37
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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2013

Lembrando Vinicius de Morais

 

Lembrando os 100 anos do nascimento de Vinicius de Morais. Se, como disse, os poemas são as minhas orações profanas, os poetas são os santos a quem eu rezo e presto culto. E Vinicius está entre os primeiros.

Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente

 

E para ouvir - a luz dos olhos teus

http://www.youtube.com/watch?v=CboITkOflwo

publicado por julmar às 15:26
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

A repartição da riqueza

E não tem que ser assim!

http://www.express.be/business/fr/economy/si-un-graphique-doit-vous-mettre-mal-a-laise-esperons-que-cela-soit-celui-ci/196870.htm

publicado por julmar às 10:42
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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Falar é ficar

«Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos navegar numa palavra. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se fal é porquue ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir».

A Desumanização, Valter Hugo Mãe, pg 53

publicado por julmar às 18:57
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Lendo a 'Desumanização' de valter hugo mãe

Não perdoo um bom naco de prosa e de especulação filosófica. Um dia hei-de reunir todos esses nacos e fazer um florilégio.

«Sobe a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavraas sejam débeis. As palavras sãao objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-laas por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade de beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizemos algo que se torna como verdadeiro porque o dizemos simplesmente». pg 41 e 42

publicado por julmar às 11:52
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Segunda-feira, 14 de Outubro de 2013

Poema do coração

“Quem não sabe o que lhe acontece puxa pela memória para salvar a interpretação do seu conto, pois não é totalmente infeliz quem puder contar a si mesmo a sua própria história” Maria Zambrano

Sinto que o sentir poético, desde a infância, constituiu uma forma de estar no mundo e mesmo uma porta de abertura à transcendência. Por isso, os poemas me servem de oração profana, de diversão, de consolo, de prelúdio a uma qualquer ventura. 

De prelúdio a uma ação de professores me serviu o poema de um dos meus maiores mestres, António Gedeão

 

"Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

publicado por julmar às 18:50
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Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

Lembrando Edith Piaf

 

Cinquentenário da morte de Edith Piaf que nos legou as mais bonitas canções: Non je ne regrette rien, La vie en rose, Hymne à l'amour, La Foule, Mon Dieu, Ne me quittes pas. Uma grande mulher, com apenas 1,42 m de altura.

Tempo de ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=slHjkszSAKs

publicado por julmar às 11:59
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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2013

O (en)canto da Filosofia

Saudades do tempo em que, além de filósofo, era professor de filosofia. O que eu mais queria era que aprendessem a se encantar. Sim, é importante aprenderem a raciocinar, a argumentar, a criticar, a pensar. Mas de que serve tudo isso se houver indiferença no olhar? Que importa isso se não cruzarem o seu olhar com o olhar dos outros, se não aprenderem que toda a filosofia está no olhar: nos olhos que olham, nos olhados que os olhos olham ... e no modo de olhar. Porque sem olhos não há luz, sem luz não há imagem, sem imagem não há espelho e sem espelho não há especulação e sem especulação

não há interrogação e sem interrogação não há humanidade e sem humanidade não há compaixão. E a compaixão é a única ética por que vale a pena lutar, como nos ensinou Shopenhauer:

 Neminen laede, imo omines, quantum potes, iuva! ( Não faças mal a ninguém, mas antes ajuda a todos que puderes!)

 

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão, meu mestre
publicado por julmar às 10:17
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Terça-feira, 8 de Outubro de 2013

Leitura de Outubro

a história de maria da graça e de quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideirasprofissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores e, com isso, mudar radicalmente o que pensam e esperam da vida. um romance sobre a força do amor e como ela se impõe como uma espécie de inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
passado na recôndita bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a felicidade.

Extrato

«a terra os trabalhadores, pensou maria da graça, deus talvez nen saiba onde isso fica, se isso fica assim metido entre a terra dos outros homens e das outras coisas. pousava a vassoura no chão, acumulava o pó num canto, via-o acumular como uma obra a crescer. quanto mais pó, mais trabalho á mostra. depois o detergente para o chão, depois as ceras, depois deixar secar e rezar para que ninguém por ali passsasse antes de seco, ou ficariam marcadas a s patorras do burro que destruiriam o brio do trabalho das mulheres-a-dias. talvez pela injustiça deus devesse aparecer numa altura como essas e não só limpar de novo, e com a mesma impecável qualidade, como dotar as mulheres de uma força mais incansável, uma energia feliz que não se esgotasse e pudesse contentar os patrões para que lhes pagassem sem hesitação o dobro da miséria que lhes pagavam.» pg 112 

A primeira obra que leio do autor e fiquei encantado. Pela forma e pelo conteúdo. Um bom livro que, para mim, é uma leitura que nos faz bem.

publicado por julmar às 11:13
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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

Para que a vida corra bem - a diligência

Há dias, a pedido de um colega professor, fui dar um aula a uma turma do 12º ano de um curso profissional de Gestão Desportiva. Foi para mim agradável fazer aquilo que fiz vezes sem conta - ensinar. Ensinar com alma. O objeto da disciplina é a ética e deontologia desportiva. Tratava-se, pois, de abordar os conceitos fundamentais da ética, a começar por este mesmo. A minha primeira surpresa foi o fato de os alunos não disporem de qualquer material: nem livro, nem fotocópias, nem papel, nem lápis. Apenas olhos e ouvidos como quando vêem televisão. O colega fez a minha apresentação. Mais para a frente testei-lhes essa extraordinária memória que não precisa de apontar, escrever, marcar: Sabem como me chamo? Ninguém soube, porque nada é importante em quem apenas ouve. 

Puxando por eles, nomeadamente, tentando situarmo-nos no objecto da ética com questões sobre o que gostam e o que desgostam, sobre os valores sobre os objetivos da suas vidas, sobre o que vale a pena, sobre o que queremos da vida, responde um aluno que o que queremos é «que a vida corra bem». Foi a partir desta expressão que tentámos ver o que era uma vida feliz, uma vida boa e como isso é fundamental para todo o homem. Claro que a diferença ética está, não esperar sentado à espera que a vida corra bem, mas na diligência que tomamos para o conseguir. 

O que encontrei foi o oposto a negligência, isto é: incúria, falta de apuro, falta de atenção, indiferença, isto é,  a falta de tudo aquilo que o ato da aprender exige. E não há que culpar os alunos que em 12 anos de escolaridade se encontram assim. Mas tem que se responsabilizar o Ministério, a escola, a família a quem compete o dever de educar.

Perguntei-lhes que livros até hoje haviam lido. Nenhum aluno até hoje leu qualquer livro. Tinha levado três que pretendia aconselhar a leitura:

1) Força para Amar, Martin Luther King, porque está no top ten dos meus livros e o li aos 17 anos, a idade deles.

2) Como Havemos de viver, Peter Sing - para aqueles que fossem mais audazes

3) Ética para um Jovem, Fernando Savater - livro que usava muito quando dava aulas.

Tenho a dizer que não se trata de uma turma mal comportada, antes pelo contrário. Mas é muito pouco e estes jovens merecem muito mais.

O que é uma escola onde não se escreve e onde não se lê (ou se faz apenas os mínimos)?

A vida boa não pode correr bem sem diligência

publicado por julmar às 11:45
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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Libera me - Carlos Queiroz

Pendurada no placard do gabinete de trabalho durante todo o tempo.

"Livrai-me, Senhor
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem não me quer

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem.

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação."

publicado por julmar às 17:09
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Modos de dizer - Andar aos mostágios


Há expressões caídas em desuso e às quais temos dificuldade em atribuir uma origem e, muitas vezes, saber o que com elas se queria dizer. Ouvia-a, com frequência na minha menimice um pouco no mesmo sentido como aquela de "andar na boa vai ela", tentação permanente para quem mais gosta da animação do que da mortificação.

E mortas estas formas de dizer, em perigo estão também essas raras e belas árvores - os mostajeiros - que conheci várias na Vila e de que sei apenas onde encontrar uma. E os frutos miúdos e com muitas graínhas sabiam bem, porque tardios, muito depois da abundância dos gatchos, dos figos, das nozes e das amendoas. 

Bem que todos os que puderem podiam preservar as que há e, porque não plantar algumas? Só podemos fazer a diferença por aquilo que é nosso, por aquilo que endémico. E temos mais, muito mais.

Comecemos por «andar aos mostágios».

publicado por julmar às 16:03
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