Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Vamos votar em quem?

julmar, 28.07.13

Tenho um respeito enorme por quem trabalha bem, seja médico, professor, advogado, jogador de futebol, trolha, eletricista, jornalista ou político. Dá gosto ver alguém que faz o seu trabalho bem. Dá gosto ver alguém que, de cada vez, procura fazer melhor, que admite erros e aprende com eles. Bons políticos é o que mais precisamos e todos os dias as decepções aumentam. Não gosto da esquerda a fazer o mesmo jogo da direita, a fazerem a mesma manipulação, a usarem os mesmos tambores, os mesmos artistas que a troco de dinheiro vão a todas.

A democracia está transformada numa ditadura da minoria sobre uma maioria indiferente e desinteressada.   

O Tempo e o modo - Critérios de Correção de Exames

julmar, 18.07.13

No domínio da educação a palavra que imediatamente despoleta medo, insegurança, desconfiança é avaliação. Nenhuma outra conseguiu até hoje uma mobilização tão grande da parte da classe docente, pese embora, nenhuma classe profissional avalie tanto. E, no entanto, é impossível qualquer melhoria profissional, pessoal, organizacional sem avaliação. Por infelicidade, sabemos como no domínio da educação (tirando a dos alunos) ela está ausente.

No ano que agora termina os resultados dos exames são muito inquietantes e o Ministro da Educação deveria fazer uma avaliação que respondesse à pergunta: Porque é que na maior parte dos exames dos vários os anos e disciplinas os resultados são tão maus, tão maus como nunca?

Alguns apontam os critérios de correção como os grandes responsáveis, dizendo que foram muito rigorosos. Ora, o rigor é uma qualidade essencial e, portanto, não me parece que se possam atacar por aí. Tomando o exemplo de um exame de português onde se perguntava o modo e o tempo  de um determinado verbo. Segundo os critérios de correção os alunos deveriam responder:  indicativo e presente(certo).

Ora, houve alunos que responderam presente e indicativo(errado). Ora os autores dos critérios consideraram segundo uma lei do tudo(100%) ou nada(0%) o que pode ser defensável de um ponto de vista absoluto. Em rigor o aluno respondeu mal. Porém, estamos a medir aprendizagens e como tal a resposta pode ter gradações. Com efeito, pode tratar-se de uma desatenção (no meu tempo o professor perguntava sempre qua era o tempo e o modo) e quedeverá ser penalizada(20% do valor da pergunta, por exemplo). Diferente seria o caso em que o aluno respondesse que se tratava do conjuntivo e imperfeito. Critérios rigorosos não são os que exigem preto ou branco mas os que conseguem valorizar corretamente as aprendizagens do aluno. Por vezes, até há erros que mostram mais saber do que alguns acertos. 

Será tempo de avaliar os avaliadores para que melhorem o seu desempenho.

Porque é que os alunos tiveram tão maus resultados?

julmar, 17.07.13

Anda o país tão aturdido com a crise política, acrescentada às crises das  bolsas dos cidadãos, que até passa quase despercebida a gravíssima crise que a educação atravessa e de que os miseráveis resultados nos exames nacionais denunciam. E, claro, num país com uma cultura de irresponsabilidade que se traduz num passa culpas, o fato morrerá sem consequências.

Por qualquer lado que peguemos na questão, vamos sempre dar ao Ministro Nuno Crato que é sempre quem terá que responder, ainda que politicamente, por tais resultados. O homem que tinha ideias, que tinha teorias, que tinha estratégias para tornar o povo poruguês um povo bem educado é contraditado pelos fatos. Pensou, certamente, que bastaria falar ou legislar para que a realidade lhe obedecesse. E nas medidas que tomou para conseguir resultados melhores conseguiu exatamente o contrário. Com efeito, segundo um princípio da filosofia escolástica: Ninguém dá o que não tem. Por isso, nos exames os alunos só podem dar aquilo que aprenderam. Ou seja, o problema não se coloca no final mas no processo. Se não houver bom ensino e boa aprendizagem é inútil querer colher frutos. O que o ministro tem que curar é que as escolas funcionem bem, que os professores ensinem bem, isto é, criar as melhores condições para que existam os melhores resultados. Os professores são, por sua vez, responsáveis por que os alunos aprendam bem.

É preciso responder à pergunta principal:

Porque é os alunos tiveram tão maus resultados? Porque não se tratou do exame A ou B, não se tratou de um ciclo ou de um ano, mas de todos os exames. 

Que os exames tiveram um grau de dificuldade para que os alunos não estavam preparados, provam-no os resultados. Terão tido um nível de dificuldade superior ao dos anos anteriores? 

Os alunos deste ano eram menos capazes intelectualmente aos dos anos anteriores?

Os professores que os ensinaram eram menos competentes que os dos anos anteriores

O que os professores ensinaram durante o ano não está de acordo com a matéria saída em exame?

Terá aumentado a negatividade dos corretores e terão transferido, ainda que por processo inconsciente, o seu mal estar e a sua revolta para com o ministro para a correcão da prova? Não é despiciendo o estado de espírito de um avaliador.

Terão (muitos encontram aí a resposta) sido os critérios determinantes nos resultados? Se assim foi, donde resultou tal decisão de apertar assim a malha? Terá sido o combate ao facilitismo, a defesa do rigor? 

Mas, também a razão dos maus resultados, no ou em parte, pode estar no processo: Os professores (por desmotivação, por incerteza, por influência da crise nos seus vários aspetos, por falta de avaliação) não ensinaram bem.

Fariam bem os atores em não sacudir água do capote como temos visto fazê-lo ao Ministro, aos professores, às associações científicas e profissionais, aos sindicatos, etc.

À COFAP e às Associações de Pais cabe uma responsabilidade enorme mas que se situa num âmbito diferente do aqui discutido.

Os resultados são o melhor espelho do que na educação se faz e são a melhor avaliação das políticas educativas e dos seus atores. Quando isto não for verdade pedirei contas, pedirei contas a Cristo:

 «Assim, pelos seus frutos vós os reconhecereis!», Mateus, 7-20

Poemas da minha vida - Senhora partem tam tristes

julmar, 12.07.13

Senhora partem tam tristes

Meus olhos por vó meu bem

Que nuna tam tristes vistes

Outros por ninguém.

 

Tam tristes, tam saudosos,

Tam doentes da partida,

Tam cansados, tam chorosos,

Da morte mais desejosos

Cem mil vezes que da vida.

 

Partem tam tristes os tristes,

Tam fora de esperar bem,

Que nunca tam tristes vistes

Outros nenhuns por ninguém.                        

                       Joam Rodriguez de Castell’ Branco

Um povo que não se governa nem se deixa governar

julmar, 10.07.13

Descendentes dos lusitanos, - depois de andarmos pelos cinco cantos do mundo, depois de uma história de mais de oito séculos como comunidade nacional e no mundo da globalização e das novas tecnologias de informação e comunicação – continua a assentar-nos a observação, atribuída a Júlio César (100-44 a.C.):

"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar."

Quem são estes lusitanos? Das descrições históricas, são apontados como traços comuns o caráter guerreiro, a falta de unidade e coesão política, uma vida rude. Estrabão diz que os lusitanos eram "a mais poderosa das nações ibéricas e que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas", que eram sóbrios e frugais bebendo água,  cerveja de cevada e leite de cabra (vinho apenas nos festins) e comendo pão feito de bolotas de carvalho, carne de cabra, peixe e manteiga.

A contrastar com tanta austeridade, as mulheres aperaltavam-se com grande cópia de jóias.

Era assim nesta parte mais ocidental da Europa, antes de Cristo ter nascido, vivido, morrido. E também depois de ter ressuscitado. E depois da fé de Cristo cá ter chegado mais o culto de sua mãe que se havia de tornar padroeira de Portugal para que nunca mais castelhanos ou outros ousassem exercer domínio sobre nós.  Esta é uma realidade de caráter histórico e antropológico. Somos muito daquilo que já fomos, no pior e no melhor. Sendo que quase tudo o que temos de melhor se origina no que temos de pior. Como no espírito aventureiro onde a coragem e a imprudência andam de mãos dadas, onde fazemos das tripas coração, quase sempre porque a razão adormeceu muito para além do nascer do dia. O tempo, como a vida, para nós não anda nem está parada, o nosso modo de andar é ir andando. Os portugueses nunca estão bem ou mal – vão andando, estão mais ou menos, ou, nunca pior. O modo de agir dos portugueses é basicamente gerundivo, distendendo-se no tempo como se não tivesse tido princípio e como se não houvesse de ter um fim. É assim que os portugueses terminam uma conversa ou um discurso sem terminar porque querem acrescentar só mais uma coisa, dizer uma coisa de que se esqueceram e é da maior importância, repetindo, vezes sem conta, que com isto quero terminar. Os portugueses despedem-se sem se despedir. O que carateriza o modo de agir dos portugueses é o modo imperfeito quer seja passado, quer seja futuro, quase sempre condicional.  Os portugueses mais do que andar, gostam de vaguear, de andar como calha, para onde calha, como calha, que sempre a algum sítio se dará. Parece que foi assim, que chegámos a Vera Cruz. Ainda que tendo horas, continua-se a acertar compromissos, indefinidamente, lá para depois do almoço ou lá para a tardinha, ou, um pouco mais exato, lá para as dez horas da manhã.  

Somos um país por milagre divino, na origem, e por intercessão da Virgem, na perenidade dos anos.

Quem morre? Pablo Neruda

julmar, 04.07.13
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estado de felicidade.