Quinta-feira, 27 de Junho de 2013

Como vai a Formação de Professores - Afonso Leonardo

Ouvi há coisa de um mês, num congresso em Vila Nova de Gaia, promovido pela ANDAEP, um participante discorrer sobre como se pode conseguir boa educação. Dizia o dito participante na sequência da palestra da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, que a boa educação das nossas escolas resulta, no essencial, de três variáveis: Das lideranças, da formação e da avaliação. O estado em que se encontra qualquer um dos pilares é lastimável ou mesmo inexistente. Claro que nos congressos ninguém quer incomodar ninguém e as coisas que se sabem mal são ditas de maneira tão mansa e desresponsabilizadora que no fim o proveito se reduzà autosatisfação dos atores. Passando por cima da conversa redonda que não aleija ninguém - a maior parte dos diretores são bons ou excelentes, em todas as profissões há bom e mau, trabalham sem horário em aceleração constante - a verdade é que líderes escolares no sistema educativo como existe é uma impossibilidade. Poderiam ser bons gestores e, certamente, haverá alguns, contra a lógica do sistema. Poucos, por isso. Mesmo quando o fator vontade exista.

Quanto à formação não existe política nessa área desde o final do primeiro governo de José Sócrates. A revisão do Regime Jurídico da Formação Contínua  deveria estar pronto no final doano 2009 e ainda não se fez. Os Centros de Formação de Escolas estão reduzidos à figura do Diretor, sem financiamento para formação, fazem pouca, muito pouca, ao sabor da oferta (gratuita) de formadores, pouco pertinente. Por isso, os Centros de Formação passam mais certificados de não formação (ridículo? - assim mesmo) do que de formação e constitui, nalguns Centros, a notícia principal das respetivas Páginas da Internet. Se pretende um indicador da atividade e importância no setor da Formação de professores, faça um pequeno exercício abra a página da DGEstE (ex- Dren) http://w3.dren.min-edu.pt/ e clique em Escolas - Centros de Formação e terá num mapa aos diferentes CFAEs da Região Norte. Abra um a um e verifique a atividade formativa dos ditos centros. Encontrará um pouco de tudo e até ficará surpreendido com a qualidade do trabalho de muito poucos. Mas na educação não se pode viver de oásis. Até o CAIS DO FUTURO, ironia, nasceu e morreu sem chegar a crescer. Pretendia ser o lugar de encontro dos CFAEs de todo o país. Sem prejuízo de haver muita gente capaz. Porém, mesmo nos casos em que exista vontade, ela não chega.

Quanto à avaliação dos professores não existe. Neste caso, nem vontade. É tão evidente que nem sequer dá para fazer de conta.

Que resulta disto? Que não teremos boa educação, que seremos mal educados.

publicado por julmar às 18:31
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Terça-feira, 25 de Junho de 2013

Sobre os professores - Miguel Sousa Tavares

 Texto de Miguel Sousa Tavares publicada na edição impressa do Expresso 

 18 de junho de 2013

A minha entrada no ensino foi feita numa pequeníssima aldeia rural do norte. Éramos uns 80 alunos, da 1ª à 4ª classe, todos juntos na mesma e única sala de aula da escola - que não me lembro se tinha ou não casas-de-banho, mas sei que não tinha qualquer espécie de aquecimento contra o frio granítico, de Novembro a Março, que nos colava às carteiras duplas, petrificados como estalactites. Lembro-me de que o "recreio" era apenas um pequeno espaço plano, enlameado no Inverno, e onde jogávamos futebol com uma bola feita de meias velhas e balizas marcadas com pedras. A escola não tinha um vigilante, um porteiro, uma secretária administrativa. Ninguém mais do que a D. Constança, a professora que, sozinha, desempenhava todas essas tarefas e ainda ensinava os rios do Ultramar aos da 4ª classe, a história pátria aos da 3ª, as fracções aos da 2ª, e as primeiras letras aos da 1ª. Ela, sozinha, constituía todo o pessoal daquilo a que agora se chama o 1º ciclo. Se porventura, adoecesse, ou se na aldeia houvesse, que não havia, um médico disposto a passar-lhe uma baixa psicológica ou outra qualquer quando não lhe apetecesse ir trabalhar, as 80 crianças da aldeia em idade escolar ficariam sem escola. Mas ela não falhou um único dia em todo o ano lectivo e eu saí de lá a saber escrever e para sempre apaixonado pela leitura. Devo-lhe isso eternamente.

Nesse tempo, não havia Parque Escolar, não havia pequenos-almoços na escola (que boa falta faziam!), não havia aquecimento nas salas, não havia o recorde de Portugal e da Europa de baixas profissionais entre os professores, não havia telemóveis nem iPads com os alunos, não havia "Magalhães" ao serviço dos meninos, mas sim lousas e giz, os professores não faziam greves porque estavam "desmotivados" ou "deprimidos" e a noção de "horário zero" seria levada à conta de brincadeira. Era assim a vida.

Não vou (notem: não vou) sustentar que assim é que estava bem. Limito-me a dizer que tudo é relativo e que nada do que temos por adquirido, excepto a morte, o foi sempre ou o será para sempre. E sei que na Finlândia - o país considerado modelo no ensino básico e secundário pela OCDE - os professores trabalham mais horas do que aqui, não faltam às aulas e ganham proporcionalmente menos. Com resultados substancialmente melhores, do único ponto de vista que interessa aos pais e aos contribuintes: o desempenho escolar dos alunos.

Só uma classe que recusou, como ultraje, a possibilidade de ser avaliada para efeitos de progressão profissional - isto é, uma classe onde os medíocres reivindicaram o direito constitucional de ganharem o mesmo que os competentes - é que se pode permitir a irresponsabilidade e a leviandade de decretar uma greve aos exames nacionais. Nisso, são professores exemplares: transmitem aos alunos o seu próprio exemplo, o exemplo de quem acha que os exames, as avaliações, são um incómodo para a paz de um sistema assente na desresponsabilização, na nivelação de todos por baixo, na ausência de estímulo ao mérito e ao esforço individual.

Mas a greve dos professores vai muito para lá deles: reflecte o estado de espírito de uma parte do país que não entendeu ou não quer entender o que lhe aconteceu. Deixem-me, então recordar: Portugal faliu. O Portugal das baixas psicológicas, dos direitos adquiridos para sempre, das falcatruas fiscais, das reformas antecipadas, dos subsídios para tudo e mais alguma coisa, dos salários iguais para os que trabalham e os que preguiçam, faliu. Faliu: não é mais sustentável. Podemos discutir, discordar, opormo-nos às condições do resgate que nos foi imposto e à sua gestão por parte deste Governo: eu também o faço e veementemente. Mas não podemos, se formos sérios, esquecer o essencial: se fomos resgatados, é porque fomos à falência; e, se fomos à falência, é porque não produzimos riqueza que possa sustentar o modo de vida a que nos habituámos. Se alguém conhece uma alternativa mágica, em que se possa ter professores sem crianças, auto-estradas sem carros, reformas sem dinheiro para as pagar, acumulando dívida a 6, 7 ou 8% de juros para a geração seguinte pagar, que o diga. Caso contrário, tenham pudor: não se fazem greves porque se acaba com os horários zero, porque se estabelece um horário semanal (e ficcional) de 40 horas de trabalho ou porque o Estado não pode sustentar o mesmo número de professores, se os portugueses não fazem filhos.

Por mais que respeite o direito à greve, causa-me uma sensação desagradável ver dirigentes sindicais, dos professores e não só, regozijarem-se porque ninguém foi trabalhar. Ver um sindicalismo de bota-abaixo constante, onde qualquer greve, qualquer manifestação, é muito mais valorizada e procurada do que qualquer acordo e qualquer negociação - como se, por cada português com vontade de trabalhar, houvesse outro cujo trabalho consiste em dissuadi-lo desse vício. Assim como me causa impressão, no estado em que o país está, saber que quase 200.000 trabalhadores pediram a reforma antecipada em 2012, mesmo perdendo dinheiro, e apesar de se queixarem da crise e dos constantes cortes nas pensões. Porque a mensagem deles é clara: "Eu, para já, mesmo perdendo dinheiro, safo-me. Os otários que continuarem a trabalhar e que se vierem a reformar mais tarde, em piores condições, é que lixam!" É o retrato de um país que parece ter perdido qualquer noção de destino colectivo: há um milhão de portugueses sem trabalho e grande parte dos que o têm, aparentemente, só desejam deixar de trabalhar. Será assim que nos livraremos da troika?

As coisas chegaram a um ponto de anormalidade tal, que, quando o ministro da Educação, no exercício do seu mais elementar dever - que é o de defender os direitos dos alunos contra a greve dos professores - convoca todos eles para vigiar os exames, aqui d'El Rey na imprensa bem-pensante que se trata de sabotar o legítimo direito à greve. Ou seja: que haja professores (que os há, felizmente!) dispostos a permitir que os alunos tenham exames é uma violação ilegítima do direito dos outros a que eles não tenham exames. Di-lo o dr. Garcia Pereira, o advogado dos trabalhadores e do dr. Jardim, infalível defensor da classe operária, e o mesmo que, no final do meu tempo de estudante, na Faculdade de Direito de Lisboa, invocando os ensinamentos do grande camarada Mao, decretava greve aos "exames burgueses" - que o fizeram advogado.

Não contesto que as greves, por natureza, causem incómodos a outrem - ou não fariam sentido. Mas há limites para tudo. Limites de brio profissional: um cirurgião não resolve entrar em grave quando recebe um doente já anestesiado pronto para a operação; um controlador aéreo não entra em greve quando tem um avião a fazer-se à pista; um bombeiro não entra em greve quando há um incêndio para apagar. Eu sei que isto que agora escrevo vai circular nos blogues dos professores, vai ser adulterado, deturpado, montado conforme dê mais jeito: já o fizeram no passado, inventando coisas que eu nunca disse, e só custa da primeira vez. Paciência, é isto que eu penso: esta greve dos professores aos exames, por muitas razões que possam ter, é inadmissível.

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/leia-o-artigo-de-miguel-sousa-tavares-sobre-os-professores-publicado-no-expresso-de-sabado=f814601#ixzz2XDpn9LKj

publicado por julmar às 11:21
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Sexta-feira, 21 de Junho de 2013

O lastimável estado da educação - Afonso Leonardo

O ministro Nuno Crato já prestou provas que cheguem para sabermos que o lugar dele não deveria de ser o de ministro fosse do que fosse, muito menos da Educação. O homem que como comentador criticava a monstruosidade do ministério da Educação e do seu centralismo, o homem que prometeu a implosão do sistema monstruoso, é o ministro mais centralista desde o 25 de Abril. Não se limita às políticas educativas mas pretende dizer como se deve ensinar, que métodos usar, que auxiliares podem ou não ser usados, como é o caso do uso das calculadoras. Talvez tudo isto tenha a ver com a sua concepção juvenil do marxismo-leninismo. Vibrou e apoiou os professores nas suas manifestações e greves quando o que estava em causa era a avaliação dos professores. Pensou que bastaria introduzir mais exames e que, por milagre, os alunos passariam a ser disciplinados e qualificados.
O que de pior se vinha a manifestar nas escolas está agora em explosão: já não se trata de indisciplina mas de violência nas escolas. Algumas escolas tornaram-se sítios perigosos para quem nelas trabalha: alunos, professores, funcionários. As escolas, que deviam ser espaços de segurança, tornaram-se sítios onde se intalou o medo. Os professores, deprimidos uns, desmotivados quase todos, não têm condições para ensinar e não têm segurança alguma quanto ao seu próprio futuro.
Urge que este ministro se apeie ou seja apeado e vá exercer a sua nobre função de professor.
publicado por julmar às 16:41
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Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Leituras de Junho - Madrugada Suja

 

Li mais um romance do MST. Valeu a pena? Porque não estou de acordo com o verso de Pessoa - porque tenho a alma nem grande, nem pequena  -, direi que sim. Não é o tipo de escrita que eu goste, não é o tipo de enredo que aprecie mais. A linguagem é a linguagem de jornalista com pretensão literária, as personagens são talhadas mais em termos de curvas e retas (retratos femininos), com pouca densidade psicológica. O enredo é, para os da minha geração, uma descrição da realidade vivida a seguir ao 25 de Abril, tudo muito familiar: as bebedeiras académicas, a desertificação das nossas aldeias (no caso tinha que ser uma aldeia alentejana), as campanhas do MFA, a Reforma Agrária, um pais devastado pela construção urbanística destruindo a paisagem aliada à corrupção que sobe do poder local ao poder central. Pelo cenário alentejano, pela temática tratada, pela linguagem é uma aproximação da obra de Manuel da Fonseca.

Não me admiraria de aqui a um ano ver a obra em novela na televisão.

publicado por julmar às 16:34
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O lastimável estado da educação - Afonso Leonardo

Quase todas as medidas, quase tudo o que se faz em Educação tem que dar maus resultados, traduzido num povo com analfabetos, pouco qualificado, mal educado. Como são muitos os governantes, como são muitos os legisladores, como são muitos os sindicatos, como são muitos os professores, como são vários os níveis de ensino, como são várias as modlidades de ensino, como são muitos os intervenientes do ato educativo quando se chega aos resultados ninguém é responsável por eles: nem os alunos, nem os pais, nem os professores, nem as escolas, nem os diretores das escolas, nem os políticos. É um sistema de completa irresponsabilidade em que os únicos que prestam contas, os únicos que são avaliados são os alunos. Parece-me que deveríamos tomar os resultados dos alunos como a avaliação dos seus educadores, na primeira linha os professores, pois o ato educativo é constituído pela relação professor-aluno. O professor, como qualquer profissional, só pode afirmar a sua qualidade pelos resultados que apresenta, quer em termos quantitativos quer qualitativos. Como existem muitos elementos que circunstanciam o ato educativo (as qualidades intrínsecas do aluno, o meio familiar, as políticas educativas, os recursos existentes, entre outras) o professor tende a atribuir os resultado a todas essas variáveis, sobretudo se o reultado é mau. Essa é, certamente, uma das razões por que os professores acham que os resultados dos alunos não devem entrar na avaliação dos professores. Mas, porque desconfiar dos resultados dos alunos se tal avaliação é feita pelos professores? 

Aceitar que a qualidade dos professores não tem efeito na qualidade de aprendizagem dos alunos é um disparate. Sabemos que os alunos não são todos iguais, que as turmas não são todas iguais, que as escolas não são todas iguais. Não são iguais porque umas são privadas e outras são públicas, porque os contextos sócio-económicos em que se integram são muito diversificados, porque umas são centrais e outras periféricas, porque umas têm corpos docentes estáveis e outras não.  Há turmas e escolas onde a vida de professor é fácil e outras em que é difícil. Porém, a política educativa não tem em conta estes fatos. A política do ministério da educação é uma política liberal, afirmando um princípio de igualdade traduzido numa legislação que coloca em plano igual realidades muito diversas. Tudo feito a partir de Lisboa central para o país inteiro. E por mais medidas de apoio social - SASE -, projetos avulsos vários, pacotinhos de leite ou medidas de apoio pedagógico que atenuem as diferenças, elas são sempre irrelevantes. Os melhores, ou pelo menos os professores com mais anos de serviço, estarão sempre nas melhores escolas e escolherão sempre os melhores horários, as melhores turmas e os melhores alunos. Isto é um pouco como se num hospital os casosmais difíceis fossem entregues aos médicos estagiários ou em princípio de carreira. Mas no Ministério da Educação é assim: os professores novos, em regra, ficam nas escolas onde o insucesso é maior, têm um horário letivo maior, ficam com as piores turmas e com os piores alunos. E, claro, ganham bastante menos. 

Tudo isto tem muito pouco a ver com democracia, procura do bem comum, com racionalidade pedagógica económica. Tem sobretudo a ver com a tradição, com o exercício do poder, com a ordem estabelecida. Poder dos governantes sobre os governados, poder dos velhos sobre os novos e conservação de quadros mentais autoritários.  Os sindicatos seguem, no essencial, a mesma lógica do governo porque dela são beneficiários e, nalgumas situações, são o maior travão à mudança como mostra o exemplo recente em que se opuseram a uma medida governativa que defendia uma majoração no tempo de serviço aos professores que fossem para zonas desfavorecidas.

Toda esta desresponsabilização se espelha no fato de não haver avaliação. Isto são contas do mesmo rosário. De um rosário longo. A desfiar brevemente.

publicado por julmar às 15:16
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Domingo, 16 de Junho de 2013

Das coisas inúteis

 

 

 

 Filosofia,,arte e flores no rol das coisas que não servem para nada. Este ano investi nas petúnias que alimentadas por matéria orgânica decomposta ao longo de meses as tornam tão exuberantes.

publicado por julmar às 21:37
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Feiras de outros tempos - Um dia de feira

«Por um largo e escalavrado caminho, restos da antiga estrada romana de Braga, viajavam dois nobres a cavalo (...) Alcançaram-nos no caminho uns mercadores (...). Metem conversa os fidalgos com os comerciantes, montados nas ancas dos seus jumentos (...). Vão à feira de Ponte de Lima (...).

Chegados à feira, dificilmente conseguem mover-se pelo meio da multidão que ali se junta, principalmente de gente do povo por entre os quais, aqui e ali, se avistam alguns mesteirais, vendedores ambulantes, um ou outro senhor, frades e padres e as autoridades reais e concelhias.
É um espectáculo pitoresco o de toda essa gente falando alto ou gritando, gesticulando (...). Espalhados pelo terreiro, muitos animais para venda (...), couves, odres de vinho, ervilhas, tijelas de barro, potes de azeite, que vieram dos lados de Coimbra.(...) utensílios de Lavoura, calçados, panos de lã e de linho (...).
Nisto apareceram os jograis. Um deles traz à trela um urso que dançava ao som do pandeiro. De seguida, uma rapariga que exibe alguns números de ginástica (...). Então, depois de prenderem o urso a uma estaca, a pequena canta, acompanhada à viola pelo homem. 
Junta-se muita gente em redor, que aplaude e lança nos jograis moedas.»
Sanchez Albornoz, "Uma Cidade Hispano-Cristã há um Milénio"

publicado por julmar às 13:03
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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

O lastimável estado do ensino em Portugal

Este post foi publicado emFevereiro 15, 2004

O artigo que se segue foi escrito há mais de dez anos. Veja como o monstro continua a tornar-se mais monstruoso!

Os exames a nível nacional que acabamos de realizar deveriam ter, para além dos erros e erratas que em si são coisas de somenos, a virtude de nos fazer olhar de frente para o sistema de ensino e descobrir o monstro que ao longo das três últimas décadas se foi construindo. Na construção do dito monstro (s. M. – do Lat. Monstru – 1. Ser organizado, animal ou vegetal que apresenta conformação muito diferente da que é natural na sua espécie. 2. Animal ou coisa de grandeza desmesurada ... ) participaram, de maneira vária e contributo diverso, os Governos da Nação, os Partidos – os do governo e da oposição – Associações de pais, Sindicatos de Professores, Universidades – Públicas, Privadas e Cooperativas -, Conselho Nacional de Educação, enfim, figuras singulares de respeitável saber. Aos professores coube realizar o que todos os outros sonharam e cuja essência se encontra na (com)sagrada Lei de Bases do Sistema de Ensino de 1986: Educar a todos, em todos os lugares, segundo os mesmos princípios, durante igual período de tempo.
Aquilo que se quis fazer foi um sistema. Porem, os arquitectos eram vários, foram(-se) mudando e aquilo que hoje um programava, o outro desprogramava; aparecia um e acrescentava mais uma disciplina; depois vinha outro e acrescentava uma área; acharam todos que o melhor era alterar todos os programas e aumentá-los a todos. Por exemplo na Filosofia do 12º ano o professor (ou numa perspectiva de democracia avançada, o professor e os alunos) escolhe(m) três obras de um conjunto de 22 obras!, não seja caso que alguma corrente ou proeminente filósofo se veja votado ao esquecimento. Atendendo à liberdade de tudo poder aprender, substituiu-se no Ensino Secundário a Formação Vocacional pela Formação Técnica que dá a cada aluno a possibilidade de satisfazer e explorar os seus interesses – assim um aluno de Latim e História poderá frequentar Técnicas Laboratoriais de Química e um aluno do ramo científico poderá dedicar-se ao estudo da Teoria do Juízo Final, se a sua escola achar de interesse a temática. Para ver como o monstro cresce é preciso estar atentos a todas estas deformidades e excrescências e à proliferação das nomenclaturas de disciplinas e cursos, nomeadamente de engenharia. Passou-se da tese de que as palavras traduzem o mundo para a tese de que as palavras o criam em actos demiúrgicos do fiat lux. Tal é um perigoso jogo quando fora do domínio da ficção e da arte.
Aquilo que se quis fazer foi um sistema, um sistema baseado nos melhores princípios da filosofia leibniziana segundo a qual este é o melhor dos mundos e da filosofia rousseana segundo a qual o homem é naturalmente bom, havendo que cuidar que a sociedade o não corrompa; baseado, enfim, nos princípios (teóricos, obviamente) da igualdade, liberdade e fraternidade e de princípios pedagógicos que daqueles derivem: o direito ao sucesso – para o que devem ser criadas condições. Criar condições foi um dos objectivos do PIPSE da distribuição dos pacotinhos do leite. E assim, se desce dos nobres princípios filosóficos às questões leiteiras. Mas porque nem só de leite são feitas as condições do sucesso, o legislador criou uma peça fundamental: o despacho 98A/92: Peça fundamental do sistema à qual nenhum pedagogo recusaria o seu beneplácito se fosse para aplicar no melhor dos mundos que não é seguramente o nosso: Ninguém mais irá reprovar, ou melhor ser retido, porque a cada aluno irá ser prestado um apoio pedagógico adequado que inevitavelmente o conduzirá ao sucesso. A retenção será um facto extraordinário que só se consumará após o professor, o conselho de turma, a escola terem esgotado todos os recursos. Porém, se a retenção é difícil a retenção repetida só na teoria será possível já que na prática mobiliza tanta burocracia que só um mentecapto lançaria mão de tal medida.
Os professores que já aprenderam a dançar conforme a música também tentaram dançar esta mas não encontraram forma harmónica de a executar. Alguns mais velhos e experimentados disseram: eles tocam a música que quiserem e a gente dança a música que sabe. Foi, então, que o tocador de música, olhando os dançarinos, começou a tocar, num compromisso impraticável olhando ora para a pauta, ora para os dançarinos originando uma trágica comédia.
Foi então, que disseram ser necessário ensinar os bailarinos e que isso nem ia ficar caro dado os fundos europeus para o efeito. Os bailarinos não precisavam, portanto, de pagar. Até era bom haver onde de gastar o dinheiro que não era nosso. Lançaram-se de Norte a Sul, Madeira e Açores acções de formação que dão créditos (mais do que crédito) aos dançarinos com os quais subirão os diversos graus da carreira. Aparecem, de um momento para o outro, mestres de dança de todos os lados: Universidades, Sindicatos, Associações Científicas e Profissionais, e os criados para o efeito os Centros de Associação de Escolas. Os professores mais pelos créditos do que por vontade de aprender a dança vão demandando a oferta, escassa e pouco credível, na esperança de não serem convocados e de sem créditos irem subindo em suas carreiras. A maioria das entidades formadoras não tem quem, de facto saiba dançar, e a maior parte dos professore não quer aprender. Faz-se, então, um exercício de aprendizagem teórica que consiste aprender/ensinar a dançar sem nunca ensaiar um único passo, compromisso em que os professores são mestres com os seus alunos. Cúmplices, mestres e dançarinos, avaliam o próprio trabalho – auto-avaliam-se – esquecendo o provérbio que diz ninguém é bom juiz em causa própria. Desta forma, o monstro se desconhece como tal e não cessa de apregoar as suas virtudes e a sua beleza.
O professor é, na sociedade, quem mais avalia e é, talvez, o que mais horror tem à avaliação. Todos os dias se expõe ao olhar dos seus alunos que lhe conhecem a música e a dança e, no entanto, teme a sua avaliação. Teme qualquer tipo de avaliação que não seja a sua. Quanto mais severo é na avaliação para com os alunos mais teme ser avaliado. Por isso, a classe andava agitada, ansiosa, angustiada com a exigência de um trabalho de índole educacional (com um mínimo de 25 páginas!) para transição ao 8º escalão. Muitos se haviam já resignado a ficar pelo 7º. Foi a melhor prenda que o governo socialista podia ter oferecido: a abolição da dita prova. Quem a fez que a não tivesse feito, que não fosse parvo.

publicado por julmar às 11:44
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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

Leituras de Junho

Uma leitura que nada acrescenta ao que já sabemos, nomeadamente através de Paulo Morais. Mas não é um livro inútil. Ali encontramos sistematizados as instituições e pessoas corrupatas do país. Consegue demonstrar claramente que a crise é causada não pelos "altos salários" do comum dos portugueses, nem por terem vivido acima das suas possibilidades mas por virtude da corrupção que grassa impunemente na classe política, nos banqueiros e nalguns empresários. E, claro, na burocracia e ineficácia da justiça.

Precisamos de mais cidadãos com a coragem de Paulo Morais que pôe os nomes. Se o que diz não é verdade, então, porque é que os visados não reagem?

E isto não tem só a ver com os outros:

«O primeiro contributo que cada um de nós pode dar é, no seu dia-a-dia, ser militantemente sério. Não só assumiir um comportamento materialmente sério e ser inteletualmente honesto, como exigir o mesmo de cada um dos seus concidadãos com quem interage (...) cada um de nós pode dar um contributo individual no aumento generalizado de censura à corrupção». 

publicado por julmar às 10:55
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Quinta-feira, 6 de Junho de 2013

A feira do livro morreu


Desde que me mudei para o Porto, vai para quatro décadas, que, anunciando o Verão, reservava um final de dia para ir à Feira do Livro para fazer o que regularmente faço: comprar livros. Antigamente mais do que agora, na esperança de encontrar uma pechincha. Com tanta sorte que sempre encontrava alguma. Os filhos acompanhavam, na certeza, de que nessa altura teriam aquilo que nunca lhes  neguei: livros.  Anos mais tarde, era ocasião de percorrer as bancas com amigos fechando com uma ceia no final ou um copo apenas.

A feira morreu ou mataram-na. Não por falta de dinheiro. Certamente vai haver dinheiro para outras atividades mais barulhentas com outros atores e outros públicos.
publicado por julmar às 16:29
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Terça-feira, 4 de Junho de 2013

A educação – Verdades inconvenientes – 1 - Afonso Leonardo

Políticos, comentadores, economistas, empresários, oradores de tribunas várias, homens da rua, mulheres-a-dias, vendedores de automóveis e mesmo de bicicletas, procuradores da república e arrumadores de carros, presidentes ministros e secretários, comerciantes de coisas várias e comerciantes de várias coisas opinam, do lugar que ocupam, sobre o lastimável estado em que se encontra a educação. E o consenso é total sobre a importância da mesma e sobre a generalizada e crescente falta dela, sendo que a opinião dos homens públicos, zeladores do bem comum, não são mais nem menos insensatas que as dos homens que sobre a coisa pública opinam por opinar.

A educação é uma responsabilidade da sociedade no seu todo. Proposição sensata que, de tão generalista, não responsabiliza ninguém. Isso tem uma parte boa porque se encontrou um bode expiatório que não berra e que desresponsabiliza os responsáveis. Diremos, então, que os responsáveis são os políticos, nomeadamente o Estado, e dentro dele o governo da Nação, e no governo o ministro da educação: Mas se o Estado e a Nação continuam, os governos mudam e, com frequência maior, mudam os ministros da educação. E desde o 25 de Abril (Porta de saída, de entrada ... ?) já foram 28 (vinte e oito!) os ministros da Educação. Sendo os frutos da educação, por natureza, tardios, nenhuma responsabilidade pode ser pedida a quem não teve tempo para semear e tratar. Por isso, se não adianta responsabilizar a sociedade, também se não pode responsabilizar quem dela cuida: os Governos e, na questão em causa, os Ministros da Educação.

Portanto, resta-nos continuar … a ser mal educados.

publicado por julmar às 12:40
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Segunda-feira, 3 de Junho de 2013

A Burocracia vergonhosa

Entrado pelos sessenta adiante, conheci ao longo da vida a burocracia, estúpida burocracia, sempre que tive de tratar assuntos com o Estado. Como estudante, para além das coisas menores, quando tive de mudar de curso e faculdade, quando comprei um apartamento e os serviços municipalizados teimavam em não colocar as infraestruturas a que estavam obrigados por contrato, quando construí uma casa para habitação própria, quando licenciei um estabelecimento. Difícil porque decidi viver sem favores para mim e para os meus. Difícil num país onde a cunha e o suborno são o atalho mais seguro. Difícil num país onde o olhar frontal é anormal. Normal é baixar os olhos e rogar submisso ou, falar de cima da burra: - O senhor sabe com quem está a falar?

Pensei que tivéssemos melhorado. Ofereci a minha ajuda a uma familiar que viveu em França e pretendia uma matrícula portuguesa para o carro. Disse-lhe que não precisaria de recorrer ao serviço de uma agência que eu arranjaria os impressos necessários e faria o seu preenchimento. Pois, então, em resumo:

Foram sete as vezes que tive de ir aos serviços aduaneiros (cada viagem ida e volta, cerca de 60Km). 

Inspeção do veículo - faltava um ou outro dado no preenchimento do modelo, a senhora disse que não tinha que ajudar a preencher e que devia ter entregue a uma agência. Disse-lhe que não tinha dinheiro para isso e ajudou.

IMTT(Instituto da Mobilidade e dos traansportes terrestres):

          - 1ª vez - duas horas de espera de vez para ser atendido. Papéis vistos carimbados e assinados que passasse quarenta e oito horas depois pela portaria para levantar.

         2ª vez - Afinal faltava um papel que esperasse pela senhora Engenheira. Esperei uma hora pela senhora engenheira a quem mostrei o mesmo papel que mostrara anteriormente e que não pediram. Que fosse tirar uma cópia para entregar, disse-me. Disse-lhe que era um problema dos serviços e que era preferível serem eles a resolvê-lo. La foi tirar uma fotócópia mas que teria de ir buscar depois porque era preciso ... O que era preciso era terem feito bem o serviço ... e a senhora engenheira pediu que aguardasse. Aguardei um tempo que não contei mas me pareceu desproporcionado. Lá fui aos serviços alfandegários pela 6ª vez entregar o número de não sei quê para atribuição da matrícula.

         3ª vez - com o pagamento feito na alfândega (Dois mil cento e tal euros) lá fui mais uma vez ao IMTT para pagar mais cerca de 70€. Pedii o tiket com o número de vez. Perguntei ao funcionário uma previsão do tempo que iria esperar. Disse-me que se ninguém desistisse seria hora e meia. Previsão errada pois esperei quatro horas. A seguir teria de ir à Conservatória. Àquela hora teria de ficar para o dia seguinte.

Isto é só uma legalização de um automóvel no Regime Geral. Todo est trabalho de um cidadão para que o Estado arrecade um imposto superior a dois mil euros. 

Andou este cidadão para os Serviços aduaneiros7x60= 420Km

Para o IMTT 3x50= 150

Isto é um total 570Km

Gastou este cidadão em espera só no IMTT cerca de 7 horas

Ora como a sala do IMTT está sempre apinhada de gente é fácil calcular os milhares de horas que todos os dias se perdem.

Reformar o Estado? Os políticos não conhecem o país onde vivem. Os diretores destes serviços diria que, no mínimo, são incompetentes. Os funcionários vão funcionando. Os cidadãos, isto aflige-me, acham normal.

publicado por julmar às 16:02
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