Conhecer com fundamento é um caminho difícil. Hoje todos os espíritos, preguiçosos uns e interesseiros outros, estão empanturrados com a verdade. A dialéctica, que devia ser o caminho para a ela aceder, tornou-se num exercício mediático, numa luta verbal cheia de truques e rasteiras com transgressão das regras mais elementares do espírito racional.
E o modo mais habitual de enganar-se e de enganar os outros: pressupor no conhecimento algo como já conhecido e deixá-lo tal como está. Um saber desses, com o vaivém de palavras, não sai do lugar – sem saber como isso lhe sucede.
Enquanto o senso comum recorre ao sentimento, – seu oráculo interior – descarta quem não está de acordo com ele. Deve deixar claro que não tem mais nada a dizer a quem não encontra e não sente em si o mesmo; em outras palavras, calca aos pés a raiz da humanidade. Pois a natureza da humanidade é tender ao consenso com outros, e sua existência reside apenas na comunidade instituída das consciências. O anti-humano, o animalesco, consiste em ficar no estágio do sentimento, e em só poder comunicar-se através do sentimento.
Hegel – Fenomenologia do Espírito
Um texto que achei interessante mas de que me esqueci de referenciar o autor e a obra. Aposto que é de Aristóteles.
Se procurarmos o que é que conserva no seu ser o universo, juntamente com todas as coisas particulares, verificamos que não é senão a ordem, a qual é a disposição das coisas anteriores e posteriores, maiores e menores, semelhantes e dissemelhantes, consoante o lugar e o tempo, o número, as dimensões e o peso devido e conveniente a cada uma delas. Por isso, alguém disse, com elegância e verdade, que a ordem é a alma das coisas. Com efeito. Tudo aquilo que é ordenado, durante todo o tempo em que conserva a ordem, conserva o estado e a sua integridade; se se afasta da ordem, debilita-se, vacila, cambaleia e cai. O que é evidente por toda a espécie de exemplos tirados de toda a natureza e de toda a arte.
http://www.youtube.com/watch?v=lS-af9Q-zvQ
Cada geração tem os seus músicos e os seus ídolos. A minha teve a fortuna de ter os anos sessenta recheados de acontecimentos e sobretudo de talentos musicais extraordinários. Entre eles os The Doors que é das raras cassetes, ouvida até à exaustão, que ainda tenho. E nada como a música para nos despertar a memória.

Nalguns domínios da Educação, nomeadamente da Formação de Professores, até parece que se decretou a excelência universal, partindo de uma espécie de princípio que todos os professores são excelentes até prova em contrário. Com efeito, observando algumas das pautas de classificação de acções verifica-se a totalidade numas a quase totalidade noutras de excelentes.
Como se a excelência não deixasse de o ser ao tornar-se vulgar.
Não consigo ler Pessoa sem me perder. Se for poema é um a pedir outro. E se for prosa ... como ler um parágrafo sem querer passar ao seguinte?
![[ilustração: Alberto Cutileiro. Retrato de Pessoa no Martinho da Arcada. Ago. 1934.]](http://multipessoa.net/media/labirinto/passos-imagens-mini/336.png)
Escrever é usar as palavras com sensualidade
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Bernardo Soares

Fotografia de Olívia Dias - Lírios no Castelo de Vilar Maior
Bem que Cristo podia ter escolhido o lugar do Castelo para a pregação das obras de Misericórdia. Até poderá estar arrependido, pois, a ser aqui, não teriam surgido os problemas que surgiram nas terras onde pregou. Ao feito não há remédio.
Mas teria gostado de o ver contemplar os lírios e de o ouvir assim:
«Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso vos digo: «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? E porque vos inquietais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam; mas Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos inquieteis, dizendo:‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’. Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas. Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».
A rua, o largo, a praça, o café e a taberna mudaram para o Facebook. É, por aí, que desfilam opiniões, sentimentos e paixões, críticas frontais e críticas sem rosto. Por aí, passam amigos que já eram nossos amigos e amigos do Facebook. Uma das vantagens ddesta rede social é que a paixão é mediada pela distância que, por si, já permite algum distanciamento e, também, o facto de a comunicação, sendo escrita, permitir uma filtragem de gestos, mímicas, posturas, roncos, rugidos e outros sons da nossa ancestralidade.
A escrita permite uma filtragem da química corporal e do olhar do outro sobre nós. E cada um dos intervenientes procura fazer chegar aos outros a sua melhor imagem: a começar pela foto de perfil, os momentos bons da sua vida, através de fotos de sítios paradisíacos. Uma profusão enorme de imagens, convictos de que vale mais uma imagem do que cem palavras ou por incapacidade de expressão escrita. Porém, um mundo de imagens sem palavra é um mundo de surdos.
Para muitos, o Facebook é a afirmação da sua existência: eu estou ou mostro-me, no Facebook, logo existo. Díríamos que a maneira como cada um se mostra nos ensina sobre o tipo de existência e, com tempo, será possível fazer a descrição das tipologias de tais modos de existência que vão da trivialidade trivial ao pensamento do pensamento. Não há sítio ou site mais democrático e aberto que o Facebook já que não depende do poder económico, do sexo, da religião, da idade, da posição social, da formação académica ou de qualquer situação particular.
Dado que a realidade é feita de matéria (átomos) e comunicação (bytes) - será que há algo mais ou que estas duas coisas são uma só? - a cultura, com a chegada da Internet - está numa mudança altamente acelerada instituindo uma cultura muito diferente do que conhecemos até hoje. O limite é apenas o corpo.
O Facebook é também um lugar privilegiado do não pensamento porque é, sobretudo, o lugar do pensamento feito, nomeadamente, no concernente à ética, enquanto entedimento sobre o modo como devemos - ou sobretudo os outros devem - conduzir as nossas vidas, quase sempre num sentido eudemomista. O manancial de mensagens sobre como ser feliz é tal que, se a felicidade depender disso, só será infeliz quem achar que que a infelicidade é o caminho para a felicidade, como ouvi a ilustres pregadores.
Pensamento feito são máximas, provérbios, ditos e dixotes apropriados a mentes preguiçosas que os pesquisam no google, mais do que nos livros, quase sempre mais para darem um tiro nos outros do que para aplicarem a si mesmos. Tal como vão ao supermercado comprar bens alimentares, assim vão buscar o conhecimento pronto a consumir, ignorando que um conhecimento que não fazemos ou refazemos é um não conhecimento.
Sirva de exemplo o cartaz ilustrativo com que iniciamos o post que, com frequência, passa no Facebook de onde o retirei. O pensamento feito é categórico, afirmativo, taxativo. Divide, como Bush, o mundo entre pessoas boas e más. No caso, divide as pessoas entre idiotas e inteligentes. Obviamente, que nós estamos do lado dos inteligentes. Os idiotas são sempre os outros. Mas, como quem faz esta afirmação não tem dúvidas sobre o que afirma acaba por cair na categoria dos idiotas. Dificilmente se pode ser tão idiota.
Sejam prudentes. Como diz a canção do Sérgio Godinho - Cuidado com as Imitações, quero dizer, com as citações.
Por aqui me fico. Estou em pulgas por ir ver os meus amigos do Facebook.
«A obstinação e o ardor opinativo são a prova mais segura da estupidez. Não há ninguém mais convicto, decidido, desdenhoso, meditativo,grave, sério do que o burro:» In Pequeno Vade-mecum, Montaigne
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VI"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Sempre que posso, fujo até Braga, cidade que conheci há quarenta anos. Saí da camioneta no Campo da Vinha carregado com a mala dos meus teres e haveres, rumei pela Rua do Carvalhal, como poderia ter sido qualquer outra, cruzei a rua dos Chãos até às escadinhas da Senhora de Guadalupe, onde, por indicação, pernoitei da sábado para domingo. Nunca mais esquecerei a alvorada daquele dia com os sinos das inúmeras igrejas da Cidade dos Arcebispos a convidarem os crentes ao cumprimento da obrigação dominical. Nunca mais os voltei a ouvir os sinos ou a ouvi-los daquela maneira. Nesse tempo, Braga era a Sé, a Avenida Central e as ruas da Voltinha dos Tristes - a rua do Souto, a rua do Jardim de Santa Bárbara e a rua dos Capelistas. Era Avenida, o Largo da Senhora a Branca e a Rodovia. Eram os cafés, por onde passeávamos os livros, os amigos, as namoradas no arrastar de um tempo sem pressa. Era o Nosso Café, o Cinelândia, o café da Avenida, a confeitaria Lusotânia e Benamor. E eram os grupos de romeiros para S. Bentinho da Porta Aberta que sabia bem ouvir nas manhãs descomprometidas de domingo. Mas Braga eram os santuários do Sameiro e do Bom Jesus, mais este que aquele. Em verdade não era a santidade alimentada a cera que neles me maravilhava. Era uma outra transcendência, como a de ontem. Sentado na esplanada, senti-me feliz, sabe-se lá porquê. Pelo sol, pelas flores, pela cidade espreguiçada lá em baixo, pelo sabor do café, pelas pessoas, pelas crianças a espreitarem Braga por um canudo. Pela vida. Pela beleza do sítio que a mulher do casal sexagenário, sentado na mesa ao lado, repetia como jaculatória:
C' est merveilleux!
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