“ Vivi, olhei, li, senti. Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou certa, Terás então de ler de outra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser , quê, A não ser que esses rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.”
A Caverna de José Saramago
Leitura que me custou levar até ao fim. Cansam-me as leituras que concordam demasiado com as minhas ideias. Aprendo pouco. Há no entanto uma ideia em que me afasto, a ideia de que o mundo está cada vez pior. Talvez isso seja verdade para as minorias que no passado detinham a exclusividade dos benefícios da cultura.
A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afeta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, atua como mecanismo de distração e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa
Em 7 de Maio no Expresso dava-nos conta o actual ministro de como ia a formação de professores. Elogia a ministra - Maria de Lurdes Rodrigues - por anunciar a limitação de crêditos em áreas que não sejam as da área disdiplinar da docência. Mas, ó senhor ministro, agora é o senhor que tem as mãos na massa: Então que é feito da formação de professores? Dicas para ser pior professor(a) http://nautilus.fis.uc.pt/cec/arquivo/Nuno%20Crato/2005/20050507_Dicas.pdf

"Eu, Galileu Galilei, filho do finado Vincenzio Galilei de Florença, com setenta anos de idade, vindo pessoalmente ao julgamento e me ajoelhando diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, Inquisidores Gerais da República Cristã Universal, contra a corrupção herética, tendo diante de meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com minhas própria mãos, juro que sempre acreditei, e, com o auxílio de Deus, acreditarei no futuro, em tudo a que a Santa Igreja Católica e Apostólica de Roma sustenta, ensina e pratica. Mas como fui aconselhado, por este Ofício, a abandonar totalmente a falsa opinião que sustenta que o Sol é o centro do mundo e que é imóvel, e proibido de sustentar, defender ou ensinar a falsa doutrina de qualquer modo; e porque depois de saber que tal doutrina era repugnante diante das Sagradas Escrituras, escrevi e imprimi um livro, no qual trato da mesma e condenada doutrina, e acrescendo razões de grande força em apoio da mesma, sem chegar a nenhuma solução, tendo sido portanto suspeito de grave heresia; ou seja porque mantive e acreditei na opinião que diz que o Sol é o centro do mundo e está imóvel, e que a Terra não é o centro e se move, desejo retirar esta suspeição da mente de vossas Eminências e de qualquer Católico Cristão, que com razão era feita a meu respeito, e por isso, de coração e com verdadeira fé, abjuro, amaldiçoo e detesto os ditos erros e heresias e de uma maneira geral todo erro ou conceito contrário `a dita Santa Igreja; e juro não mais no futuro dizer ou asseverar qualquer coisa verbalmente ou por escrito que possa levantar suspeita semelhante sobre minha pessoa; mas que, se souber da existência de algum herege ou alguém suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Ofício, ou ao Inquisidor do lugar onde me encontrar. Juro ainda mais e prometo que satisfarei totalmente e observarei as penitências que me forem ou me sejam ditadas pelo Santo Ofício. Mas se acontecer que eu viole qualquer de minhas promessas, juramentos, e protestos (que Deus me defenda!) sujeito-me a todos os castigos que forem decretados e promulgados pelos cânones sagrados e outras determinações particulares e gerais contra crimes deste tipo. Assim, que Deus me ajude, bem como os Santos Evangelhos, os quais toco com as mãos, e eu, o acima chamado Galileu Galilei, abjuro, juro, prometo e me curvo como declarei; e em testemunho do mesmo, com minhas próprias mãos subscrevi a presente abjuração, que recitei palavra por palavra.” Em Roma, no Convento de Minerva, 22 de Junho de 1633. Eu, Galileu Galilei abjurei como acima por minhas próprias mãos.
Terra, água, ar e fogo foram disputados, nos filósofos gregos, como elementos primordiais de que as coisas eram feitas. Contrapondo à exclusividade de um só elemento Empédocles afirmou a necessidade dos quatro na composição dos corpos e Aristóteles, baseado na teoria dos quatro elementos, teorizou a mais bela e perfeita das cosmologias. Apesar disso, era redondamente falsa. E apesar de falsa era e é extremamente útil. Continuamos a sentir-nos no centro do universo, confortáveis por o sol andar à nossa volta, pela imutabilidade do firmamento, por sabermos que os corpos pesados, como a terra, caem para baixo (tanto mais depressa quanto mais pesados são) e que os mais leves, como o fumo e o fogo sobem. Era um mundo de simpatias em que o semelhante tendia para o semelhante ( similia similibus agregantur), dispondo-se as massas do universo de acordo com o seu peso: terra, água, ar e fogo. Neste mundo tudo está, naturalmente, no lugar que lhe convém. A desordem, o desiquilíbrio, o conflito são desarranjos acidentais e passageiros. Um universo perfeito. Tão perfeito que o cristianismo o aceitou como doutrina religiosa, trocando apenas a impessoalidade do Motor Imóvel do filósofo pagão por Deus Pai, criador do céu e da terra. Não somos naturalmente cristãos, mas somos naturalmente aristotélicos. A física de Aristóteles é perceptível e evidente. Mas falsa. Quando passados 15, 16 séculos de cristianismo com o geocentrismo como doutrina oficial da Igreja não lhe era fácil aceitar o heliocentrismo. Por isso a perseguição e condenação dos que se desviassem da doutrina oficial. Galileu, aos 73 anos, abjurou, talvez não por querer viver mais anos, mas para evitar as torturas e morte na fogueira como aconteceu a Giordano Bruno, entre outros. Noventa anos antes da condenação de Galileu (1633), Copérnico (1473-1543), no leito da morte, publica a obra De Revolucionibus Orbium Coelestium, em que é defendido o heliocentrismo. Porém, a obra estava escrita em latim ( o que significava que apenas os eruditos tinham acesso à sua mensagem), era muito grande, tinha muitos cálculos matemáticos e o monge que a prefaciou, bem ao contrário, do que fica demonstrado no corpo da obra, apresentava o heliocentrismo como uma hipótese. Nesse tempo, reinavam os Filipes de Espanha em Portugal, os judeus já tinham sido expulsos e, em Vilar Maior, o sol indiferente às teorias, levantava-se todas as manhãs, depois do cantar dos galos.

"A 17 de fevereiro de 1600, o dominicano despadrado (Giordano Bruno), de cabeça rapada, foi montado num burro e conduzido ao poste que tinha sido erguido no Campo de' Fiori. Recusara-se persistentemente a renegar durante as inumeráveis horas em que foi interrogado por vários frades e recusou arrepender-se ou permaneceu em silêncio até ao fim. As suas palavras não foram registadas, mas devem ter irritado as autoridades, pois ordenaram que lhe pusessem um freio na língua. E fizeram-no literalmente, segundo um dos relatos: colocaram-lhe um prego na bochecha atravessando a língua e saindo do outro lado, outro prego selou-lhe os lábios, formando uma cruz. Quando um crucifixo foi colocado de frente do seu rosto, ele voltou a cabeça. A fogueira foi acesa e fez o seu trabalho. Depois de queimado vivo, os ossos foram quebrados em pedaços, e as cinzas - as minúsculas partículas que, segundo acreditava, voltariam a entrar na grande e alegre circulação eterna da matéria - foram dispersas." pg 212
Este é um dos livros mais fascinantes que li até hoje, no que concerne a ideias de religião, ciência e filosofia. Claro que simpatizo com a perspetiva do autor, sinto-me do seu lado. Do lado dos que acreditam na liberdade, que recusam verdades impostas, que praticam a tolerância, que procuram a felicidade neste mundo, que procuram no conhecimento a destruição do preconceito e do medo. Do lado de Epicuro, de Leucipo, de Demócrito, de Giordano Bruno, de Copérnico, de Montaigne, de Galileu, de Darwin, de Einstein, de T. Jefferson, de Poggio Braccioli - o humanista caçador de textos clássicos que descobriu e divulgou o DE RERUM NATURA ( acerca da natureza das coisas), personagem à volta do qual se desenvolve o livro - do lado que levou às ideias do Iluminismo, à criação da ciência Moderna e da Física contemporânea. O outro lado é o lado dos mártires e dos algozes e dos que, com medo, assistem à barbárie. Ontem e hoje.
Desde o Eclesiastes bíblico ao filósofo grego Heraclito que somos alertados a tomar consciência da mudança: Tudo passa, tudo muda. Porém, hoje tudo passa tão rápido, é tudo tão efémero, é tão grande a aceleração, é tão vasta a diversidade que se oferece aos nossos sentidos, é tudo tão espetacular que o difícil é parar, reparar e pensar. Tão entregues ao negócio (nec+ótio), desprezamos o ócio que é apontado não como causa mas como uma condicionante do aparecimento da filosofia entre os gregos. Só o vagar nos permite aceder e usufruir da cultura naquilo que ela tem de mais precioso e de mais inútil: A arte e a filosofia. Por falta de tempo, por não termos vagar, por causa da pressa de chegar não sabemos bem aonde, perdemos na nossa senda de caminheiros, preciosidades.
Tudo isto a propósito do poema, inserto neste blog, abaixo – A doce voz do avô – da autoria do Dr. Leal Freire. O poema é de uma beleza extraordinária ao nível da mensagem, do ritmo, da prosódia que me faz lembrar o melhor de Augusto Gil ou de Gomes Leal.
O meu convite, ao leitor, é para que pare. E repare. Experimente dizer o poema em voz alta. Sinta-lhe o peso. Não tenha pressa.
Quantas vezes leu? Vá lá, leia outra vez.
Pedra negra, telha vã,
Postigos de pau de pinho
Caibros queimados do fumo
O chão de frinchas luradas
Noite negra, noite feia,
Freme o vento, rola a neve
É baça a luz da candeia
Bate o cravelho da porta,
É verde o molha da lenha
Enfumado o palheirinho
O caldo que ferve ao lume
Só água e boa vontade
Mas o avô conta coisas
Que excomungam fumo e fome
Douram a neve e o negrume
E fazem da água caldo de anjos.
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